Feriado em Camboja

 

Feriado em Camboja

Prelúdio

Japão, início de 1989.
Durante uma série de operações conduzidas pela força-tarefa internacional Stargazer, agentes identificaram e desmantelaram centros clandestinos de treinamento e experimentação ligados à megacorporação Star Alimentícios. Nestes locais, foram descobertas diversas drogas experimentais, mas uma delas se destacou por sua periculosidade: a S-Gamma — uma substância com propriedades de controle mental, capaz de transformar suas vítimas em “soldados-zumbis”, obedientes de forma cega à primeira pessoa que lhes dirigir uma palavra-chave durante o estado de indução hipnótica.

Investigações mais profundas revelaram que a droga não era apenas um composto químico, mas um híbrido perverso de biotecnologia moderna com práticas ocultistas, envolvendo o que algumas testemunhas chamaram de “sangue de demônio”.

Os efeitos da S-Gamma foram observados pela primeira vez em jovens japoneses sequestrados, aliciados por promessas de artes marciais, rebelião ou oportunidades no exterior. Esses jovens foram capturados por uma organização militar privada conhecida como o Exército da Vingança, liderada por um comandante misterioso conhecido apenas como Vendetta, ou "H.U.N.K". Injetados com a droga, os adolescentes foram posteriormente vendidos aos Heróis do Khmer Vermelho, uma facção comunista radical do Sudeste Asiático, então liderada por Ong Son — um veterano colossal em estatura e força, conhecido com respeito e ironia como “O Cambojano Grandão”.

Embora Ong Son tenha sido capturado durante a operação “Fim de Treino”, os Heróis do Khmer Vermelho conseguiram fugir com os japoneses drogados. Sem sua liderança, a facção acabou caindo sob controle de seu segundo em comando, Kiri An — um fanático sanguinário que sonha em se tornar rei de um novo Camboja tirânico. Ele declarou Ong Son morto, tomando o controle absoluto da facção com o apoio do Exército da Vingança e maior acesso à S-Gamma, com a qual vem criando um exército cada vez maior de soldados zumbificados.

A Stargazer compreendeu que o uso dos jovens japoneses não era apenas prático, mas também simbólico e político: uma demonstração do poder da droga sobre qualquer ideal, cultura ou vontade individual.

Após a sua libertação das mãos da seita japonesa Yagyu, Ong Son foi resgatado pela Stargazer e convencido a abandonar a estratégia da coerção e lutar por uma causa justa — reunindo novamente seus antigos aliados, mas agora guiado por princípios legítimos de libertação e autodeterminação, sob normas da lei internacional e com o compromisso de nunca mais cooperar com interesses corporativos ou exploratórios.


Por que a Stargazer se envolve

O superintendente Charles Lacroix, líder da força-tarefa Stargazer, determinou que o envolvimento no Camboja era inevitável. Caso a S-Gamma se espalhe, a Star e seus aliados poderão reconfigurar lealdades políticas no Terceiro Mundo — criando exércitos de marionetes e promovendo guerras por procuração, tudo isso mascarado por discursos de progresso.

Além disso, a recuperação dos jovens japoneses não é apenas uma missão humanitária, mas crucial para a compreensão total da S-Gamma. Caso a operação tenha êxito, a Stargazer poderá coletar amostras das diversas variações da droga e finalmente desenvolver um antídoto eficaz. O caso foi nomeado com ironia como "Operação Feriado no Camboja", alusão direta à forma como o Exército da Vingança disfarçava o tráfico humano sob o pretexto de “intercâmbios culturais” e “retiros espirituais”.

Fase Um – Infiltração e Reconexão

20 de julho de 1989.

A missão tem início com um desembarque clandestino na cidade portuária de Krong Preah Sihanouk, onde os agentes da Stargazer devem encontrar o agente Ricardo Cruz — operativo da equipe de Yunuen responsável por reconhecimento internacional. De lá ele irá os conduzir até a vila de Kanpok Trach, nas bordas do território agora dominado por Kiri An, hoje um campo minado de antigos aliados hesitantes.

Krong Preah Sihanouk


Com a possibilidade de restaurar Ong Son à liderança dos Heróis do Khmer Vermelho, resgatar os reféns japoneses e impedir a consolidação da droga experimental, a Stargazer se prepara para sua missão mais suja, ambígua e politicamente volátil até então — onde cada inimigo pode ser uma vítima, e cada vitória, uma derrota moral disfarçada.

O Acordo com Ong Son

Após a crise da prisão La Santé e com o colapso da aliança com Hatori, Ong Son foi transferido — sob risco extremo — à custódia da seita Yagyu, inimigos sutis e imprevisíveis. Antes disso, no entanto, ele aceitou uma proposta da Dra. Gunwoo, temendo cair no esquecimento por parte da própria facção que ajudou a construir.

O acordo era simples, mas ousado:

Libertar todos os sequestrados. 

Cessar toda e qualquer relação com o Exército da Vingança.

Gunwoo, por sua vez, ofereceu orientação para que Ong Son reconstruísse sua organização de forma legítima, livre de práticas exploratórias ou alianças corruptas. Sem meios seguros de mantê-lo detido, a Stargazer precisou apostar alto, confiando que ele honraria a palavra.

Antes disso, Gunwoo o interrogou exaustivamente, coletando informações valiosas sobre a estrutura dos Heróis do Khmer Vermelho: suas instalações, líderes e rotas de suprimento — informações que, se usadas contra ele, podem destruir o que resta de sua influência. E ele sabe disso.

A Ascensão de Kiri An

Durante a ausência de Ong Son, o comando dos HKV caiu nas mãos de Kiri An, um homem frio, fanático e sedento de poder, que rapidamente se aliou ao Exército da Vingança e passou a expandir o uso da droga S-Gamma. Seu plano é simples e brutal: criar um exército de soldados-zumbis leais apenas a ele, capazes de fundar um novo regime — sua versão radicalizada do antigo Khmer Vermelho.

O Exército da Vingança também lucra com isso: testa a droga em campo real, desestabiliza a região e sustenta o caos necessário para manter regimes frágeis e governos fantoches em Camboja, Vietnã, Laos e Tailândia. A constante ameaça do exército de Kiri An é o combustível perfeito para o tráfico de armas, drogas e “proteção internacional”.

No interior dos HKV, o clima é de divisão:

Alguns guerrilheiros se deslumbraram com a ideia de comandar escravos imparáveis.

Outros estão aterrorizados pelas atrocidades e pela completa perda de propósito.

Mas ninguém ousa se levantar — pois os dissidentes se tornam os próximos zumbis.

A Oportunidade

Alguns poucos guerrilheiros ainda leais a Ong Son desertaram e se escondem. Com eles pode estar a chave para reconquistar influência, libertar reféns e tomar posse dos ativos do Exército da Vingança.

Gunwoo aposta tudo em um refúgio isolado, cuja localização foi passada por Ricardo Cruz, que está na região pouco mais de um mês, viabilizando a missão. Segundo ele, o local é usado apenas pelos remanescentes leais a Ong Son. Pode ser uma armadilha? Claro. Mas Gunwoo está disposta a arriscar tudo — não apenas pelos prisioneiros, mas pela chance de compreender, de uma vez por todas, a versão S-Gamma usada pela Stardust.

Desdobramento da Operação

Para essa missão crítica, Charles Lacroix destaca os operativos Lad’ya e Shiro — mas Shiro é substituído de última hora por Elizabeth Browing, dado o nível de risco.

A operação exige precisão total e discrição máxima:

Extração dos reféns vivos.

Apreensão dos ativos do Exército da Vingança.

Retirada segura de todos os agentes envolvidos.

Se tudo correr bem, a aliança com os HKV pode ser restabelecida com Ong Son no comando.

Se falhar... o Camboja poderá cair nas mãos de um tirano ainda mais insano que Pol Pot.

Objetivos Primários

Extrair os reféns dos Heróis do Khmer Vermelho. 

Apreender o máximo possível de ativos do Exército da Vingança. 

Garantir a retirada com vida de todos os operativos.

Objetivo Secundário

Estabelecer uma aliança estratégica com os HKV, sob nova liderança de Ong Son.

Krŏng Preăh Seihănŭ

Os investigadores chegam ao Camboja sob o calor úmido e pesado da costa, desembarcando discretamente na cidade portuária de Krŏng Preăh Seihănŭ, onde o passado colonial se mistura com ruínas da guerra recente. À sua espera está Ricardo Cruz, agente veterano da equipe de Yunuen Trembley Pérez, que há semanas prepara o terreno com o cuidado de quem sabe que um passo em falso pode custar vidas.


Ricardo os leva para conhecer a guia local: Chivy San, policial veterana, de poucas palavras e olhar opaco. Eles a encontram num restaurante simples, meio vazio, onde o rádio sintonizado em ondas curtas parece resistir ao tempo como ela. Magra, baixa e marcada por anos de frustração e batalhas perdidas, Chivy fala sem rodeios:

“O Camboja já sangrou demais. E esses ‘Heróis’... só fazem piorar tudo. A polícia não quer se meter. Eles levaram a sobrinha da minha melhor amiga. Eu disse que não ia mais ficar parada.”

Ela trouxe consigo duas velhas picapes Toyota da década de 70, veículos da polícia cambojana — enferrujadas, com os bancos remendados e o motor cansado, mas confiáveis como ela.

“Uma é minha. A outra é de vocês. Não abusem.”

Chivy não apenas entrega o veículo — ela guia pessoalmente a caravana até a vila de Kanpok Trach, cruzando estradas de terra esburacadas, pontes improvisadas e postos de controle sob domínio vietnamita. O tempo todo, atenta ao horizonte e ao rádio, ela explica o contexto: o Vietnã ainda domina a região, mas está pronto para se retirar a qualquer momento, o que deixará um vazio de poder que Kiri An está ansioso para ocupar.

Antes da partida, Gunwoo reúne a equipe à sombra de um galpão desativado:

“Atenção total. Se sentirmos cheiro de emboscada, abortamos. Se parecer armadilha, abortamos. Se Chivy ou Cruz tiverem qualquer hesitação, abortamos. Essa missão é importante, mas ninguém aqui vai virar mártir.”

A poeira levanta à medida que os motores rugem.
Chivy San vai à frente. Os investigadores a seguem.
Depois de Kanpok Trach, estarão sozinhos.

Mas, ao contrário dos receios de Gunwoo, não há armadilha.

Ao chegarem ao destino, os investigadores encontram uma velha borracharia à beira da estrada poeirenta de Kanpok Trach — uma estrutura modesta de paredes rachadas e ferramentas penduradas como talismãs. Na fachada, uma placa desbotada exibe em cambojano apenas:
“Borracharia Son”.

É lá que vivem os fantasmas de Ong Son.

Chivy San, agora mais à vontade após horas de estrada, havia conversado longamente com Ong durante o trajeto. Algo mudou em sua expressão. Ao descer da caminhonete, ela os encara um a um, e pela primeira vez em muito tempo, sorri — com leveza, mas também com peso. Em seguida, endurece a fisionomia e se despede com palavras que parecem gravadas a fogo:

“Vocês me deram algo que eu não queria… esperança.
Se transformarem isso em veneno, eu juro que os caço em qualquer lugar onde estejam.”

Ela deseja boa sorte no próprio idioma, vira as costas e parte — levando consigo o rastro de todos os que um dia acreditaram demais.

Na borracharia, o grupo é recebido por Borai Son, irmão mais novo de Ong. Ao ver o gigante à sua frente, seus olhos se enchem — de lágrimas e de ira. O reencontro é tenso, amargo.

“Você devia ter morrido com os outros. Pelo menos teria levado tua culpa com você.”

Borai acusa Ong por tudo: pelas mortes, pelos sequestros, pela traição dos ideais revolucionários que seu povo nutria.

“Você transformou os Heróis do Khmer Vermelho em monstros! E agora traz agentes estrangeiros pra terminar o serviço?”

Ong não reage com raiva. Apenas se curva, abaixa a cabeça — e pede perdão.

“Não vim repetir o erro. Vim consertar o que comecei. E por isso... trouxe eles.”


Para forçá-lo a encarar o legado que deixou, Borai os conduz até o fundo da casa, onde repousa o patriarca da família: Dara Son, o avô de ambos, agonizando lentamente de câncer.

Ao vê-lo, Gunwoo se agacha instintivamente ao lado da cama, observa a coloração da pele, o ritmo da respiração, os frascos empoeirados na mesa. Sua expressão se fecha.

“Essa medicação... está obsoleta. E pior: é mal fabricada. Pode matá-lo antes do câncer o fazer.”

Sem esperar permissão, Gunwoo chama Yuki Kagawa e Dan Ji Seok, e os três montam um posto médico improvisado ali mesmo, no chão de cimento, ao lado das ferramentas e peças de borracha.

Lad’ya se aproxima de Borai, pousa uma mão no ombro dele.

“Deixa ela trabalhar. Você vai ver.”

Enquanto Gunwoo reorganiza os medicamentos e os aplica com destreza, Ong explica:

“Ela é a melhor médica que conheço. E a única que ainda acredita em cura.”

Horas depois, com o paciente estabilizado, Gunwoo se levanta, suada e exausta, e entrega a Borai um frasco com remédios mais potentes e instruções detalhadas.

“Seu avô é forte. O que fizemos vai mantê-lo por pelo menos um mês. Mas ele vai precisar de acompanhamento, exames, deslocamentos... e proteção.”

Ela faz uma pausa, firme:

“Nós podemos prover isso. A Stargazer pode prover isso.
Mas não podemos ajudar num território que nos considera inimigos.
Se essa vila — se esses homens — se tornarem hostis, não haverá mais cuidados. Só silêncio.”

Borai a encara em silêncio. Em seguida, olha para o irmão, e diz com dureza:

“Prometa. Prometa que não vai falhar com ele de novo.”

Ong olha nos olhos do irmão e responde com gravidade:

“Eu juro. Por ele... e por tudo o que destruí.”

Gunwoo entrega os remédios restantes a Borai e passa as instruções com precisão quase militar.
Borai então se vira para o grupo, respirando fundo:

“A vila é de vocês. Enquanto fizerem o que é certo...
Kanpok Trach será um refúgio.”

E assim, entre remendos de borracha, mágoas profundas e promessas renascidas, a Stargazer fincava seu primeiro ponto de apoio no território do inferno.

Ricardo aproveita a situação para chamar todos para o briefing que ele preparou. 

BRIEFING OPERACIONAL — OPERAÇÃO “FERIADO NO CAMBOJA”


Local:
Kanpok Trach
Data: 20 de julho de 1989
Horário: 18:00
Classificação: CONFIDENCIAL – STARGAZER EYES ONLY

Responsável pelo briefing: Agente Ricardo Cruz (Equipe de Reconhecimento - Trembley Pérez)

Situação Atual

A liderança dos Heróis do Khmer Vermelho (HKV) encontra-se sob domínio de Kiri An, ex-guarda real cambojano e atual agente operativo do Exército da Vingança.
Extremamente brutal, carismático e manipulador, Kiri An consolidou seu poder utilizando a droga S-Gamma como ferramenta de controle comportamental em larga escala.

Segundo relatos verificados por Cruz, os reféns japoneses estão sendo mantidos vivos como “reserva de energia”, sendo literalmente canibalizados por Kiri An em rituais pseudomilitares que ele acredita conferir força espiritual e física.

A retomada do controle por Ong Son dependerá da reconquista de suas antigas linhas de comando, principalmente os três tenentes-chave:

Objetivos Prioritários (Ativos Potenciais)

1. Narith Chum — Especialista em Comunicações e Criptografia

Formação: Academia Militar Bǎodìng Jūnxiào (China)

Situação: Leal a Ong Son por convicção ideológica, mas coopera com Kiri An por pragmatismo.

Vulnerabilidade: Parte de sua tropa foi zumbificada com S-Gamma como forma de pressão.

Missão ativa: Amanhã, Narith estará liderando uma operação para interceptar armas de uma coluna vietnamita. A abordagem nesta janela é essencial.

Valor estratégico: Possui os códigos de comunicação internos dos HKV. A captura/adesão de Chum permitirá interferência e redirecionamento de ordens inimigas.

2. Sokhann Prak — Comandante de Cavalaria Blindada e Especialista em Demolições

Formação: Academia Militar Saint-Cyr (França)

Perfil: Intelectual militarista, altamente disciplinado. Aderiu à causa de Ong Son por idealismo; permanece com Kiri An por cálculo estratégico.

Motivação: Pragmático. Considera trocar de lado se perceber Ong Son como força viável de vitória.

Recursos sob seu controle:

1 T-55 (tanque principal)

2 BMP-1 (veículos de infantaria)

1 ZSU-23-4 Shilka (antiaéreo)

1 pelotão de elite com engenheiros de combate

Importância tática: Prak controla o grosso do poder de fogo terrestre dos HKV. Sua adesão altera completamente o equilíbrio militar.

3. Dara Yim — Comandante de Logística e Transporte

Formação: Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa (China)

Habilidades: Especialista em suprimento, manutenção, mobilidade e realocação de tropas blindadas.

Vínculo pessoal: Antiga companheira de Ong Son. Continua ideologicamente oposta a Kiri An, mas está emocionalmente aprisionada.

Ponto de contenção: Seu irmão, Sareth Yim, foi sequestrado e transformado em soldado-zumbi por ordem de Kiri An. Dara colabora com o regime para manter o irmão vivo.

Hipótese operacional: Cruz acredita que Sareth está lotado em um pelotão que conecta a cadeia de suprimentos de Prak a Dara, o que torna essencial conquistar Prak antes de tentar recuperar Dara.

Valor estratégico: Se Dara abandonar Kiri An, ele perderá a espinha dorsal logística do exército, comprometendo o suprimento de munição, combustível e ração.

Análise de Prioridades – Ordem Recomendada de Ação

Narith Chum

Abordagem: Contenção e convencimento.

Resultado esperado: Acesso aos códigos de comunicação dos HKV + dissolução parcial da tropa zumbificada.

Sokhann Prak

Abordagem: Demonstração de força, combatividade e articulação.

Resultado esperado: Captura de blindados e ruptura no front de combate.

Dara Yim

Abordagem: Missão de resgate com operação cirúrgica para curar Sareth Yim.

Resultado esperado: Colapso da retaguarda logística de Kiri An.

Recomendações Finais

Após o encerramento do briefing, a agente Samantha Gagnon recomendou exercícios de adaptação em ambiente tropical/silvestre, com foco em navegação de terreno irregular, movimentação furtiva e resposta a emboscadas em vegetação densa.

Missão será retomada ao nascer do sol.
Autorização para uso de força letal apenas sob ameaça direta.
S-Gamma é um fator biológico e espiritual. Capturar usuários vivos é prioritário para estudo e neutralização posterior.

FIM DO BRIEFING
Agente Responsável: Ricardo Cruz
Autorizado por: Comando Operacional - Trembley Pérez

(21/07/1989)Líder a ser persuadido – Narith Chum

O amanhecer no interior montanhoso do Camboja ergue-se enevoado e abafado, como se o próprio ar retivesse a tensão da missão. Com os motores das caminhonetes desligados, os agentes da Stargazer observam a mata densa ao redor enquanto Ricardo Cruz se ajoelha sobre um mapa rasgado e sujo de barro, traçando com precisão a provável rota de um grupo rebelde.

“A emboscada vai ser aqui,” sussurra. “Estrada montanhosa, ponte improvisada. Um comboio vietnamita deve cruzar esse rio no fim da manhã. Chum estará esperando com seus homens.”

Narith Chum, o primeiro dos três tenentes a ser abordado, é um estrategista e operador de comunicações altamente treinado. Embora tecnicamente subordinado a Kiri An, seu passado com Ong Son e sua formação ideológica revelam um homem dividido entre a obediência forçada e a memória de um ideal traído. Sua lealdade, como o próprio Cruz alerta, é uma corda esticada prestes a arrebentar.

Narith Chum

O plano de Kiri An é claro: manter Chum sob controle zumbificando parte de seus homens com S-Gamma, tornando-o dependente e cercado. Se Chum tiver esperança de voltar a pensar por si mesmo, será agora — antes que a droga engula o resto de sua tropa.

Com base nos rastros de rádio e sinais dispersos no espectro, Ricardo triangula a posição do pelotão. Ele deixa o grupo a pouco mais de um quilômetro do local, preparando sua posição de observação e prometendo estar ao alcance de uma chamada de rádio para resgate ou reforço.

“Se algo der errado, chame por ‘Cruz’. Eu estarei ouvindo.”

Gunwoo, sempre clínica e precisa, aproveita a pausa para fazer um lembrete firme:

“Eles são vítimas. Se possível, sem tiros letais. Estamos aqui para quebrar um ciclo, não continuar outro.”

Ela ordena o uso de munição não letal sempre que viável, principalmente com os soldados-zumbis.

Sob orientação de Samantha Gagnon, o grupo parte em formação dispersa, usando a mata como camuflagem. Para manter-se fora do alcance das ondas de rádio detectáveis, Gunwoo determina que o time mantenha distância mínima de 200 metros da coluna de Chum até que o contato visual seja estabelecido.

“Quando localizarem o grupo, retornem e reposicionem a equipe a 100 metros. Só então faremos a abordagem.”

A tarefa de reconhecimento silencioso cabe a Ong Son e Lad’ya, os únicos com a experiência e presença física capazes de se infiltrar sem levantar suspeitas — e ainda assim, caso fossem notados, intimidar.

Na espreita entre cipós e lama, os dois seguem em silêncio. Em pouco mais de uma hora, a missão ganha forma: o grupo de Chum está ali, em marcha até o ponto da emboscada.

Com a localização confirmada, Ong e Lad’ya retornam. Gunwoo monta a operação de rádio com apoio remoto de Hiyata Mamoru, que comanda as comunicações criptografadas a partir da base em Kobe.

“Saru chamando Bunny,” sussurra Mamoru pelo canal seguro.
“Bunny na escuta,” responde Gunwoo com naturalidade, enquanto calibra o transmissor.

Após alinhar a frequência de Chum, Ong Son assume o microfone.
Sua voz, pela primeira vez em muito tempo, tem um tremor sincero.

“Chum... é Ong. Estou vivo. E não voltei pra repetir o passado. Voltei pra consertá-lo.”

Uma pausa longa. O rádio chia. E então, a voz de Narith Chum, seca e dura como pedra:

“Fico feliz por saber que ainda vive... Mas também queria que estivesse morto, maldito. Pelo que fez, pelo que deixamos virar…”

A tensão no grupo é palpável. O silêncio da selva amplifica cada batida do coração.

Mas Chum se isola do grupo, deslocando-se para um ponto seguro da estrada onde possa continuar a conversa fora do alcance auditivo dos soldados-zumbis. Isso por si só já é um avanço. Ele quer ouvir — mesmo que ainda não esteja pronto para perdoar.

“Fala. E seja convincente. Porque a verdade é que só estou ouvindo por respeito ao homem que você já foi.”

A diplomacia de campo vai começar.

Na encosta da colina coberta por bambus e folhas úmidas, o rádio estala com ruído seco, e a voz de Narith Chum retorna, desta vez mais firme — mas carregada de mágoa.

“Você pôs tudo a perder, Ong. Foi você quem abriu as portas. Nós lutávamos por liberdade… agora olhe para nós: sequestradores, carniceiros, servindo um novo senhor... e nem temos consciência disso.”

A voz de Chum é acompanhada por sussurros ao fundo — seus homens mais próximos, ainda confiando nele. Alguns, provavelmente sob efeito da S-Gamma, conversam, riem, fumam. Não há nada de anormal neles, exceto a nova bússola moral que agora os orienta: Kiri An.

Ong Son respira fundo, aperta o transmissor.

“Você tem razão. Eu deixei isso começar. Eu me curvei, deixei o poder cegar meu ideal. E agora... eu estou pagando por isso. Só que não com arrependimento, Chum. Com ação.
Estou aqui para consertar.
E trouxe aliados para isso.”

A conversa se prolonga, tensa. Chum escuta. Avalia. Questiona.

“E esses aliados? Outra força estrangeira? Outro mestre oculto no jogo das nações?”

Ong responde com firmeza:

“Eles não representam nenhum governo. São a Stargazer — uma força internacional que nasceu para combater os crimes fascistas que os impérios modernos deixaram crescer. Eles não querem tomar nosso país, Chum. Eles querem impedir que o arrastem ainda mais para o abismo.”

Hesitante, Chum aceita ouvir a tal agente.

Gunwoo assume o canal. Sua voz não é autoritária, mas segura. Precisamente diplomática, com a energia de quem está acostumada a negociar entre feridas abertas.

“Chum, não estamos aqui para comandar. Estamos aqui para impedir que monstros como Kiri An e a Star Corp nos reduzam a ferramentas.
Se for pelo pragmatismo, aceite nossa ajuda. E se, no fim disso, quiser nos ver partir… partiremos.”

Um longo silêncio. Depois, o rádio chia:

“Você fala bem, doutora. E ouve melhor do que muita gente. Muito bem. Eu topo. Mas há um problema.”

Chum explica, com a voz quase abafada:

“Metade do meu pelotão está sob S-Gamma. Eles são meus homens. Ainda são. Mas... se souberem que vou abandoná-lo, me matarão. Ou pior — me delatarão.”

Gunwoo responde com calma:

“Nós temos o antídoto. Mas não podemos usá-lo em campo sem um plano.”

É então que Lad’ya se inclina, pensativo, e propõe:

“Vamos nos disfarçar. Só um pequeno grupo. Cientistas. Fingimos ser enviados do Exército da Vingança para vacinar os soldados contra malária ou outra doença tropical. Aplicamos o antídoto no processo.”

A ideia é boa — mas há um detalhe que Gunwoo logo aponta:

“Eles já foram vacinados contra malária. Isso vai levantar suspeitas.”

Silêncio. Então, Gunwoo sorri de lado, iluminada por um lampejo de inspiração:

“Diga que o comboio vietnamita está transportando material radioativo capturado dos imperialistas.
A injeção será a ‘substância B-43’ — um reforço de resistência física e proteção contra radiação, um projeto especial da Star. Os soldados já ouviram esse tipo de coisa antes. Vão engolir.”

Chum concorda. É uma boa cobertura. E uma narrativa que os soldados — mesmo sob o efeito da droga — reconhecerão como plausível.

Momentos depois, no canal de rádio aberto entre os soldados, a voz de Narith Chum ecoa firme:

“Atenção, irmãos.”
“Recebemos ordem direta de Kiri An. O comboio carrega equipamento capturado dos imperialistas — material experimental, radioativo. Há risco de contaminação. O Exército da Vingança está enviando uma equipe médica com injeções reforçadas de resistência física, adaptadas pelos próprios cientistas da Star para nosso uso.”

“Todos devem seguir o protocolo. Recusa será tratada como sabotagem.”

O transmissor se fecha. O zumbido da tensão volta a tomar conta do silêncio.

É a hora.
O disfarce está montado. O antídoto está pronto.
E pela primeira vez, Ong Son não carrega apenas a culpa — mas também, um plano.

Os céus de chumbo pairam sobre o vale montanhoso quando o grupo avança. A encosta rochosa ao norte abriga o destacamento de Narith Chum, junto ao equipamento de rádio e seus seis guerrilheiros mais confiáveis. Do outro lado da clareira, ainda dispostos em posição de emboscada, dez combatentes conversam, mantêm suas armas limpas, cantam entre si. Estes são os outros — os marcados pela droga. Os “zumbis”, como muitos os chamam, embora o nome não lhes faça justiça.

Eles sorriem, trocam piadas, demonstram preocupação com as famílias, debatem comida e saudade, como qualquer soldado em campo. Mas por trás do riso, há algo profundamente distorcido: seus corações batem por Kiri An. Não por escolha, mas por redirecionamento. A S-Gamma não rouba a alma. Ela realoca a bússola moral — e por isso, é tão terrivelmente eficaz.

Os agentes da Stargazer se aproximam com passos firmes.

Gunwoo, Dan Ji e Yuki estão vestidos como cientistas do Exército da Vingança — o disfarce é convincente, quase natural, sobretudo porque Dan Ji e Yuki, em algum ponto de seus passados, de fato já serviram involuntariamente à Star Corp.

Lad’ya, por sua vez, assume a persona de soldado veterano, escoltando a equipe com naturalidade e uma postura que inspira respeito. Mas antes de entrarem no vale, ele olha de esguelha para Gunwoo, franzindo as sobrancelhas com leve provocação:

“Doutora, a senhora está... convincente demais. Parece uma cientista que perdeu o irmão num teste de armas biológicas e agora tem sede de vingança. Vai atrair atenção.”

Gunwoo sorri — por trás dos óculos e do cabelo preso com precisão cirúrgica.

“Então finja que estamos discutindo detalhes técnicos. Assim eu me recalibro.”

A aproximação se dá sem resistência. Narith Chum repassa as ordens com naturalidade e voz de comando. O anúncio das vacinas — o protocolo da substância B-43 — não levanta suspeitas. Pelo contrário, dois dos soldados mais próximos, aqueles que Lad’ya havia impressionado durante a chegada, se adiantam para serem os primeiros na fila.

Com autoridade médica, Gunwoo orienta:

“Dois grupos, formem fileiras. Injeção no braço esquerdo. Mantenham a respiração regular. Sentirem náusea, avisem imediatamente.”

Ela e Yuki inoculam os soldados um a um, enquanto Dan Ji e Lad’ya preparam as seringas com o antídoto. A operação corre com precisão cirúrgica.

Em minutos, os dez soldados afetados pela S-Gamma são tratados.

O efeito é imediato — e devastador.

O brilho nos olhos deles muda. Pequenos gestos ganham peso. A consciência retorna como uma enxurrada de memória e culpa.

Primeiro vêm os olhares — confusos, estranhamente aflitos. Depois, o tremor nas mãos. As vozes embargadas. A realização: as ordens que seguiram, os amigos que entregaram, os inocentes que calaram... tudo foi feito de livre vontade roubada.

Um dos soldados, um jovem com uma tatuagem de estrela na clavícula, grita. Agacha-se no chão, tapa os ouvidos como se pudesse deter o barulho da própria consciência.

“Eu... Eu... Eu disse que era pela revolução! Que ela era traidora! Mas ela só queria ver o filho! Meu Deus!”

Ele desaba, tomado por um colapso nervoso violento.

Imediatamente, Gunwoo larga a maleta, ajoelha-se ao lado dele. Dan Ji segura seus ombros para que não se machuque. Narith Chum, embora calejado, segura as lágrimas e o abraça:

“Você está de volta, irmão. E é isso que importa. Nós vamos passar por isso. Juntos.”

Outros soldados caem de joelhos. Alguns choram em silêncio. Um deles segura a mão de outro com força, como se só o calor de um companheiro pudesse mantê-lo inteiro. Outro grita para o ar uma jura de vingança contra Kiri An.

A tropa, agora unida — zumbis e “livres” — torna-se um só corpo de cicatrizes.

A operação foi um sucesso tático, mas o preço emocional se revela alto.
A Stargazer libertou corações, mas agora precisa lidar com suas ruínas internas.

Lad’ya, Gunwoo, Yuki e Dan Ji sabem que o maior inimigo agora não é o Exército da Vingança.
É o eco do que se perdeu.

O vale havia mudado.

Em pouco mais de uma hora, o campo de emboscada se tornara uma sala de recuperação. Não havia tiros, não havia ordens. Havia gente deitada no chão, chorando ou rindo em nervosismo, abraçada a colegas de combate, buscando um norte no meio da névoa que a S-Gamma havia deixado para trás.

Os agentes da Stargazer — Gunwoo, Dan Ji, Yuki e Lad’ya — alternavam entre curativos, palavras de consolo e explicações. Alguns dos soldados curados mantinham os olhos baixos, como se olhassem diretamente para a vergonha em seus próprios peitos. Outros, enrijecidos, queriam respostas.

“Vocês não são do Exército da Vingança,” disse um deles.
“Então quem são? Quem faz isso... e depois ajuda?”

Gunwoo os encara, limpa as mãos com um lenço úmido manchado de terra e sangue, e responde sem hesitar:

“Somos da Stargazer.
Não somos Estado. Não somos império.
Somos quem caça aqueles que esquecem o valor da vida humana.”

A resposta cala fundo. Um dos soldados, ainda ajoelhado, esboça um sorriso torto. Outro assente em silêncio, enxugando os olhos com as costas da mão.

Da subida da colina, o som de passos anuncia a chegada de reforços.

Descendo pela estrada de terra vêm Samantha Gagnon, ainda suada e com o sua besta nas costas, e Beth Brawl, a montanha de cabelos alvos marrenta. Juntas, como leões fêmeas guardando a retaguarda de algo muito mais perigoso.


E com elas, como um pilar de concreto com olhos humanos, Ong Son, o Cambojano Grandão.

Quando os ex-zumbis o veem, alguns tremem. Outros gritam. Uma das mulheres da tropa sussurra, com os olhos marejados:

“Eles... eles não podem ser porcos capitalistas. Olhem quantas mulheres lutam com eles...!”

A observação é recebida com risos nervosos, e logo uma espécie de calor humano toma conta do ambiente. Mesmo feridos, mesmo em colapso, os soldados se aproximam de Ong — tocando seu braço, abraçando suas pernas, chorando como filhos voltando para casa.

Narith Chum, agora firme e orgulhoso, se posiciona ao lado de Ong Son. O gesto diz tudo.

Ong ergue os braços e o vale silencia.

“Camaradas,” sua voz ecoa como trovão sobre a terra úmida.
“Olhem para mim. Eu não volto como salvador. Volto como culpado. Fui eu quem colocou vocês nesse caminho. Fui eu que deixei a ideia dos nossos heróis ser corrompida...
…mas também sou eu que escolho, agora, colocar fim nesse erro.”

“Os Heróis do Khmer Vermelho não foram feitos para servir senhores estrangeiros.
Não fomos feitos para dopar os nossos.
Fomos feitos para proteger o povo cambojano da fome, do império e do esquecimento.

Ele pausa, olhando nos olhos daqueles que antes chamavam Kiri An de mestre.

“Agora, vamos retomar essa luta. Com o punho limpo. Com a mente livre.
Se me seguirem, juro diante dos nossos mortos... faremos justiça.
E o nome ‘Heróis do Khmer Vermelho’ voltará a significar o que sempre deveria ter sido:
o punho cerrado da liberdade.”

O silêncio dura um segundo. Talvez dois. E então:

Um urro.
Um grito coletivo.
Punhos ao alto.

“ÔÔÔÔÔNG! ÔÔÔÔÔNG!”

O chão parece tremer. Mesmo feridos, mesmo sem saber o dia de amanhã, os guerrilheiros saltam, se abraçam, cantam como quem foi devolvido à vida.

Ali, sob o céu cinza e sobre o barro da montanha, a Stargazer testemunha sua primeira vitória no Camboja.
E Ong Son, agora erguido em ombros, não é mais o traidor que fugiu.
Ele é, novamente, o herói que voltou.

Kanpok Trach – O Peso da Consciência 

O sol da tarde tingia de dourado as palhoças de Kanpok Trach quando os investigadores retornaram com Narith Chum e seus quinze guerrilheiros. A vila, antes silenciosa, agora fervilhava de murmúrios e passos apressados. Os recém-libertos da S-Gamma caminhavam como sonâmbulos acordados à força, alguns encostando-se uns nos outros como se temessem desmoronar. 


Gunwoo organizou um espaço sob a sombra de uma mangueira, onde os guerrilheiros se sentaram em círculo. Alguns encaravam as próprias mãos, como se não as reconhecessem. Outros olhavam para o horizonte, perdidos em memórias que agora voltavam com a clareza de uma faca. 

 — "Vocês não estão mais sob controle dela," Gunwoo disse, voz baixa, mas firme. "Mas a cura não apaga o que foi feito. Só dá a chance de escolher de novo." 

 Um dos homens, mais jovem, com cicatrizes de queimadura nos braços, começou a tremer. 

 — "Eu matei ela..." ele sussurrou, os olhos marejados. "Minha irmã... ela só queria fugir. Eu chamei ela de traidora. Eu... eu atirei." 

 Lad’ya se ajoelhou ao seu lado, colocando uma mão pesada em seu ombro. Não disse nada. Não precisava. O guerrilheiro agarrou seu braço como um náufrago e desabou, soluçando. 

 Enquanto isso, Dan Ji e Yuki circulavam entre os homens, checando pressão, aplicando sedativos leves para os casos mais críticos. Um tailandês de expressão vazia recusou o comprimido que Yuki ofereceu. 

 — "Não mereço alívio," ele resmungou. 

 — "Não é sobre merecer," Dan Ji respondeu, secamente. "É sobre não desistir antes da hora." 


Gunwoo conversa e conforta incansavelmente os guerrilheiros e famílias, até um senhor, pai de um dos garotos notar o quanto ela mesma está cansada e, com uma caneca de chai na mão, pede para que ela sente e descanse um pouco. 

 Do outro lado do pátio, Ricardo Cruz arrancou uma risada abafada de um cambojano de queixo quadrado, contando uma história em português quebrado sobre um "cara que tentou roubar um jacaré e acabou casando com a irmã do bicho." Ninguém entendeu direito, mas o absurdo da entonação foi suficiente. 

 Samantha Gagnon e Beth Brawl organizavam armas e suprimentos, separando o que ainda servia. Beth tentou puxar conversa com um dos locais, mas após três tentativas frustradas de comunicação, resmungou: 

 — "Precisamos de um dicionário de cambojano pra ‘vai se foder’." 

 Samantha sorriu, mas seus olhos não perderam o foco. 

As Escolhas 

Dos quinze, quatro não queriam continuar. Dois deles — um pescador vietnamita e um ex-fazendeiro — foram convencidos pelas próprias famílias a ficar. 

 — "Se você desistir agora, quem vai impedir que isso aconteça de novo?" uma velha de rosto enrugado perguntou ao neto, segurando seu rosto com mãos calejadas. 

 Os outros dois, um tailandês e um sul-coreano, só queriam voltar para casa. 

 — "Eu não consigo mais segurar uma arma," o coreano admitiu, olhando para Ong Son. "Não depois do que eu fiz sob aquela maldição." 

 O gigante cambojano inclinou a cabeça. 

 — "Kanpok Trach é sua casa até conseguirmos te levar pra Coreia. Mas prometa uma coisa: quando estiver seguro, conte sua história. Para que ninguém mais caia nessa armadilha." 

 O homem assentiu, aliviado e amargurado. 


Após darem um jeito nos guerrilheiros, Ricardo chamou todos para o debriefing sobre o que fazer em seguida. O grupo deveria agora convencer o segundo comandante dos Heróis do Khmer Vermelho a se juntar à rebelião... ou neutralizá-lo.

Se discutiu sobre Sokhann Prak.

O mapa desgastado estava aberto sobre a mesa da borracharia, iluminado por uma lamparina que projetava sombras irregulares nas paredes. Sokhann Prak, o "Fantasma de Saint-Cyr", era o alvo. 

— " Prak é um comandante formado na famosa Saint-Cyr, lutou ao lado dos franceses contra o Vietnã, mas desertou para o lado vietnamita ao ter previsto o desastre que seria a batalha de Dien Bien Phu. Retornou ao Camboja onde se filiou aos Heróis do Khmer vermelho. É o melhor comandante do antigo grupo do Ong Son e não é um fanático como Kiri An"

Em seguida, Narith Chum explicou, traçando uma linha no mapa com o dedo. "Ele é um calculista. Se vir que Ong Son tem mais força, ele muda de lado sem hesitar." 

— "Então vamos mostrar força," Lad’ya resmungou, os olhos fixos no ponto onde a estrada serpenteava entre colinas rochosas. "Vamos emboscá-lo, pode ser na própria vila, é possível se chegarmos cedo o que acham?" 

— "Hm, não sei." Samantha falou, cruzando os braços. "Se formos direto para a vila, podemos cair na armadilha dele, se ele for tão bom ele deve ter deixado homens lá. Melhor pegá-lo no caminho, marchando e despreparado." 

Ricardo Cruz inclinou-se sobre o mapa, apontando para um trecho estreito da estrada. 

— "Aqui. Dois acessos, terreno elevado dos dois lados. Ele vai passar por aqui antes de chegar à vila. Se o interceptarmos, controlamos o diálogo." 

 Gunwoo, até então silenciosa, ergueu os olhos do mapa. 

— "Essas colinas têm templos abandonados. Podemos colocar atiradores escondidos." 

Ong e Narith trocaram um olhar impressionado. 

— "Ela está certa," Narith confirmou. "São ruínas antigas. Poderíamos usar, diabos, Prak pode estar usando elas."

Ong confirma com a cabeça.   — "Assim como ele pode ter homens na vila, pode ter no caminho."

— "Então nós chegamos lá primeiro," Gunwoo decidiu. "Lad’ya e Samantha se posicionam lá. Tiros de advertência, depois abrimos diálogo pelo rádio." 

— "E se ele ignorar o rádio?" perguntou Lad’ya. 

— "Aí a gente grita," Ricardo sorriu. "Nada como um pouco de pressão psicológica." 

Os Preparativos 

A equipe se dividiu: 

- Atiradores de Elite:

  - Lad’ya (posição primária, cobertura frontal) 

  - Samantha Gagnon (besta de virotes explosivos, flanco direito) 

  - Beth Brawl (metralhadora pesada, supressão) 

  - Ricardo Cruz (FN FAL, cobertura móvel) 

- Força Terrestre: 

  - Ong Son e Narith Chum liderariam os dez guerrilheiros, posicionados para bloquear a estrada. 

  - Gunwoo, Dan Ji e Yuki ficariam na retaguarda, prontos para evacuação médica se necessário. 

 

— "Prak terá quinze homens," Narith alertou. "Todos veteranos. Se ele sentir que estamos em vantagem, vai negociar. Se não…" 

— "Aí a gente dá um show," Beth resmungou, acariciando a coronha de sua PKM. 

Gunwoo olhou para o grupo, calculando. 

— "Precisamos estar no local às 02:00. Isso significa acordar à 1h." 

Ricardo confirmou com um aceno. 

— "Durmam cedo. Amanhã, ou Prak se junta a nós… ou descobrirá por que a Stargazer não perde." 

O silêncio que se seguiu foi pesado, mas determinado. Cada um sabia o que estava em jogo: blindados, artilharia e, mais importante, o homem que poderia virar a guerra contra Kiri An. 

O briefing terminara, mas a noite ainda estava jovem. Sob o luar prateado, as sombras alongadas dos agentes da Stargazer e dos guerrilheiros de Narith Chum se moviam como espectros no terreno acidentado às margens de Kanpok Trach. 

Samantha Gagnon, equilibrando-se numa rocha inclinada com a agilidade de uma felina, apontou para o barranco à frente—uma subida íngreme de terra solta e raízes expostas. 

— "Prak não vai nos esperar em terreno plano. Se escorregarem aqui, morrem lá. Então não escorreguem." 

Ong Son, com seus dois metros de músculos e cicatrizes, cruzou os braços. 

— "Quem cair, volta e sobe de novo. Até não cair mais." 

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A Queda e a Quarta Chance

Yuki Kagawa e Dan Ji Seok—os dois mais acostumados a hospitais do que a campos de batalha—lutavam. Na primeira tentativa, Yuki escorregara logo no início. Na segunda, Dan Ji perdeu o equilíbrio ao meio do caminho. Na terceira, ambos rolaram ladeira abaixo, cobertos de terra e frustração. 

Foi então que Yuki desabou. 

— "Não consigo... não consigo!" Ela enterrou o rosto nas mãos, os ombros tremendo. Dan Ji, suado e com os nós dos dedos brancos de tanto se agarrar às raízes, sentou-se ao seu lado em silêncio. 


Narith Chum aproximou-se, olhando para os dois com um misto de dureza e compreensão. 

— "Porra, garotos..." Ele se ajoelhou ao lado deles, a voz áspera mas sem rancor. "Eu sou um soldado. Comando soldados que marcham, atiram e obedecem ordens. Eles parecem durões, mas eles sangram. E eles morrem." 

Yuki ergueu o rosto, as lágrimas limpas pela poeira. 

Narith continuou, espetando o dedo no peito de cada um: 

— "Vocês? Vocês podem estancar o sangue deles. Podem evitar que eles morram. Não têm ideia de como são importantes na retaguarda quando os feridos começam a cair." 

Dan Ji engoliu seco. Yuki limpou o rosto com a manga. 

— "Agora subam a porra desse barranco!" Narith rugiu, mas havia um brilho nos olhos—quase paternal. 

Na quarta tentativa, Yuki agarrou-se às raízes como se fossem cordas salva-vidas. Dan Ji, ofegante, empurrou-a por trás. E quando finalmente chegaram ao topo, suados, ensanguentados, mas vencedores, até Ong Son deu um aceno de respeito. 

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No descanso posterior, reunidos em torno de uma fogueira improvisada, as histórias fluíram como o saquê que Ricardo conseguira num cantinho da vila. Beth estava de bobeira contando piadas sobre padres e devotas gravidas quando Lad’ya quis saber um pouquinho sobre a vida guerrilheira dela.

Beth Brawl, esfregando a coronha de sua PKM, falou: 

— "Na Irlanda do Norte, a gente fazia barril de bomba com fertilizante e gasolina. Uma vez, um camarada tropeçou no detonador. Acordei com os peixes do rio chovendo em cima de mim." Ela riu, como se fosse uma lembrança de infância. 

Samantha, afiando um virote, seguiu: 

— "No Golfo da Guiné, piratas somalis atacaram nosso navio. Matei três com um arco recorvado—era o que tinha à mão. Depois descobri que eles estavam sequestrando crianças. Não me arrependo." Seus olhos frios refletiam as chamas. 

Ricardo sorriu, girando o cano de sua FN FAL: 

— "Na ALN, a gente chamava o Pará de 'inferno verde'. Uma vez, ficamos três dias comendo formiga tanajura porque o Exército cortou nossos suprimentos. Mas pegamos o coronel corrupto que mandou queimar as roças dos camponeses." Ele olhou para o céu. "Bons tempos." 

Foi então que ele se levantou, esmagando o cigarro no chão. 

— "Bom, amanhã o inferno começa de novo. Durmam. Ou vão me fazer carregar vocês no colo até a emboscada." 

Os sorrisos se dissiparam, mas a determinação permaneceu. Enquanto se dispersavam, cada um para seu canto, o vento noturno sussurrava uma verdade: 

A guerra não espera. E eles também não.

22/08/1989 Lider a ser persuadido – Sokram Prak

 


O dia começa às duas da manhã para o grupo da Stargazer e os rebeldes de Ong Son, eles marcham silenciosamente até a área marcada no mapa onde deveriam emboscar Sokram, mas uma coisa é estudar mapas, outra é estar lá. Ricardo logo notou que, das duas estradas, Sokram nunca pegaria a enlamaçada, muitas possibilidades de deixar rastros e alertar o Exército cambojano, mesmo se o caminho seja mais curto, não. Sokram usaria a estrada de britas, mas longa, mas com menos chance de alertar os cambojanos. Gunwoo pediu certeza para o parecer de Ricardo, ele a deu. Narith comandou pelo menos dois de seus guerrilheiros ficarem de olheiros na outra estrada, apenas no caso da máxima – não há certezas na guerra – se valer nesse caso.

Ao baterem a estrada eles acabaram notando que Prak avia se precavido mais do que eles haviam esperado, não só colocou homens escondidos na vila onde ele pretendia emboscar os blindados cambojanos, mas também na estrada, onde Ong Son e Samantha notaram um discreto alçapão de observação ocultado na beira de estrada, uma fina fumaça de café da manhã saia de lá se mesclando à névoa da manhã.

Felizmente, Prak não havia posto atiradores nos dois templos arruinados, mas Lad’ya e Gunwoo concordaram que seria muito óbio postar atiradores neles, no lugar, os guerrilheiros montaram decoys de palha lá, armados com velhas dragunovs descarregadas. No lugar, os quatro atiradores designados, utilizaram arvores estratégicas na área, usando um método de escalada que aprenderam dos guerrilheiros, também treinaram táticas de intimidação, como preparar múltiplas armas simultaneamente, para que quem ouça o barulho ache que existem mais soldados do que realmente há (ideia de Beth Brawl).

Prak era bom, seus soldados treinados, mas Ong Son e os membros da Stargazer eram simplesmente melhores, os atiradores se posicionaram com maestria, Narith Chum posicionou seus soldados nos lados da estrada, escondidos na névoa matutina como fantasmas, Gunwoo, agora munida com uma Dragunov sendo ela, além de tudo, uma exímia atiradora, dava suporte e proteção a retaguarda. A armadilha estava pronta, Prak cair nela não era uma questão de se, mas de quando.


Dito e feito, Prak e seus homens surgiram às 3:00 da manhã. Prak estava dentro de um caminhão carregada de frutas de dendê e acompanhado do motorista, flanqueando o caminhão, 8 homens, isso significava que ele havia distribuído 6 no caminho e na vila. Apesar de atentos, eles não tiveram nenhuma chance de detectar a armadilha.

Lad’ya, posicionado nas alturas, dentro da copa de uma árvore, observou a aproximação com sangue frio. Ele apertou o gatilho da Banshee, seu fuzil experimental anti-tanque, e a bala disparou com a força de um trovão. Quando a árvore caiu no caminho de Prak, interrompendo sua rota, foi o primeiro aviso — um estrondo colossal reverberando pela mata.


Quando a árvore caí bloqueando o caminho, Prak não perde tempo, coordena seus homens em posições de batalha e examina os arredores com um binóculo, logo encontrando um “atirador” na ruína do templo (era um espantalho, mas ele não sabia). Quando Narith, no grito fala:

“Sokram Prak! Você está cercado! Ligue seu rádio e vamos conversar!”

Prak range os dentes, e gesticula para seus guerrilheiros um movimento de pinça contra o espantalho, mas Narith o frustra ordenando seus homens engatilharem suas armas (Beth engatilha duas armas ao mesmo tempo), o barulho deixa claro para Prak que, de fato, ele está cercado tendo apenas a via traseira para a saída desonrada – a fuga. Ele ri, derrotado, notando que foi brilhantemente pego em uma armadilha, mas porque Narith faria isso? Ele liga o rádio para descobrir.

- Narith, seu traidor. – Prak fala pelo rádio. – Me explique o que é isso! É algum teste doentio de lealdade de Kiri An ou algum ato de rebeldia bêbada de ideologia e alienada da realidade?

- Nem um nem outro – Responde Ong SOn pelo rádio surpreendendo Sokhram Prak. – É uma retomada das rédeas dos Heróis do Khmer Vermelho para orientá-los para o caminho certo. E quero você conosco.

- Ong, seu maldito!? Você está vivo e aqui? – Prak fala surpreso. – Você não havia sido capturado no Japão.

Ong Son não nega. – Sim, fui capturado pela Stargazer, eles abriram meus olhos, para meus erros...

- De ter se envolvido com estrangeiros! – Prak interrompe. – Essa Stargazer está com você agora?

- Estão. – Ele responde. – Minha volta não seria possível sem eles...

Prak ri amargurado. – Não vê que está caindo no mesmo erro? Que está confiando em novos estrangeiros?

- Não me interrompa, Prak! – Ong vocifera. – Eles não são como esse Exército da Vingança, na realidade eles se opõem a eles. Como dizia, eles me abriram para a realidade de que uma luta justa deve ter soldados voluntários, e não forçados por meios vis.

- Não existem pessoas que querem ajudar terceiros sem um ganho, qual é o ângulo deles?

Foi então que Gunwoo entrou na conversa de rádio (que se passava com os interlocutores em suas posições, sem se revelar).

- Comandante Prak, sou Gi Gunwoo, diretora dessa operação da Stargazer e aliada de Ong Son. – Ela fala em francês, sabendo que Prak conhece a língua.

- Nosso ângulo é devolver Ong Son a seu lugar de direito, como líder dos Heróis do Khmer Vermelho, e lhe aviso, conseguiremos isso com ou sem o senhor.

Prak rí admirado do desafio da mulher, segurando firme o rádio comunicador.

- Mas o que vocês ganham com isso, diretora Gunwoo? – Ele pergunta em francês.

- Um aliado na Indochina contra o Exército da Vingança, um local seguro na região para nossas operações, a certeza que a região não será influenciada por plutocratas e imperialistas. Ela responde.

- Tudo muito admirável, tudo muito bonito. – Prak responde, com um tom meio sarcástico. – Mas o que vocês GANHAM.

Gunwoo solta um risinho no rádio. – Comandante Prak, no nosso ramo, informação é a mais valiosa commodity. Com a derrota do Exército da Vingança aqui, capturaremos vários de seus agentes e ativos, conseguiremos novas tecnologias, novos materiais e novas informações que valem mais que ouro para outras agências de espionagem. Tudo isso enquanto entregamos a vocês o que é de vocês por direito, exigindo em troca apenas uma via de negociações, negociações justas e sem clausulas nas entrelinhas.

Prak se impressiona com a resposta honesta e crível.

- Você é boa nisso, devo admitir... Você e sua equipe. Embora já tenha detectado dois de seus atiradores... assumo que são seis? Ele pergunta.

- Não discuto estratégia com inimigos... Vai se juntar a nós? – Gunwoo pergunta.

- Quero falar com Ong. – Ele responde seco.

-Estou aqui – Ong interrompe.

- Você me venceu na estratégia, e agora fui vencido no argumento, lhe congratulo grandão. Mas você esteve preso por meses... e não sigo líderes que não conseguem se defender. Prove que ainda é forte, meu Savate contra seu Vovinam, em território neutro, 100 metros a frente, só eu e você.

- Ong ri – Feito velho, como preciso de você vivo vou pegar leve.

Antes de Prak responder, ele gesticulou para seus homens, que baixaram as armas. O alívio foi instantâneo, e o ar tenso se dissipou.
Prak olhou para a estrada, o sorriso finalmente aparecendo em seu rosto. Ele sabia que havia sido pego, mas não perderia a oportunidade de testar Ong Son.

— "Você verá que esse velho tem novos truques na manga."

Beth Brawl e Lad’ya foram posicionados a uma distância segura para observar a luta. Não era uma questão de simplesmente assistir, mas garantir que a integridade de ambos os combatentes fosse preservada e que, se necessário, intervissem. A tensão no ar era palpável; tudo dependia da força e da decisão desses dois homens.

Prak e Ong Son, de ambos os lados da arena improvisada, removeram suas armas, as proteções e o equipamento tático. Não havia mais necessidade de armamento — era um duelo primitivo, onde a força bruta e a técnica refinada de combate seriam o único fator determinante.


Com um movimento rápido e preciso, Prak avançou primeiro. Ele corria em direção a Ong Son, a terra sob seus pés fazendo o som de batidas pesadas. Com a força de um cavalo, Prak disparou um chassé frontal — um golpe planejado para rasgar a defesa de qualquer oponente. Mas Ong Son, com a calma e precisão de um veterano, bloqueou o golpe com um movimento natural, como se estivesse apenas afastando uma brisa. Atacar a guarda de Ong foi como atacar uma muralha feita de aço: impenetrável e implacável.

Prak tentou se reposicionar, mas foi atraído exatamente para onde Ong Son queria que ele fosse. O gigante cambojano, com um movimento de incrível agilidade, o agarraram com precisão militar, fazendo Prak perceber que não havia mais espaço para escapar. Prak tentou, com toda sua habilidade, evadir-se, mas falhou miseravelmente. Ong Son, com a força de um gigante, executou seu icônico đòn chân — um golpe de pernas que, com um impulso brutal, arremessou Prak contra uma rocha.

O som do impacto foi ensurdecedor, e por um momento, Prak perdeu o fôlego. Ele ficou atordoado, os olhos girando como se estivesse tentando voltar à realidade. Ong Son, com a calma de um homem que já lutou suas batalhas, esperou ele se recompor.

Quando Prak finalmente se ergueu, a raiva queimando em seu olhar, ele rangeu os dentes. Determinado, ele se preparou para continuar a luta. Ong Son, com sua impressionante força e destreza, caiu sobre ele com um chute curto, rápido e direto, mas Prak reagiu, defendendo o golpe com agilidade e dando um passo para trás, tentando se reposicionar.

Prak, com uma fúria contida, foi para o ataque novamente, tentando agarrar Ong Son com um movimento de violência primitiva, mas Ong Son, com a rapidez de um tigre, se afastou, desferindo dois socos seguidos e, com um último chute certeiro, atingiu Prak no abdômen, fazendo-o cair de joelhos, sem forças para continuar. Prak, agora sem forças nas pernas, desabou no chão. O choque do golpe foi tão forte que ele não conseguiu se levantar.

Ong Son, sem pressa, sentou-se ao lado de Prak, seu olhar imponente e calmo, mas repleto de respeito.

"Ganhei, velho."

Prak, respirando com dificuldade, lutando contra a dor, olhou para ele com os olhos pesados e, com um sorriso amargo, respondeu:

"Você não é humano..." Ele fechou os olhos brevemente, tentando manter-se consciente. "... Você é algo mais."

Lá ao fundo, Lad’ya e Beth Brawl estavam impressionados, mas sabiam que a luta não havia terminado ainda — Prak precisava de socorro rápido. Eles chamaram Gunwoo, Yuki e Dan Ji para prestar auxílio.

Prak, respirando pesadamente, olhou para Ong Son, e com um tom de surpresa, perguntou:

"Como você treinava preso?"

Ong Son, sem sequer desviar o olhar, respondeu com uma calma de quem já enfrentou os piores demônios:

"Usando as paredes de concreto e as barras de ferro como sacos de pancada."

Prak, com um riso amargo e com dor nas costelas, deu uma risada forçada:

"Você é um semi-deus, Ong." Ele exalou profundamente. "Fico feliz em lhe dizer que estou do seu lado. De outra forma, seria o meu fim."

Ong Son, com um sorriso discreto, colocou a mão firme no ombro de Prak.

"Não sou divino, sou um homem. E preciso de um homem como você ao meu lado, camarada."

Ong em seguida se levanta para dar espaço para Gunwoo, Dan-Ji e Kagawa cuidarem de seu velho amigo.

Os demais da Stargazer, Narith e seus guerrilheiros e os soldados de Prak esperam, das névoas das 3 da manhã Lad’ya, Beth, Gunwoo, Seok e Kagawa emergem, mas mais importante. Ong e Prak emergem abraçados. Narith puxa o coro. – Prak! Prak! Prak! – Guerrilheiros de Prak e Chum se confraternizam, alternando cânticos de “Ong Son!” “Sokham Prak!” e cânticos revolucionários.

Agora, com blindados a serem capturados e uma aliança renovada, os rumos da luta mudaram. Uma nova era começava para os guerrilheiros — agora não mais escravizados pela S-Gamma, mas guiados por um líder que sabia o que era justiça e um homem ao seu lado que também entendia o valor da luta.

Batalha contra os Blindados

O sol nascia como uma lâmina enferrujada sobre a vila abandonada. Sokhann Prak observava seu trabalho com o olhar frio de um arquiteto do caos. Tudo estava pronto: a ratoeira aguardava os ratos de aço.

Ele havia transformado cada estrutura em uma peça do mecanismo mortal. Abrigos fortificados, camuflados com terra e folhagem, pontilhavam o perímetro como tocas de aranha. Túneis subterrâneos conectavam as posições—uma rede venenosa sob a terra aparentemente inócua. Em cada esconderijo, homens com RPGs aguardavam, dedos sobre gatilhos, olhos fixos na estrada poeirenta.

"A única salvação de blindados contra uma infantaria preparada", explicou Prak aos recém-chegados, "é outra infantaria. Vocês são meu ponto fraco resolvido."

Gunwoo percorreu as posições com Anzo ao lado. Mesmo alertados, mal conseguiam discernir os abrigos—apenas quando Prak apontava diretamente, a camuflagem revelava sua ilusão. Narith Chum distribuía seus homens com precisão cirúrgica: o grosso atrás, pronto para engolfar a infantaria; uma unidade menor sob o comando de Ong Son, escondida atrás do caminhão de dendê que bloqueava a estrada principal, seus eixos destruídos—um obstáculo que forçaria a coluna inimiga a desviar pela vila.

Posições tomadas:

  • Beth e Samantha nos telhados reforçados das casas camponesas. Beth acariciou o coldre da metralhadora pesada, enquanto Samantha ajustava a mira de sua besta, uma flecha explosiva já encaixada.
  • Ricardo Cruz misturou-se aos homens de Narith, seu rosto sério contrastando com o sotaque suave que sussurrava instruções em khmer improvisado.
  • Dan-Ji Seok e Yuki Kagawa estabeleceram um posto médico na retaguarda, próximo aos engenheiros de comunicações—frascos e bandagens alinhados com a precisão de um laboratório.
  • Gunwoo e Anzo ocuparam um silo abandonado na borda do antigo campo de arroz—uma posição elevada com visão total do campo de batalha. Anzo verificou seu rifle, os olhos escaneando distâncias, vento, umidade. Gunwoo observava através de binóculos, sua expressão neutra, cerebral.

09:47 - Os Ratos Chegam

O rugido de motores diesel rompeu o silêncio da manhã. Primeiro o T-54, sua blindagem verde-oliva coberta de poeira, seguido por dois BMP-1 e um ZSU-23-4 Shilka antiaéreo. Caminhões de tropas fechavam a coluna—uma serpente mecânica de cinquenta homens.

Pararam diante do caminhão bloqueador. Soldados desceram, empurraram, xingaram. O comandante, um homem corpulento com quepe de oficial, ordenou que o T-54 tentasse empurrar a carcaça. Metais rangeram, mas o caminhão não cedeu.

"Inspecionem a vila", ordenou o comandante.

Dois soldados avançaram cautelosamente, olhando para casas vazias, silos silenciosos. Nada. Só o vento soprando através das janelas quebradas.

Satisfeito, o comandante acenou. "Pela vila."

O primeiro BMP entrou na rua principal.


09:53 - A Ratoeira Fecha

Então o mundo explodiu.

De todos os lados, foguetes RPG surgiram como vespas enfurecidas. O primeiro BMP foi atingido lateralmente—a explosão arrancou sua esteira, deixando-o girando como um besouro tombado. O ZSU tentou girar sua torre, mas uma flecha de Samantha perfurou sua blindagem lateral, seguida por uma segunda que detonou dentro do compartimento da tripulação—silêncio súbito.

Foi o ZSU que disparou primeiro—um rajada de 23mm que varreu o telhado onde Beth estava. Ela já não estava mais lá—deslizara para trás da proteção de sacos de areia, sua metralhadora respondendo com um rugido que ecoou sobre tudo.

O T-54 revidou, seu canhão de 100mm destruindo uma casa inteira. Mas os atiradores já haviam evacuado, recuando através dos túneis para novas posições.

Caos coordenado:

  • Ricardo liderava pequenos grupos de guerrilheiros em movimentos de pinça, isolando soldados cambojanos que saltavam dos caminhões em chamas.
  • Beth's metralhadora varria as metralhadoras montadas nos veículos—qualquer homem que tentasse manejá-las era varrido em segundos.
  • Anzo, do silo, escolhia alvos com precisão cirúrgica: o comandante do segundo BMP através de uma fresta de visão; o artilheiro do T-54 quando ele abriu a escotilha.

Gunwoo observava, anotando mentalmente: *"Resistência ao RPG maior que esperado. Blindagem frontal do T-54 aguentou três impactos diretos."*

O segundo BMP, tentando recuar, foi atingido por múltiplos foguetes simultaneamente—um deles, da posição de Anzo, penetrou a traseira mais fraca. Chamas jorraram das escotilhas.




10:12 - O Ponto de Virada

O T-54, agora isolado, tornou-se um animal acuado. Sua torre girava freneticamente, disparando às cegas. Cada vez que seu canhão rugia, um esconderijo guerrilheiro era reduzido a escombros—mas os homens já haviam desaparecido, reaparecendo em outra posição.

Foi então que Prak acionou seu trunfo: mísseis anti-tanque MILAN, escondidos até então. O primeiro errou, explodindo atrás do tanque. O segundo atingiu a junção entre a torre e o casco—o T-54 parou de girar, fumaça saindo de todas as aberturas.

Do jipe do comandante cambojano—atingido por duas granadas—uma voz rouga gritou em francês:

"Cessez-le-feu! Nous nous rendons!"

Silêncio súbito, quebrado apenas pelo crepitar de chamas e gemidos.


10:30 - Negociação Entre a Fumaça

Narith, Prak e Gunwoo avançaram, armas baixas mas prontas. O comandante cambojano, sangrando do ombro e do rosto, estava de pé diante de seu veículo destruído.

"Tudo fica", disse Prak em khmer fluente. "Máquinas, armas. Um caminhão levam seus mortos e feridos. Nada mais."

O comandante olhou para seus homens—muitos mortos, outros feridos gravemente. Olhou para Gunwoo, que já acenava para Dan-Ji e Yuki avançarem com kits médicos.

"D'accord."

Enquanto os engenheiros de Prak começavam a inspecionar os blindados capturados, algo peculiar aconteceu:

Samantha tirou uma câmera fotográfica e começou a documentar—o T-54 danificado, as posições, os rostos dos guerrilheiros. Anzo a observou, aproximando-se.

"Para ela, né?", perguntou, um quase-sorriso nos lábios.

"Para fazer inveja a uma certa loira", respondeu Samantha, sorrindo.

Ricardo também fotografava—ângulos diferentes, detalhes do terreno. "Para o relatório", explicou, mas algumas fotos eram claramente muito bem compostas para meros documentos.

Foi Beth quem deu a ideia, posando diante do tanque como uma turista em frente a um monumento. "Tira uma, camarada!"

E então, Anzo reuniu a todos—Stargazer, guerrilheiros, todos misturados. Várias fotos: a equipe internacional só; os cambojanos sorridentes; todos juntos, armas no alto, diante dos espólios de guerra. Naquele momento, entre a fumaça e a poeira, não eram aliados de conveniência—eram vencedores.




11:45 - O Próximo Movimento

Gunwoo reuniu o círculo interno: Ong Son, Narith, Prak, e sua equipe.

"Dara Yim", começou Prak, "vai saquear Thon Khum ao meio-dia. Ela nunca faria isso—não voluntariamente."

"O irmão dela", continuou Narith, "Sareth. Kiri Ang o controla com a droga. Ela saqueia para manter ele vivo."

"Temos que interceptá-la antes da vila", disse Gunwoo. "Mas primeiro, libertar Sareth."

Ong Son balançou a cabeça. "Ele está no quartel de blindados de Peshin. Fortificado. Guardado por fanáticos."

"Então planejamos na base", concluiu Prak. "Movam-se. Temos poucas horas."

Enquanto a coluna se formava—blindados capturados rebocados, feridos carregados—Anzo olhou uma última vez para a vila armadilha. A ratoeira funcionara perfeitamente. Mas ele sabia: a próxima armadilha já estava sendo armada—e desta vez, eles poderiam ser os ratos.

O sol agora alto no céu iluminava não uma vitória, mas o próximo capítulo de uma guerra onde cada ganho revelava uma nova sombra a ser enfrentada.

Planejamento para o dia Seguinte

O caminho até o quartel foi uma prova viva da obsessão de Prak com a sobrevivência. Armadilhas quase invisíveis flanqueavam a trilha: fossos camuflados, armadilhas de espinhos, cordas-tropeço conectadas a granadas improvisadas. Cada curva revelava outro estratagema defensivo—um labirinto mortal que só os iniciados atravessavam ilesos.

Quando finalmente emergiram na clareira fortificada, até os veteranos da Stargazer pausaram para absorver.

O quartel não era um acampamento—era um santuário de eficiência militar. Barracas alinhadas com precisão geométrica. Trincheiras cavadas em ângulos que maximizavam campos de fogo. E os blindados... os BMPs capturados haviam sido desmontados não como sucata, mas como pacientes em cirurgia. Peças espalhadas sobre lonas limpas, cada componente catalogado, limpo, pronto para reutilização. Um T-55—não o do combate recente, mas outro—repousava sob camuflagem perfeita, sua pintura ainda fresca, óleo brilhando nas juntas.

Prak observou seu olhar. “Nada se desperdiça. O que não serve como arma, serve como peça. O que não serve como peça, serve como lição.”


O PRIMEIRO DISCURSO: A QUEBRA DA CORRENTE

Prak reuniu seus homens—não em formação rígida, mas em semicírculo, como uma assembleia de irmãos. Sua voz, normalmente seca como um relatório técnico, ganhou uma gravidade nova.

“Escutem”, começou, sem necessidade de gritar. O silêncio foi imediato.

“Até hoje, seguimos ordens. Lutamos sob bandeiras de outros. Kiri Ang nos transformou em fantoches—nossos próprios irmãos, zumbificados, são a prova final dessa traição.”

Ele fez uma pausa, deixando o peso das palavras assentar.

“Agora, escolhemos. Não uma nova bandeira—mas nossa própria luta. Ong Son retorna não como comandante imposto, mas como irmão que caiu e se levantou. Nossa guerra agora é de secessão. Separaremos o veneno do corpo. E quem estiver conosco... lutará por um Camboja que não precise vender sua alma para sobreviver.”

Não houve gritos de aprovação—apenas uma onda solene de assentimentos. Homens que haviam lutado por décadas por causas emprestadas agora encontravam uma própria.


O SEGUNDO DISCURSO: O REGRESSO DO IRMÃO

Ong Son subiu no mesmo local. Diferente de Prak, sua presença preenchia o espaço. Não pela altura—embora fosse um gigante—mas por uma autoridade roubada e recuperada.

“Não vim com promessas”, sua voz ecoou, áspera como casca de árvore. “Vim com a mesma vergonha que muitos de vocês carregam no silêncio.”

Seus olhos percorreram o semicírculo—parando em rostos marcados, em jovens que nunca conheceram a paz.

“Kiri Ang usou nossa fome por dignidade para nos vender como cães. Usou nossa lealdade para escravizar nossos próprios irmãos. Perguntem-se: que revolução é essa que transforma revolucionários em carcereiros?”

O silêncio tornou-se denso, carregado.

“Não peço que me sigam como herói. Sigam-me como responsabilidade. Porque alguém tem que pagar a dívida—e eu começo pagando a minha. Lutaremos, sim. Mas desta vez, sabendo quem é o inimigo: não o camponês, não o diferente—mas aqueles que nos fizeram esquecer por que empunhamos armas.”

Ele ergueu as mãos—vazias, abertas.

“Nossos mortos merecem mais que um monumento. Merecem um legado que não os envergonhe. Vamos lhes dar isso.”

A resposta não foi um grito—foi um murmúrio profundo, como o som da terra se movendo. Homens se entreolharam, e nos seus olhos, algo há muito perdido reacendia.


AS LIGAÇÕES: FIO DA ESPERANÇA NA ESTÁTICA

No posto de comunicações—uma barraca equipada com rádio de campanha e um gerador abafado—cada um teve seu momento de conexão com o mundo exterior.

O interior da barraca de comunicações era um microcosmo de ordem em meio ao caos tático. Rádios empilhados, cabos organizados com laços militares, um gerador abafado emitindo um zumbido constante que se tornara o batimento cardíaco do posto. Gi Gunwoo ajustou os fones de ouvido, os dedos delicados girando os botões de sintonia com a precisão de um cirurgião.

A estática cortou o ar—um som que era ao mesmo tempo ruído e promessa. E então, atravessando o ruído branco, uma voz que ela reconheceria em qualquer frequência:

Stargazer Base para Camboja Field. Confirmem recepção.

Era Mamoru, mas não o Mamoru que ela conhecia. A voz vinha áspera, desfiada nas bordas, como papel lixado. Havia um arrasto nas sílabas, uma lentidão quase imperceptível que só os anos de parceria permitiam detectar.

Recebido, Base. Aqui Gunwoo. Estamos seguros.

Bom ouvir sua voz, Doutora.” Um breve suspiro—que se transformou em meio suspiro, meio tosse abafada. “Os satélites mostram movimento concentrado ao norte de Phnom Penh. Três veículos não identificados seguindo a Rota 6. Coordenadas sendo transmitidas agora.

Ela ouviu o clique mecânico do teletipo do outro lado, imaginando seus dedos—geralmente ágeis, dançando sobre teclados—agora pesados, movendo-se por pura força de vontade.

“Mamoru-san”, ela interrompeu, e sua voz no rádio soou estranhamente suave contra a aspereza da dele, como seda sobre concreto. “Sua voz está cansada. Mais do que o normal. Quantas horas seguidas você está acordado?”

Um silêncio. Não o silêncio vazio da estática, mas um silêncio carregado—o tipo que acontece quando alguém calcula uma mentira e desiste no último segundo.

Só mais este relatório, Gunwoo. Depois... prometo.

Ela sorriu—um gesto pequeno, privado, que ninguém na barraca podia ver. Mas talvez, através dos milhares de quilômetros e da distorção do rádio, ele pudesse sentir. A telepatia não era seu domínio, mas havia uma conexão que transcendia o psíquico—a conexão de quem já salvou a vida do outro mais vezes do que conseguia contar.

“Você está cercado de homens competentes que podem lhe substituir, Saru”, disse ela, e agora o tom era suave mas inflexível—a voz que ela usava com pacientes relutantes. “O Riku conhece os sistemas de vigilância tão bem quanto você. O Hide domina as comunicações por satélite. Isso não é uma sugestão—é uma recomendação médica *e* uma ordem.”

Do outro lado, uma risada escapou—cansada, mas genuína. Tinha aquela qualidade áspera que sempre acompanhava suas gargalhadas quando estava exausto.

Tá todo mundo mandando o Saru aqui descansar hoje. O Tanaka me encheu o saco antes do almoço, a Boucher me ameaçou com treinamento físico extra... mas a doutora é a doutora.” Ele bocejou—um som longo, involuntário que distorceu o áudio por um segundo. “Tudo bem. Vou pegar um cochilo. Agora vocês que aguentem a voz feia do Takeshi no comando!

Gunwoo riu, um som leve que contrastava com o ambiente austero da barraca. “Que nada, a voz dele parece de radialista. Tem um timbre agradável.”

Tem a voz bonita mesmo, o cara, mamoru concordou, a voz já começando a afundar na sonolência. “Só aquele relatório final que te devo—o da análise das amostras de solo—e aí faço um ronco de duas horas direto. Palavra de honra de otaku.

“Perfeito”, ela respondeu, o tom conciliador mas firme—a negociação estava encerrada, e ela havia vencido. “E Mamoru?”

Hm?

“Tome chá de camomila antes de dormir. O que está na prateleira direita do armário. Não o de jasmim—aquele o mantém acordado.”

Outra pausa. Mais curta. Mais suave.

Você já tinha preparado, né?

“Talvez”, ela admitiu, um sorriso jogando nos lábios. “A ciência do descanso é tão importante quanto a da vigilância. Base, Camboja Field encerrando transmissão. Durma bem, Saru.”

Até logo, Doutora. E... cuidado com os tanques desert camo. São feios, mas ainda atiram.

A linha caiu na estática. Gunwoo ficou sentada por um momento, os fones ainda sobre os ouvidos, como se aquele silêncio repentino ainda contivesse o eco da preocupação dele. Então, com um movimento decidido, desligou o transceptor e anotou em seu bloco:

*“Mamoru - Exaustão nível 3. Intervenção: descanso forçado. Monitorar nas próximas 24h via Tanaka.”*

E abaixo, em letras menores, quase um pensamento privado que se infiltrou no relatório:

“O chá está na prateleira direita. Ele se lembrará.”

Fora da barraca, o crepúsculo começava a pintar o céu com tons de púrpura e laranja. Ela olhou para as coordenadas que ele enviara—números precisos em um mapa mental que agora incluía não apenas alvos, mas o bem-estar de um amigo a meio mundo de distância.

A guerra era feita de grandes batalhas e pequenos cuidados. E ela se recusava a negligenciar nenhum dos dois.

Beth encontrou um cantinho isolado atrás do depósito de combustível—longe dos olhares, onde o ronco do gerador abafava as vozes. Ela segurou o receptor do rádio de campanha como se fosse um ovo de pássaro, seus dedos largos e marcados por cicatrizes contrastando com a delicadeza do gesto.

Quando a voz de Karol Won irrompeu pela estática, foi como sempre: clara, afiada, cortando o ar como uma lâmina jurídica. Mas Beth—que conhecia cada nuance, cada inflexão—ouviu a aresta escondida por trás da formalidade. Aquele tom meio grau mais alto que o normal, a pausa minúscula antes do “Browning”.

“Browning, não faça heroísmos desnecessários. Seu contrato não cobre suicídio por bravata.”

Beth sorriu, os olhos castanhos iluminando-se. Ela começou com “Browning”, não “Brawl”. Tá preocupada.

“Só fotos, chefa. Nada que me custe a pele”, respondeu, tentando manter a voz leve, mas o sotaque irlandês carregado de afeto estragava qualquer tentativa de despreocupação.

Uma pausa no outro lado da linha. Beth quase podia vê-la: no escritório em Kobe, a postura perfeita, os óculos seguros na mão enquanto pesava cada palavra.

“...Mandou as fotos? Do tanque?”

“Sim chefa!”, a empolgação estourou como um balão. “Tu tinha que ter visto, um deles mirou direto para mim! Quatro metralhadoras, cada uma do mesmo tamanho da minha e—”

Beth!

A voz de Won cortou como um chicote. Não era irritação—era alarme disfarçado de autoridade. Beth calou-se instantaneamente, mas o sorriso não desapareceu. Pelo contrário, alargou-se.

“Não se arrisque à toa, entendeu? Que história é essa de você estar se colocando como alvo de tanques? Foi Gunwoo que teve essa ideia? Você aguarde, vou falar com ela de um jeito que ela nunca mais ousará fazer algo assim com meus subordinados!”

Beth deixou-a falar. Deixou a torrente de palavras—cada uma um disparo de preocupação mal disfarçada—lavar sobre ela. Dentro do seu peito, algo quente e desengonçado batia as asas. Ela se preocupa comigo. Ela gosta de mim! A pilha mental de “Ela gosta de mim” em seu coração ganhou mais uma peça dourada.

“Beth, está aí?” A voz de Won agora tinha um toque de... era ansiedade? Nunca.

“Tô, tô chefa!”, ela riu, um som que ecoou no metal do depósito. “Não! Não teve nada a ver com a doutora não, chefa! Ela é boa chefa também, eu quem vacilei—não calculei meu tamanhão de ursa e o artilheiro me viu. Mas tô toda num pedaço só!”, mentiu, esfregando instintivamente o ombro onde uma bala havia riscado a jaqueta. “Mas vc tinha que ver o estrago que fiz no tanque!”

Outra pausa. Mais longa desta vez. Beth podia ouvir o suspiro quase inaudível—aquele que Won soltava quando desistia de fingir indiferença.

“Bem.” A voz voltou, mais suave. “Estou... satisfeita com seu desempenho. Só precisa ter mais cuidado.”

“Vou ter chefa! Digo, sempre tenho! Hahaha! Sou Beth Brawl, a sua Beth Brawl!”

Do outro lado, uma risada escapou. Leve, breve—apenas um sopro no receptor. Mas para Beth, era como ouvir uma sinfonia. Ela prendeu a respiraça, querendo engarrafar aquele som.

“Certo. Volte inteira. E chega desses tipos de aventuras, a não ser que estritamente necessário”, disse Won, a firmeza profissional retornando, mas com uma fenda por onde o cuidado vazava.

“Pode confiar chefa! Vou ficar inteirinha para você!”

“Você é estranha, Beth.” A voz de Won agora tinha um tom ponderado, divertido. Era o tom que ela usava quando estava tentando não ceder ao afeto e falhando lindamente. “Obrigada. E vá descansar.”

A linha caiu. Beth ficou segurando o receptor por um longo momento, como se ele ainda guardasse o calor da voz de Won. Para um observador externo, soaria como uma conversa formal, quase fria—chefe repreendendo subordinada imprudente.

Mas Beth ouvira o que realmente estava lá:

  • O “Beth!” no lugar de “Browning”
  • O suspiro abafado
  • A risada que escapou
  • O “sua Beth Brawl”
  • O “você é estranha” que significava “você é única”
  • O “obrigada” que significava “estou aliviada”
  • O “vá descansar” que significava “volte para mim”

Ela devolveu o rádio ao técnico com um aceno, andando de volta ao acampamento com um passo que era quase um pulo disfarçado. Seus ombros largos pareciam mais leves, sua expressão—geralmente uma mistura de ferocidade e humor negro—suavizara-se momentaneamente.

No relatório, escreveria: “Contato estabelecido com base. Situação estável.”

No seu diário secreto—aquele caderno encadernado em couro que ela escondia no fundo da mochila—escreveria mais tarde: *“Hoje ela riu. E disse ‘sua’. E preocupou-se com meu tamanhão de ursa. Pilha ‘Ela gosta de mim’: +3. Continua sendo a coisa mais assustadora e linda da minha vida.”*

Enquanto a noite caía sobre o Camboja, envolvendo a selva em um manto úmido e quente, Elizabeth “Beth Brawl” Browning carregava dentro de si um pequeno sol privado—alimentado por uma risada através da estática, e por palavras que, para os outros, eram ordens, mas para ela, eram os únicos abraços que sua ursa ferida sabia como receber.

A Transmissão entre Gagnon e Boucher

O interior da barraca de comunicações estava quente, com o zumbido do gerador e o cheiro de óleo e poeira. Samantha Gagnon segurava o receptor do rádio, seus dedos calosos pressionando o botão de transmissão. Do outro lado do mundo, em Kobe, Amélie Boucher atendera na primeira chamada.

Gagnon deu seu relatório, tinha a intenção de fazer isso e desligar, mas acabou mencionando o tanque e as fotos. Não sabia por que, mas gostava da jovem comandante.

A voz de Boucher surgiu da estática, afiada e clara como vidro partido—mas com uma vibração rara de curiosidade genuína.

Dentro de um tanque? Você realmente entrou?

Samantha sentiu um canto da boca levantar. “Sim, comandante. É... apertado. E cheira a óleo e suor.

Do outro lado, um som escapou—não uma risada, mas algo mais profundo. Uma mistura de inveja profissional e uma memória agridoce.
Na academia”, Boucher continuou, a voz repentinamente mais suave, desarmada, “Também entrei em um. Um AMX-30B. Le top du top dos blindados em 74.

Ela riu sozinha, um som orgulhoso e cheio de fantasmas.
Fiz mais que entrar, querida. Dirigi, manobrei, disparei e comandei nos exercícios em Camp de Mailly!” A energia na voz era quase palpável, como se ela estivesse de volta àquela planície poeirenta. “Apesar da minha maldita equipe ter tentado me sabotar em cada etapa—entregando a munição errada, ‘esquecendo’ comandos—terminei os exercícios de forma brilhante!

Um silêncio súbito cortou a linha. Samantha ficou imóvel, imaginando a cena: uma jovem de 17 anos, loira e sardenta, mandando em marmanjos ranzinzas dentro de uma lata de aço, superando cada armadilha com pura teimosia genial.

A voz de Amélie voltou, agora carregada de um peso metálico.
Fui reprovada. Eles disseram que mulheres não comandam blindados. Que nossa biologia não aguentaria.” A pausa foi cortante. Então veio sua risada irônica pelo nariz—um som curto, seco, que era mais uma punhalada do que um riso. “Disseram que o único tanque que conhecemos é o de lavar roupa. Acredita?

Samantha riu, um som rouco e quente que contrastava com o ambiente austero. Seus olhos castanhos pousaram no T-55 ali perto, sua silhueta imponente sob a camuflagem de folhas. Uma máquina de guerra. Um símbolo de um clube que tentaram negar a ambas.

Aqui, comandante, nada é impossível.” Samantha falou baixo, mas com uma convicção de ferro. “Ainda vou conseguir um para você. Só se mantenha viva até lá.

Silêncio.

Não o silêncio vazio da desconexão, mas um silêncio carregado, denso. Samantha podia sentir o peso do que dissera. Através da estática, ela quase conseguia ver:
A expressão de Boucher—os olhos estreitos, a mandíbula levemente tensionada, os músculos faciais lutando entre a surpresa e um velho ressentimento.
A memória de uma humilhação antiga, tão íntima quanto uma cicatriz, transformando-se em algo novo: fogo brando, não raiva. Reconhecimento.

Quando a voz voltou, estava um tom mais baixo, quase íntimo, carregada de uma promessa feita a si mesma.
Cuidado com o cheiro de óleo, Gagnon. É viciante.

Era o momento de desligar. Mas algo travou na garganta de Samantha. Uma preocupação que vinha fermentando desde o Japão, desde que vira Boucher operar no limite—sempre no limite. A tensão nos ombros dela, as olheiras que a maquiagem já não escondia totalmente, aquele hábito novo de esfregar discretamente as têmporas.

Boucher.
Ela interrompeu, e sua própria voz a surpreendeu—não era o tom submisso de uma subordinada, nem o irritado de uma rival. Era imponente. Maternal. O tom que usava com recrutas jovens antes de uma operação perigosa.
Me escuta. Sei que sou impertinente, mas só vou falar uma última vez.

Silêncio novamente. Mas era um silêncio que permitia. Boucher estava ouvindo.

Samantha respirou fundo, o cheiro de terra úmida e metal entrando em seus pulmões.
Você deve se cuidar. As bolhas na testa não me enganam—essa doença era comum em Camarões, isso e seu ferimento na cabeça, os acessos de fúria... É o corpo gritando. Descanse. Você está se jogando ao limite, comandante. Eu...

Ela travou. As palavras empilharam-se atrás de seus dentes. Era difícil. Tão difícil. Para uma mulher cujo orgulho era o seu escudo, que por anos acreditara que ela deveria estar no comando, admitir isto era como desnudar uma costela.
Eu... lhe respeito como comandante.” As palavras saíram, uma de cada vez, pesadas e verdadeiras. “Faria diferente em muita coisa. Mas você tem mais visão que eu. Mais... alcance. Deve se preservar se quiser manter este barco flutuando. Seu barco.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até o gerador parecia abafar seu ronco. Samantha podia ouvir o bater de seu próprio coração.

Então, a resposta veio. Fria. Controlada. Mas rachada por dentro—um mosaico de emoções contraditórias que só alguém que conhecia Boucher há anos conseguiria decifrar.
Havia um toque de ressentimento por ter sua vulnerabilidade apontada. Um sinal de alarme por ter um sintoma físico notado e diagnosticado. E, por baixo de tudo, uma lisonja profunda, quase dolorosa, vinda justamente de Samantha Nji Gagnon.

Entendido, agente Gagnon.” A voz estava de volta ao tom oficial, mas com uma aspereza residual. “Não fale suas suposições para ninguém. E obrigada. Câmbio.

Samantha fechou os olhos por um segundo. Um peso se desfez de seus ombros. Ela tinha dito. Teria consequências? Talvez. Mas valera a pena.

Não falarei. Câmbio e desligo.

Ela soltou o botão de transmissão. A conexão se desfez na estática. Por um longo momento, Samantha ficou ali, sentada no banco improvisado, olhando para as paredes de lona da barraca. Lá fora, o crepúsculo dourado do Camboja dava lugar ao azul profundo da noite.

Ela sorriu, um sorriso pequeno e privado. Levantou-se, estalou os dedos—seu ritual—e saiu para se juntar aos outros. A guerra não esperava. Mas, pela primeira vez em muito tempo, Samantha sentia que talvez não estivesse apenas segurando a linha. Talvez estivesse, finalmente, ajudando a construir algo.

E a comandante que ela escolhera seguir—a mulher que conquistara seu respeito no campo de batalha e agora, lentamente, estava conquistando algo parecido com lealdade—precisava estar viva para ver isso acontecer.

O PLANO: FANTASMAS TOMANDO LUGAR

Narith Chum trouxe a informação crucial: fiscais do Exército da Vingança chegariam amanhã para inspecionar a garagem de Peshin. Homens burocráticos, com documentos e arrogância.

Prak já estava à frente. “Meus homens interceptarão o comboio. Silenciosamente. Vocês”—olhou para Anzo, Samantha, Ricardo—“tomarão seus lugares. Documentos, uniformes, o modo de andar. Tornem-se fantasmas que assumem corpos alheios.”

O alvo: Sareth Yim, irmão de Dara, agora controlado pela S-Gamma. “Kiri Ang o mantém como garantia”, explicou Narith. “Dara obedece para mantê-lo vivo. Ele deve estar em algum lugar seguro—Comunicações, talvez. Onde não precise circular.”

Sobre Peshin, o comandante do forte:
“Formado em Saint-Cyr”, disse Prak com desdém quase físico. “Acha que manuais franceses funcionam em selva cambojana. Pinta seus blindados com camuflagem de deserto—no meio da floresta tropical. Acredita que a doutrina da OTAN é superior à guerra assimétrica.”
Um sorriso raro surgiu em seu rosto. “É um incompetente protegido por sua própria arrogância. E para nós, isso é melhor que qualquer fraqueza estrutural.”

O plano era sólido. O comboio inimigo já estava sendo vigiado. O grupo de caça de Prak—homens que conheciam cada trilha, cada sombra—já se movia.

Para a equipe Stargazer, agora, restava o mais difícil: esperar.

Enquanto o sol começava a descer, tingindo a selva de âmbar e ocre, Anzo observava Samantha verificar suas flechas explosivas uma por uma. Ricardo estudava os documentos capturados que Prak fornecera, murmurando frases em francês para pegar o sotaque. Gunwoo revisava o antídoto da S-Gamma—amostras limitadas, cada gota preciosa.

Lá fora, os homens de Prak preparavam as armas. Ong Son conversava com um grupo de jovens guerrilheiros—não como comandante, mas como um tio contando histórias de um tempo antes da queda.

ratoeira estava armada.
Os ratos estavam a caminho.
E os fantasmas se preparavam para vestir suas peles.

O próximo movimento não seria uma batalha—seria um ato de teatro sangrento, onde um erro de sotaque poderia significar a morte de todos.

Risos na Penumbra

O tempo entre a emboscada e o retorno do grupo de Prak arrastava-se como névoa densa. Dentro do abrigo improvisado à sombra de uma copa frondosa, o silêncio era pesado demais para veteranos de guerra. Foi Beth quem quebrou o gelo, esfregando os nós dos dedos da mão direita com um ruído áspero de pele e cicatriz.

— "Pior que esperar por bala é esperar por notícia de bala," ela resmungou, cuspindo o caco de charuto apagado. "Na Irlanda, pelo menos a gente já sabia quem ia tentar nos matar."

Lad’ya, encostado numa raiz exposta com os olhos fechados — mas nunca totalmente adormecido — soltou um grunhido. Um gesto para que ela continuasse. Era um jogo antigo entre soldados: contar histórias de quase-morte para afastar o espectro da próxima.

— "Eu começo então, pra aquecer," ele disse, a voz um sussurro rouco. "Tiro na cabeça. 1979, Dudinka. Pensaram que eu era o último da família Andreyev." Seus dedos tocaram a cicatriz monstruosa na têmpora, a placa de metal sob a pele como um selo de vergonha. "O velho Häyäh errou. Única vez na vida. O treinamento depois foi pior que a bala. Dormia em neve, atirava com os dedos congelados, calculava vento até nos sonhos. Me transformou num fantasma só para ter um alvo digno no futuro."

Houve um assobio baixo de respeito. Samantha Gagnon, afiando silenciosamente uma lâmina curva, ergueu os olhos.

— "Piratas no Golfo da Guiné, 1981," ela começou, o sotaque camaronense dando peso às palavras. "Abordamos um cargueiro de um senhor da guerra. Ele se rendeu, viu uma mulher no comando e achou o elo fraco. Tentou me agarrar, cheiro de rum e ambição barata." Ela parou, passando o polegar pela lâmina. "Matei-o com a faca que ele tentou escondar na manga. Sangrou como um porco no convés. Os homens dele baixaram as armas. Às vezes, a demonstração mais brutal é a mais econômica."

Beth riu, um som profundo e verdadeiro.

— "Ah, garota, isso é poesia! Mas ouve essa: Derry, 1978. Um comando da Mão Vermelha matou um dos nossos num beco. Deixaram ele lá como isca. Eu fui buscar o corpo." Seus olhos escuros brilharam com uma luz perigosa. "Eles estavam esperando. Quatro homens. Granada rolando no chão. Eu... chutei. Não para longe — para de volta. Arrancou metade do rosto do líder. Usei a crúba béir nos outros três. Cantei o hino do Tottenham durante todo o tempo." Ela balançou a cabeça, um sorriso torto nos lábios. "Vingança é um prato que se serve frio, mas às vezes é bom sentir o calor do sangue na mão."

Todos olharam para Ricardo. Ele, que observara os relatos com um sorriso tranquilo, como um professor ouvindo alunos animados, deu de ombros.

— "Nada tão épico, camaradas. Só um brasileiro perdido no Pará." Ele tirou o lenço do pescoço, o famoso presente de Rosita, e o enrolou nos dedos. "Grileiros com armamento do Exército me caçando por três dias. Mas o pior não eram os homens... era uma onça pintada, fêmea, magra de fome. Me stalkeou por 48 horas. Até que, no terceiro dia, caçamos juntos. Derrubamos uma anta gorda. Dividimos a carne à beira do igarapé." Ele sorriu, nostálgico. "Voltei pra cidade, os grileiros tinham ido embora. Aprendi que às vezes o predador natural é mais honrado que o de uniforme."

A camaradagem que se seguiu foi quente e silenciosa. Eram sobreviventes. Cada cicatriz, um capítulo. Cada história, um motivo para o próximo ainda estar respirando.

O som de passos apressados na folhagem cortou o momento. O grupo de intercepção de Prak retornava, arrastando três homens de terno amarrados e amordaçados. O sucesso era visível em seus olhos.

A Metamorfose

Gunwoo e Narith aproximaram-se com uma maleta. Dentro, não havia medicamentos, mas identidades: documentos, credenciais, uniformes dos fiscais capturados — François Lacoste, Trevor Parker e Rudolph Lutz, da Shadow Law Arms and Armor. A operação era de uma audácia glacial: Lad’ya, Samantha e Ricardo deixariam de ser quem eram para se tornarem fantasmas com crachá.

As fotos foram tiradas ali mesmo, contra o pano de fundo de uma lona camuflada, os rostos sérios sob a luz crua da lanterna. Gunwoo observava cada detalhe, enquanto Narith ensaiava sotaques e maneirismos com eles.

— "Lutz tem um tremor na mão esquerda quando mente," Narith instruía Ricardo. "Parker ajusta os óculos a cada duas frases. Lacoste fala francês com sotaque de Lyon, não de Paris. Errem, e morremos todos."

O plano foi revisado até a exaustão. Eles seriam "escoltados" até os arredores do forte de Peshin por Beth — sua presença única e intimidante a tornava um trunfo improvável para a infiltração, mas perfeita para uma guarda-costas corporativa plausível. O risco calculado: a escolta os deixaria no portão. Sozinhos.

Às Portas do Forte

A aproximação foi tensa. O jipe do forte surgiu numa nuvem de poeira. O tenente Nim, jovem e desconfiado, examinou-os com olhos estreitos.

— "A escolta não entra?" perguntou, a mão repousando no coldre.
— "Assuntos corporativos confidenciais, tenente," Lad’ya respondeu com a voz plana e burocrática que praticara. "Eles retornarão ao final da inspeção."
Nim hesitou. A história era frágil, o procedimento, irregular. Mas a aura de autoridade enfadonha que eles emitiam — a frieza de executivos em missão tediosa — prevaleceu. Ele anuiu com relutância.

Peshin

Dentro dos muros, o espetáculo de vaidade militar de Peshin se desdobrou. Blindados polidos, alinhados como brinquedos de um menino rico. O próprio comandante, um homem cuja arrogância era tão espessa quanto a camuflagem de deserto pintada em seus tanques T-55 (um absurdo tático na selva úmida), recebeu-os com aperto de mãos vigoroso e uma mesa de frios.

— "Meus beautés! O orgulho do meu comando!" ele exaltou, gesticulando para os veículos.

Samantha (agora "Parker") permaneceu em silêncio calculado, deixando Lad’ya ("Lacoste") e Ricardo ("Lutz") conduzirem a conversa fiada. A tensão era um fio de navalha. Peshin estranhou a presença de uma mulher no trio, mas sua vaidade foi mais forte que sua suspeita. Ele estava tão ansioso para impressionar os "especialistas estrangeiros" que engoliu a história.


O Resgate


No setor de eletrônica, entre racks de rádios e telas verdes, eles o encontraram: Sareth Yim. Magro, com olhos que viam muito e registravam pouco — o efeito amortecido da S-Gamma. Lad’ya puxou conversa em inglês, descobrindo uma fluência surpreendente no jovem.

— "A empresa tem novos softwares de calibração. Poderia nos ajudar nos testes no galpão de veículos leves?" Lad’ya propôs, com um tom que não era um convite, mas uma ordem corporativa.

O tenente Nim insistiu em acompanhá-los. No galpão, entre Humvees e BRDMs, sua desconfiança se revelou outra coisa: ambição.

— "Esses cursos de especialização... como faço?" ele perguntou, seus olhos brilhando com o desejo de escapar daquele posto esquecido.
Ricardo agarrou a oportunidade, envolvendo Nim em planilhas e formulários falsos, enquanto Lad’ya mantinha Sareth ocupado com um "treinamento" em um programa de computador que não levava a lugar nenhum.

O plano cristalizou-se. O Humvee era a chave. Samantha inspecionou o veículo com olhos de mecânica, dando um aviso sutil. Quando ficaram a sós por um instante, ela agiu rápido: uma rápida injetada do tranquilizante no flanco de Sareth. O corpo do jovem afundou suavemente. Eles o amarraram e o esconderam no porta-malas, entre caixas de ferramentas.

A despedida de Peshin foi protocolar. Ele queria conversar mais, beber mais, exibir mais. Eles recusaram com polidez firme.

— "O teste de estrada é crucial para a proposta de atualização, comandante. Precisamos de dados noturnos também."

Com um suspiro de resignação, Peshin permitiu. Até concedeu que ficassem com o Humvee até o dia seguinte.

O portão do forte se abriu. O ar livre nunca cheirou tão doce. O Humvee atravessou a escuridão, levando seus fantasmas e sua presa preciosa em direção ao ponto de encontro, onde a verdadeira equipe os aguardava.

Primeira fase: concluída.

A estrada de terra sumiu sob os pneus do Humvee, engolida pela noite cambojana. No porta-malas, Sareth Yim respirava o sono químico da libertação. No banco de trás, Lad’ya, Samantha e Ricardo já não eram Lacoste, Parker e Lutz. Eram sombras novamente, mas sombras vitoriosas. O primeiro ato da operação terminara sem um só disparo, apenas com mentiras bem contadas e nervos de aço.

A verdadeira guerra — por Dara Yim, pela alma dos Heróis do Khmer Vermelho e contra Kiri An — aguardava no próximo amanhecer. Mas por essa noite, eles haviam roubado um soldado do próprio pesadelo. E isso era um começo.

23/07/1989 – Líder a ser Persuadido – Dara Yim

23/08/1989 – A Última Peça: Dara Yim

O amanhecer no reduto cambojano trouxe não apenas a umidade densa da floresta, mas uma tensão calculada. Em torno do mapa improvisado na areia—pedras representando posições, folhagem como cobertura, água da lamacentas nascentes traçando rotas—os líderes debatiam com a urgência de quem sabe que cada minuto conta.

"Interceptar minha rmã antes do saque é o plano certo," Sareth Yim afirmou, sua voz ainda um pouco frágil da desintoxicação da S-Gamma, mas os olhos já recuperando o brilho afiado de estrategista. "Mas vocês não sabem por onde ela virá. Eu sei."

Gunwoo observava o jovem com interesse clínico misturado a admiração. Enquanto Dan Ji e Yuki monitoravam seus sinais vitais, ela via além do paciente: via a chave.

"Três redutos possíveis na região de Thon Khum," Ong Son apontou no mapa de areia, sua mão enorme fazendo sombra sobre os "obstáculos" de gravetos. "Atacar o errado é alertar Kiri Ang."

"E mesmo acertando," Narith Chum acrescentou, ajustando seus óculos com gesto nervoso, "as comunicações nessa área são um labirinto. Um código errado no rádio e seremos tratados como invasores."

Sokhann Prak cruzou os braços, seu olhar frio avaliando o terreno imaginário. "Dara não é logísta por acidente. Seus redutos têm camadas de segurança—códigos de mão, sinais noturnos, armadilhas psicológicas. Aproximar-se sem as credenciais certas é suicídio."

Foi então que Sareth sorriu—um sorriso pequeno, mas carregado de conhecimento íntimo.

"Ela usará o Reduto dos Elefantes. O único com estrada suficientemente larga para os caminhões de saque, mas discreto o bastante para não chamar atenção vietnamita." Seu dedo traçou uma rota na areia úmida. "Conheço os códigos de rádio daquela região—ela os rotaciona semanalmente, mas o padrão é previsível para quem sabe ler seus métodos."

"E as identificações?" perguntou Gunwoo, sua voz suave contrastando com a gravidade do tema.

"Gestos específicos com as mãos ao se aproximar, combinados com a direção do olhar. Ela os criou depois que um infiltrado quase a matou em 1987." Sareth fez uma pausa, sua expressão sombria. "E sei de uma entrada que nem todos no próprio reduto conhecem: pelo lado dos elefantes. Pelo lamaçal."


"Operação adiantada," anunciou Gunwoo ao reunir o grupo. "Vamos pelo Reduto dos Elefantes. Sareth nos guiará."

Os preparativos foram meticulosos. No lamaçal próximo, Prak e Narith testaram a resistência da equipe. Dan Ji e Yuki lutaram contra a viscosidade negra—e falharam, seus corpos acostumados a laboratórios, não a selva. Mas Beth Brawl avançou como um trator humano, Lad'ya desapareceu na paisagem como um fantasma, Ong Son moveu-se com força bruta controlada, e Gunwoo, para surpresa de muitos, demonstrou uma agilidade aprendida em anos de Tai Chi aplicado a terrenos hostis.

Sareth observou, aprovando. "É o bastante. Mas na água será diferente."


A travessia da nascente lamacenta foi uma provação de paciência e terror silencioso. Eles primeiro tomaram distância boa o bastante dos elefantes para não os desafiar, mas não distante o bastante para que acabassem no meio dos crocodilos. A água turva escondia mais que lama—escondia crocodilos siameses que descansavam como troncos traiçoeiros.

"Nadem baixo," sussurrou Sareth, seu corpo já meio submerso. "Não usem o fundo para impulso—é areia movediça em partes. E não levantem a cabeça além do necessário."

Beth nadou ao lado de Gunwoo, uma mão firme sempre pronta para puxar a médica quando a corrente a ameaçava arrastar. "Tá segura, doutora?" murmurou, recebendo um aceno tenso em resposta.

Sareth congelou quando viu a silhueta escamosa a dez metros à direita. O crocodilo siamês—quase três metros de músculo e instinto ancestral—flutuava imóvel, seus olhos como pedras negras acima da água. Com movimentos infinitesimais, o jovem cambojano redirecionou o grupo, contornando o perigo com a reverência que apenas quem cresceu naquela selva conhecia.

Ong Son não teve tanta sorte com o terreno—sua bota ficou presa no lodo, sugada com um som úmido e final. Ele continuou descalço, seus pés largos encontrando familiaridade na terra nua.

E Lad'ya... Lad'ya simplesmente deixou de existir como homem para se tornar parte do ecossistema. Quando os outros alcançaram a margem oposta e se agacharam entre a grama alta, tiveram que procurá-lo por um momento antes de discernir sua silhueta já camuflada, tão imóvel quanto as pedras ao redor.


"Agora o verdadeiro problema," Sareth apontou para a clareira aberta que levava à mata densa onde ficava o esconderijo. "Cem metros de grama alta com olheiros escondidos a cada vinte. Eles não vigiam a nascente porque acham que ninguém é louco o bastante para cruzá-la com crocodilos."

Gunwoo estudou o terreno através de binóculos. "Podemos rastejar, usando as elevações naturais..."

"Demoraria horas. E os elefantes podem nos sentir—eles estão nervosos com a movimentação do reduto." Sareth olhou para o grupo, sua determinação clara. "Eu vou sozinho."

Beth começou a protestar, mas Lad'ya a interrompeu com um olhar. "Ele tem razão. Um movimento, um som errado, e todo o reduto estará em alerta."

"Eu conheço cada armadilha, cada esconderijo de olheiro, cada padrão de patrulha," Sareth insistiu. "Posso me passar por um dos guerrilheiros dela—tenho a compleição certa, conheço os códigos mesmo que ela os tenha alterado, e posso observar outros para deduzir mudanças."

Ong Son colocou uma mão pesada no ombro do jovem. "Se você for pego..."

"Ela é minha irmã. Mesmo que seja pego, ela não me fará mal. Mas se houver espiões Kiri An pode ficar sabendo. Mesmo assim é melhor só eu ir, vai ser necessário menos explicações e teremos mais tempo para impedir os espiões. Ela me procurou por meses. Se eu aparecer... ela me ouvirá." Havia uma dor nessa afirmação—a dor de saber que sua própria irmã havia cometido atrocidades para mantê-lo vivo.

Gunwoo trocou olhares com Lad'ya, depois com Beth. A lógica era implacável. "Uma hora e meia," ela estabeleceu. "Se não voltar, assumimos que falhou e recuamos."

Sareth assentiu, já ajustando suas roupas para parecer mais com um guerrilheiro comum. "Esperem pelo sinal—se eu conseguir trazê-la, virá montada em um elefante. É como ela se move quando quer demonstrar autoridade sem parecer ameaçadora."


A espera foi uma tortura de formiga. Minuto após minuto, sob o sol que agora escaldava a clareira. Beth contava os segundos em sua cabeça. Lad'ya nunca saiu da posição de observação. Ong Son parecia uma estátua de preocupação. Gunwoo verificava seu relógio a cada cinco minutos, os lábios apertados.

Quando já se aproximavam da marca de noventa minutos, o som veio primeiro: o baixo tremor no solo, depois o trompete suave.


Da mata densa emergiu um elefante—não o gigante majestoso das selvas profundas, mas um elefante de trabalho, seu couro marcado por cicatrizes de serviço, mas com olhos inteligentes. Montada em seu pescoço, com a postura ereta de uma comandante nascida, estava Dara Yim.

Ela era mais magra do que os relatos sugeriam, seus traços afiados pela fome e pela culpa, mas seus olhos escaneavam o ambiente com a precisão de quem sobreviveu por anos na fronteira entre a guerra e a diplomacia. À sua volta, seis guerrilheiros flanqueavam o animal, suas armas não apontadas, mas prontas.

E entre eles, disfarçado mas com os olhos buscando o esconderijo do grupo, estava Sareth. Um leve aceno quase imperceptível.

Beth prendeu a respiração. Lad'ya diminuiu ainda mais seu perfil. Ong Son fechou os punhos—não em preparação para lutar, mas para conter a onda de esperança.

Dara Yim fez o elefante parar a cinquenta metros da nascente. Seu olhar percorreu a grama alta—e parou exatamente onde o grupo estava escondido. Ela sabia. Claro que sabia.

"Sareth diz que vocês têm uma proposta," sua voz carregou sobre a distância, em khmer claro, mas com um sotaque educado que revelava sua formação. Ela fez um aceno de mão para que eles se mantivessem ocultos. "E que meu irmão está livre de Kiri Ang."

Gunwoo ergueu-se lentamente, as mãos visíveis. "Ele está livre. E podemos libertar você também, comandante Yim."

Dara fez um gesto, um dos guerrilheiros sinalizou para seguir o grupo, ela começou a atravessar a nascente. Seus olhos encontraram os de Ong Son, e algo passou entre eles—o reconhecimento de velhos camaradas, agora separados por escolhas terríveis.

"Todos esses seis são totalmente leais a mim, sigam-nos e mantenham-se baixo e em volta do elefante, crocodilo nenhum irã pegá-los. Então vamos conversar onde o seu carro os espera," disse ela, e em sua voz havia não apenas a esperança de uma aliança, mas o peso de saber que esta conversa decidiria se o Camboja teria um tirano a mais—ou uma chance de redenção.

A última peça do tabuleiro estava em posição. O xeque-mate a Kiri Ang começava agora.

Junto ao carro, eles encontraram Samantha e Ricardo encostados no automóvel conversando enquanto Dan Ji Seok e Yuki Kagawa repassavam o equipamento médico e ampolas, mas todos pararam para admirar o elefante que chegava. Não era todo dia que se via um.

A primeira coisa que Dara faz ao descer do elefante foi cumprimentar Ong. Primeiro com um aperto de mão, até ser deixada puxar para um terno abraço pelo gigante.

Ao se recompor, fez questão de apertar a mão e conhecer a todos, com um francês perfeito fez perguntas casuais, sobre família, pátria e crenças.

Depois permitiu a eles lhe falarem do plano.

O plano era ousado, mas brilhante. Eles atacariam Kiri An no dia em que ele esperasse os suprimentos de Dara Yim chegarem, Dara então seria o cavalo de madeira da Guerra de Tróia, abriria os portões para Narith e Ong entrarem. Sokram serviria de distração, atraindo combate para fora com sua cavalaria blindada e derrubaria pontos estratégicos, como os heliportos e artilharias da base de Kiri An.

Dara gostou do plano, planos assim eram a essência dela, assimétricos e brilhantes, porém ela tinha um problema. Ela sabe que ela possui “zumbis” em seu meio, só não sabe exatamente quantos, e quer neutralizar eles. Aí entra Gunwoo e fala – nada de neutralizar eles, vamos curá-los, como curamos Sareth.

Dara parece cética, pergunta se podem fazer isso em contingente numeroso. Pois ela teme que possa ter dezenas deles em seu meio. Gunwoo sorri com o desafio, ela garante que sim, tudo que Dara precisa fazer é conseguir acesso a eles.

Então Dara Yim traça um plano de ação junto com Sareth e Ong Son. Seus soldados mais leais iriam preparar tudo, ninguém entraria ou saíria de sua base. Em seguida eles seriam anunciados como cientistas do Exército da Vingança, repetindo o truque que deu certo com Narith Chum. Porém dessa vez haveria dúvida nos agentes de Kiri An, eles certamente ficariam suspeitando e tentariam entrar em contato com Kiri An, mas suas forças estariam os vigiando e, suas próprias tentativas de traição denunciaria suas naturezas e eles seriam trazidos para a vacinação. Ela soube de Gunwoo que havia uma chance de o antidoto não dar certo, então ela teria pronto um pelotão de fuzilamento para esses casos.   Uma justiça cruel, mas de contingência necessária.

O plano foi executado dessa forma, guerrilheiros leais a Dara Yim foram na frente para discretamente montar a armadilha, enquanto os membros da stargazer, dessa vez com Dan-ji e Yuki mantados no elefante junto com Dara e o equipamento.

Depois deles passarem por um caminho tortuoso e invisível a olhos não treinados, eles chegam na base de Dara Yim, uma base completa de tendas, suprimentos, cozinha, parque de elefantes e paiol, tudo integrado de forma natural à mata. Beth chegou a comentar que lembrava a tribo dos Ewoks de Star Wars.

O plano funcionou com uma perfeição que beirou a premonição, tudo que Dara disse que iria acontecer aconteceu. Em pouco tempo estavam todos rendidos e enfileirados em frente a tenda de comando – eram 34 deles.

Yuki, Dan Ji e Gunwoo começaram o seu trabalho e, felizmente todos foram curados, infelizmente, seis ficaram tão traumatizados pelos seus crimes que foram declarados fora de combate.

Todos os outros clamavam por justiça e o retorno justo de Ong Son ao lado de Dara Yim à liderança.

O resto do dia foi tomado pela visita aos outros dois campos de Yim, tomando as mesmas precauções. O sucesso foi total, com uma margem de erro notável, a cada cem, 20 não eram curados. Uma margem alarmante que denotou para Gunwoo a necessidade ainda maior de se recuperar os pacientes originais – os zumbis japoneses de Ong Son que agora estavam cativos com Kiri An.

Depois do exaustivo dia, Dara visita Sokram e Narith na base de Sokram. Juntos com Ong Son e Gi Gunwoo, eles tracejam o plano de ataque final juntos na cabine de comando. O que sairia de lá traçaria a queda final de Kiri An e o sucesso absoluto da missão... ou seu fracasso ignominioso.   

24/07/1989 – Ataque à base de Kiri An

 

O dia seguinte chegou sem alarde.

A selva cambojana despertou como sempre — primeiro os pássaros, depois os insetos, por fim o calor que subia do chão como hálito de um animal adormecido. Mas sob o dossel verde, homens e mulheres moviam-se com a precisão silenciosa de quem sabe que o amanhã talvez não venha.

Narith Chum partira ainda na escuridão, levando consigo os códigos que transformariam as comunicações de Kiri An num mar de estática indistinguível. Dara Yim despedira-se com um aperto de mão em Ong Son — gesto profissional, mas que durara um segundo além do necessário. Seus elefantes já estavam carregados com os suprimentos que serviriam de cavalo de Tróia.

O plano estava traçado na areia, na tinta dos mapas, na memória de cada combatente.


Narith Chum silenciaria a base — não um corte abrupto, mas uma deterioração gradual. Primeiro os rádios longa distância, depois as comunicações internas. Para quando Kiri An percebesse que estava cego, já seria tarde demais.

Dara Yim entraria pelo portão principal, como esperado. Seu comboio de suprimentos era aguardado. O que Kiri An não sabia era que cada caixa de arroz escondia granadas, e cada soldado de escolta carregava mais que fuzis — carregava vingança.

Ong Son comandaria o grosso das forças de Dara, posicionado na curva cega do vale. Quando os olheiros de Kiri An caíssem, ele seria a lança atravessando a ferida aberta.

Sokhann Prak aguardaria com seus blindados a oeste, motores abafados sob lonas térmicas, canhões calibrados para os heliportos e a artilharia fixa.

E a Stargazer — a Stargazer tomaria a torre.


A escarpa erguia-se da selva como um dente quebrado, seu topo coroado por uma estrutura híbrida de aço enferrujado e madeira envelhecida. A torre de vigia era o olho direito da base de Kiri An — não o mais importante, mas aquele cuja perda doeria o suficiente para causar desorientação.

O único acesso era a pé.

Ou melhor: escalando.


A subida começou antes do sol tocar o horizonte.

Lad'ya tomou a dianteira, sua silhueta quase indistinguível da rocha. Seguia-se Gunwoo — pequena, precisa, cada movimento calculado para não deslocar uma única pedra. Beth Brawl vinha atrás, sua massa impressionante movendo-se com uma cautela que desafiava o tamanho. Samantha Gagnon escalava como se tivesse nascido em encostas, a besta nas costas oscilando em perfeito equilíbrio. Ricardo Cruz fechava a retaguarda, seus olhos castanhos varrendo cada janela, cada fresta, cada possível testemunha.

Dan Ji e Yuki ficaram para trás, junto ao carro — equipamento médico preparado, seringas alinhadas como soldados em formação. Seu campo de batalha seria diferente. Sangue em vez de terra, antídotos em vez de balas.


A cada vinte metros, um novo desafio.

Um seixo solto sob a bota de Beth — ela congelou, mas um macaco-prego saltou entre galhos no mesmo instante, o ruído absorvido pelo movimento do animal.

Gunwoo escorregou onde a terra estava úmida — Lad'ya estendeu o braço sem olhar para trás, firme como a própria rocha, puxando-a de volta à posição.

Samantha detectou um padrão nas rondas dos sentinelas. "Três minutos entre o norte e o sul. Janela de quarenta segundos."

Quarenta segundos para atravessar um trecho aberto.

Eles atravessaram em trinta e cinco.


Chegar à base da torre foi apenas o primeiro ato.

Seis metros de chapa de aço liso. Nenhuma alça, nenhum apoio. A escotilha de entrada era uma boca fechada a três homens de altura.

Ricardo e Samantha trocaram um olhar — aquele tipo de comunicação que não precisa de palavras. Ele entrelaçou os dedos; ela pisou neles com a precisão de uma ginasta, alcançando a borda inferior da escotilha. Em segundos, cordas desceram como serpentes domesticadas.

Lad'ya subiu com a fluidez de quem passou um ano escalando árvores siberianas. Gunwoo foi içada com cuidado cirúrgico. Beth agarrou a corda e puxou-se — não escalou, elevou-se, como se a gravidade fosse uma sugestão que ela escolhia ignorar.


O primeiro andar: dois soldados.

Lad'ya entrou primeiro, um disparo abafado de sua pistola silenciada. O primeiro homem caiu segurando o pescoço, um som úmido escapando entre os dedos.

O segundo ergueu o rifle—e congelou.

Gunwoo, os braços estendidos em um movimento fluido de Tai Chi, os dedos traçando no ar uma geometria invisível. O soldado sentiu seus dedos travarem, os músculos do antebraço recusando obediência. Para ele, foi uma cãibra cruel, um deus nervoso momentâneo.

Para Gunwoo, foi ciência aplicada: pressão precisa em pontos neurais, redirecionamento de impulsos elétricos, corpo humano como máquina que ela aprendera a desligar.

Samantha cortou o peito do homem com sua machete—fundo o bastante para incapacitar, raso o bastante para não matar. Ricardo completou com um soco preciso, e o soldado desabou.

"Subam," ordenou Samantha. "Se não ouviram o primeiro, talvez não ouçam o segundo."


O segundo andar: três soldados.

Samantha neutralizou o primeiro com um disparo silencioso de sua besta—a flecha penetrou a junção entre ombro e pescoço, levando-o ao chão sem um grito.

O segundo tentou alcançar o rádio. Gunwoo o travou novamente, seus braços descrevendo círculos lentos que pareciam puxar fios invisíveis dos membros do soldado. Lad'ya varreu suas pernas com uma rasteira precisa. Ricardo aterrissou.

O terceiro homem viu Beth avançando sobre ele—uma visão que nenhum treinamento poderia ter preparado para processar. A manopla Crúba Béir, a "garra de urso", rasgou seu rosto em três linhas vermelhas. Ele caiu para trás, e Beth, num movimento quase casual, arremessou-o pela janela.

Três andares abaixo, o corpo atingiu o solo com um som úmido e definitivo.

"Poderíamos ter evitado isso," disse Gunwoo, a voz controlada mas os olhos acusadores.

"Não tive tempo de pensar, doutora," respondeu Beth, e pela primeira vez sua voz não tinha humor. "Ele ia gritar."


O terceiro andar: quatro soldados, espalhados pelos corredores externos da cabine de comando.

O primeiro caiu sob o ataque combinado de Samantha e Beth—facão e soqueira, metal contra carne, o homem mal teve tempo de entender o que o atingia.

O segundo foi travado por Gunwoo, seus reflexos congelados por tempo suficiente para Lad'ya e Ricardo o eliminarem com disparos sincronizados.

O soldado dentro da cabine ouviu algo. Saiu com a arma erguida—e encontrou Beth e Samantha flanqueando a porta. O confronto durou três segundos. Ele não durou três segundos.

Lad'ya e Ricardo avançaram pelo outro lado, encontrando o quarto soldado já em alerta. Mas Gunwoo estava mais rápida. Seus dedos encontraram os pontos certos na nuca do homem, e ele tombou, inerte, enquanto Samantha disparava sua besta e Ricardo completava com um tiro de Taurus.

Silêncio.

A torre era deles.

II. O CAMPO DE BATALHA

Do alto da torre, a base de Kiri An se estendia diante deles como um tabuleiro de guerra.

"Dara Yim está na posição," informou Ricardo, os olhos grudados nos binóculos.

Lá embaixo, o comboio de elefantes atravessava o portão principal. Dara montava o maior deles, sua postura ereta de comandante, seu rosto uma máscara de lealdade forjada.

Kiri An a recebeu pessoalmente. Mesmo à distância, era possível sentir sua presença—um homem magro, quase ascético, mas com olhos que queimavam com a fome insaciável do poder absoluto.

"Ong e Narith completaram as torres de observação," continuou Ricardo. "Cegaram o perímetro."

"Então agora esperamos Prak," disse Samantha.

O rádio chiou. A voz de Sokhann Prak veio tensa, profissional:

"Problema. Contingente blindado leve fora da base. Não posso ignorá-los—flanqueariam minha artilharia. Vou engajar."

Uma pausa. O som distante de um motor de tanque.

"Isso dará tempo para a base mobilizar os blindados pesados e pelo menos um helicóptero. Sacrificarei um veículo para derrubar a aeronave. Vocês só atacam quando eu silenciar a artilharia deles."

"Recebido," respondeu Gunwoo. "Stargazer pronta."

Ela baixou o rádio e olhou para sua equipe.

Beth ajeitou sua PKM na borda da torre, a correia de munição serpentando ao lado. Lad'ya preparou sua Banshee—o rifle anti-matéria que fazia homens e veículos reconsiderarem suas escolhas de vida. Ricardo verificou sua FN-FAL com a calma de quem sabe exatamente onde cada bala vai cair. Samantha encaixou uma flecha explosiva em sua besta, a ponta brilhando como um olho faminto.

Gunwoo ergueu a Dragunov que recebera dos guerrilheiros de Ong Son—uma arma velha, mas confiável, como tudo que os cambojanos ofereciam.

Lá embaixo, no vale, a base de Kiri An revelava-se como uma ferida exposta na paisagem.

Dara Yim desmontava de seu elefante, recebida por guardas que revistavam os suprimentos com olhos gananciosos. Ela mantinha a postura ereta de quem não tem nada a esconder — e tudo a ganhar.

E então, emergindo das sombras do quartel-general improvisado, Kiri An surgiu.

Gunwoo sentiu o ar mudar — não fisicamente, mas em algum nível mais profundo. O homem era uma montanha de carne mal distribuída, músculos crescendo sobre músculos em proporções que desafiavam a biologia humana. Sua face era uma máscara de tinta branca, caveira pintada sobre pele viva, os olhos negros afundados em órbitas que pareciam sugar a luz. Os cabelos longos, ensebados, cintilavam com um brilho suspeito — não óleo, mas gordura.

Gordura humana.

Seu uniforme fora americano, outrora. Agora era uma colcha de retalhos macabra: rasgos remendados com pele curtida, carregadores adornados com falanges humanas tilintando a cada passo, granadas penduradas ao lado de dentes caninos enfiados em cordões de couro.

Ele caminhou até Dara e sorriu. O sorriso de um homem que acreditava ter domesticado o mundo.


Próximo aos heliportos, uma silhueta familiar gelou a espinha de Lad'ya.

Vendetta.

O Exército da Vingança havia enviado seu comandante fantasma. Seus soldados — uma dúzia, talvez menos — formavam um perímetro silencioso ao redor de containers de armas. As caixas traziam nomes que Gunwoo reconheceu imediatamente: Colorchem. MARS Industries. Colt. Singapore Technologies. Lockheed. Thales Group. Bayer.

Corporações. Impérios. O mesmo rosto do fascismo, vestindo ternos diferentes.

Os soldados de Vendetta usavam armaduras elétricas — servomotores sibilando a cada movimento, capacetes-caveira que lembravam os macabros troféus de Kiri An, mas produzidos em série por engenheiros que nunca haviam sentido o peso de uma vida humana.

E Vendetta... Vendetta dispensava a armadura. Seu uniforme tático preto cobria cada centímetro de pele, o capacete e a máscara-caveira tão icônicos quanto anônimos. Ele treinava oficiais de Kiri An no manuseio dos novos equipamentos, seus gestos econômicos, precisos — a economia de movimento de quem já matou tantas vezes que o ato perdeu qualquer dramaticidade.

"Exército da Vingança," Gunwoo murmurou no rádio aberto. "Prioridade dois. Pressionar apenas o suficiente para evacuar. Se ficarem, o custo da operação triplica."

"Entendido," respondeu Ricardo.

"E Vendetta?" perguntou Beth, os dedos tensos na coronha da metralhadora.

"Ninguém enfrenta Vendetta corpo a corpo. A não ser que queira perder um dedo." A voz de Lad'ya era seca, mas havia algo nos olhos dele — memória. Relatório de Victor. O homem que se moveu através de sombras. "Nós não estamos aqui para vingar Staten Island. Estamos aqui para ganhar."


Gunwoo varreu a base com a luneta da Dragunov.

Os reféns japoneses. Onde estariam? Não nas tendas comuns — muito visíveis, muito vulneráveis. Talvez no bunker subterrâneo que os relatórios de Narith mencionavam. Talvez nos containers convertidos atrás do QG.

E Kiri An. Seu corpo massivo movia-se entre os soldados, inspecionando, aprovando, possuindo tudo que seus olhos tocavam.

"Ong," ela chamou pelo rádio. "Seu caminho vai abrir em breve. Prepare-se."

A resposta veio grave, inabalável:

"Estou pronto desde que cruzei o portão do inferno, doutora."


Os primeiros disparos da artilharia de Prak ecoaram na manhã como um trovão tardio.

06:47:22.

Do segundo heliporto, as pás do Mil Mi-24 romperam a névoa matinal com um rugido crescente — um Hind, tanque voador, seu canhão quadruplo já buscando alvos. Se atingisse o flanco exposto das forças de Ong, ceifaria dezenas antes que pudessem cruzar a centésima parte do portão.

Prak observou pelo periscópio, o rosto impassível. Calculou.

Seu T-55 — não o mais novo, não o mais rápido — recebeu ordens pelo rádio. O motorista, um jovem de Kampong Thom com cicatrizes de queimaduras nos antebraços, ouviu em silêncio. Então assentiu, engrenou a primeira marcha, e moveu-se.

O tanque emergiu da camuflagem como um fantasma convalescente — sua torre inclinada, a pintura desbotada, uma gaiola improvisada de galhos e folhagens ainda presa à blindagem lateral. Parecia um animal velho demais para a luta.

Parecia exatamente o que Prak queria que parecesse.

O piloto do Hind mordeu a isca.

O míssil antitanque traçou um arco perfeito na manhã cambojana — fio de fumaça branca, rastilho incandescente, a promessa de destruição contida em quatro quilos de explosivo conformado. Encontrou o T-55 no ângulo exato que Prak havia previsto.

A explosão foi espetacular, mas vazia.

O tanque não detonou. Sua blindagem frontal — a mais espessa — absorvera o impacto, e a gaiola de galhos fizera o que a ciência militar jamais preveria: criara espaço, dispersara o jato de cobre fundido antes que penetrasse o casco. O motorista, já fora do veículo e rastejando entre samambaias, sentiu o calor na nuca e não olhou para trás.

Mas o míssil cumprira sua função secundária.

Denunciara a posição do Hind.

Prak não precisou ordenar. Seus artilheiros conheciam o ofício melhor que qualquer manual. Três canhões antiaéreos ZSU-23-4 Shilka — capturados, restaurados, amados como filhos pródigos — ergueram suas quádruplas bocas de fogo e cantaram.


A cadência de tiro dos Shilkas era a coisa mais próxima do inferno mecânico que a engenharia soviética havia produzido: mil e duzentos disparos por minuto, cada projétil de 23mm desenhado menos para perfurar que para desmembrar. O Hind tentou evadir, lançando flares, torcendo o corpo como uma serpente ferida.

Não adiantou.

A primeira rajada decepou o rotor de cauda. A segunda abriu o compartimento do motor como uma lata de conserva. A terceira — desnecessária, quase piedosa — encontrou o tanque de combustível.

O helicóptero tombou graciosamente, uma bola de fogo que ainda mantinha a forma de ave predadora enquanto caía atrás das linhas inimigas. A bola de fogo iluminou o rosto de Prak por um segundo — e nele, não havia triunfo. Apenas a satisfação austera de um problema resolvido.

"Tanque está crítico, mas recuperável," informou o motorista pelo rádio, a voz trêmula mas intacta.

"Bom trabalho, criança," respondeu Prak. "Amanhã você começa o treinamento para sargento."

Então elevou o canal para a frequência geral, sua voz cortando o caos com a frieza de um bisturi:

"Portões abertos. Artilharia inimiga silenciada. Heliportos neutralizados."

Pausa.

"Agora, cambojanos — mostrem a esses fantoches corporativos como se luta por terra própria."

06:52:17.

O portão da base tremeu. Não porque foi forçado — mas porque Dara Yim ordenou que fosse aberto.

Seus homens moveram-se como uma só criatura, neutralizando os guardas leais a Kiri An com a eficiência de quem ensaiou aqueles segundos centenas de vezes. Os portões de aço gemeram, separaram-se, escancararam a garganta da fortaleza.

E através deles, como um maremoto contido por tempo demais, Ong Son avançou.

Atrás dele, duzentos guerrilheiros — os homens de Dara, os soldados curados de Narith, os sobreviventes que haviam acordado do pesadelo da S-Gamma com fome de justiça. Seu grito de guerra não era um nome, não era uma palavra — era o som bruto da terra exigindo de volta o que lhe foi tomado.

"ÔÔÔÔNG! ÔÔÔÔNG! ÔÔÔÔNG!"


Gunwoo respirou fundo.

Apoiou a coronha da Dragunov no ombro, o dedo pairando sobre o gatilho.

"Stargazer," sua voz fluiu pelo rádio, calma como sempre. "Posições. Abrimos caminho para Ong Son. Eliminamos ameaças diretas. Afugentamos o Exército da Vingança sem comprometer a operação."

Ela mirou. O retículo encontrou o peito de um oficial inimigo que apontava um lança-foguetes na direção de Ong.

"E se Kiri An cair..."

Sua respiração estabilizou. O dedo pressionou.

"...que seja pelas mãos do homem que ele traiu."

O primeiro tiro rompeu o silêncio da torre.

E a batalha final começou.

Como Prak previra, o ataque de artilharia funcionou como um terremoto direcionado: desorientou, fragmentou, expôs.

Kiri An, ao primeiro impacto dos Shilkas contra os heliportos, recolheu-se como uma aranha ferida para dentro de seu centro de comando — uma estrutura de concreto armado decorada com troféus humanos e bandeiras de um império que existia apenas em sua mente febril. Mas quando os portões se abriram e a verdade atravessou o pátio como um vento gelado — Dara Yim, sua própria comandante de logística, era a lança dentro das muralhas — ele emergiu.

Não para lutar. Para se cercar.

Quarenta soldados fiéis — ou zumbificados o bastante para parecerem fiéis — formaram um anel humano ao seu redor. Kiri An caminhou no centro desse casulo de carne e aço, seus olhos pintados de caveira varrendo o caos com uma calma perturbadora.


Narith Chum inundou os portões com seus homens — como água encontrando frestas. Cada guerrilheiro seu sabia exatamente onde posicionar-se, onde o ângulo de tiro do inimigo falhava, onde a sombra escondia um corpo. Era a arte da comunicação levada ao campo de batalha: informação como arma, silêncio como escudo.

Ong Son avançou no centro dessa vanguarda, seu corpo massivo movendo-se com uma economia de movimento que assustava até os próprios aliados. Ele prosseguia, como um fenômeno natural, como uma montanha que decidira andar.

Dara Yim tomou o flanco esquerdo, seus elefantes agora não mais bestas de carga mas torres móveis, os guerrilheiros atirando de suas costas como de fortalezas vivas. Os animais, treinados desde crias para ignorar o som de tiros, avançavam com uma pachorra que aterrorizava mais que qualquer fúria.

E do alto da torre, a Stargazer esculpia o campo de batalha.


Gunwoo observava através da luneta da Dragunov como um maestro lê uma partitura — não as notas individuais, mas a música completa.

Um oficial do Exército da Vingança apontou na direção de Ong Son, coordenando um contra-ataque de flanco. O dedo de Ricardo respirou. O tiro partiu. O oficial caiu com a perna perfurada — não mortal, mas imobilizador. Fora de combate.

Lad'ya encontrou um alvo mais significativo: um soldado das forças especiais, armadura elétrica brilhando sob o sol da manhã, que se posicionava para um disparo de foguete contra o flanco de Narith. A Banshee cuspira fogo — não o som seco de um fuzil comum, mas o rugido profundo de uma arma que não deveria existir em mãos humanas. O soldado voou para trás como se atingido por um caminhão, o peito aberto, a armadura inútil contra a munição antimatéria.

"Primeiro sangue do Exército da Vingança," Lad'ya informou pelo rádio, a voz neutra.

Samantha viu três olheiros se destacarem do perímetro de Vendetta, movendo-se para investigar a origem dos disparos. Sua besta rangeu — uma vez, duas, três. As flechas explosivas não visavam os homens, mas o chão à sua frente. As detonações levantaram terra, fumaça, fragmentos de laterita. Os olheiros recuaram, cegos temporários, sua missão de reconhecimento abortada antes de começar.

Ricardo cobria as costas de todos, sua FN-FAL cantando em intervalos precisos — nunca mais que três tiros, nunca no mesmo lugar, sempre deslocando-se entre disparos para confundir qualquer cálculo de trajetória.

"Container de evacuação," Gunwoo identificou. Um soldado do Exército da Vingança preparava um módulo de carga para içamento, documentos e equipamentos sendo amarrados às pressas.

Ela mirou. Não no homem. Na alavanca de liberação rápida.

O tiro partiu. O metal rangeu. O container inclinou-se, derramando seu conteúdo precioso na lama — relatórios, protótipos, talvez amostras da própria S-Gamma. O soldado olhou para o caos, depois para o céu, e tomou a única decisão sensata:

Evacuar.

Foi nesse momento que o atirador de Prak errou.

Lá da torre leste — uma das que haviam sido tomadas na calada da noite — um spotter e um sniper dos homens de Prak avistaram Vendetta coordenando a evacuação. O atirador era bom. Treinado pelos melhores instrutores que o dinheiro vietnamita podia comprar.

Ele errou por três centímetros.


A bala passou onde deveria estar a cabeça de Vendetta. Mas Vendetta não estava mais lá.

O que os binóculos do spotter captaram desafiava a física que ele conhecia. Vendetta dissolveu-se em sombra por um fragmento de segundo — e então reconstituiu-se a poucos centímetros de distancia, ele achou que alucinava e limpou os olhos do suor... apenas para ver uma sombra tomando toda a onda de choque da trajetória da bala até a torre.

"Sangue de demônio," o spotter murmurou, as mãos tremendo.

Não teve tempo de dizer mais nada.

Vendetta estava sobre eles.

Não correu. Não escalou. Simplesmente apareceu, emergindo das sombras do compartimento de munição como se sempre estivesse lá. O atirador tentou sacar a pistola — Vendetta quebrou seu braço em dois lugares com um movimento que parecia quase casual. O spotter tentou agarrar sua faca, mas antes que pudesse fazer algo, sua garganta já estava cortada. Vendetta havia sacado e cortado sua garganta com sua machadinha tática e ele nem notara que havia morrido.

Vendetta o ignorou. Seus olhos — o que quer que houvesse atrás da máscara-caveira — fixaram-se no atirador caído.

"Você mirou em mim," disse. A voz era processada, distorcida, sem emoção identificável. "Isso foi um erro."

A machadinha subiu e desceu. Dividiu o rosto do atirador em dois, este apenas gaguejou algo inumano antes de cair.

O spotter, assistia sua vida se esvair enquanto o comandante do Exército da Vingança simplesmente pisou para fora da torre — e desapareceu na sombra projetada pelo próprio edifício.

Três segundos depois, sua silhueta negra emergia das sombras de um contêiner, duzentos metros abaixo, retomando a coordenação da evacuação como se nada tivesse acontecido.


Foi o suficiente.

Vendetta observou a sequência com a frieza de quem já perdeu batalhas antes — e sobreviveu a todas. Seus dedos enluvados de preto moveram-se no ar, uma linguagem de sinais que apenas seus homens compreendiam. A mensagem era clara:

Retirada. Esta colheita não vale a ceifadeira.

O Exército da Vingança começou a mover-se em direção aos helicópteros que começavam a despontar no horizonte — não as máquinas vietnamitas ou soviéticas, mas algo novo. Grandes, negros, sem insígnias, com linhas angulares que pareciam pertencer a um futuro que ainda não deveria existir. Projetos stealth, silenciosos até o momento em que romperam a camada de nuvens e revelaram suas silhuetas de pesadelo.



Redes de evacuação desceram como tentáculos mecânicos. Os soldados do Exército da Vingança abandonaram posições, equipamentos, containers inteiros — tudo sacrificável diante da ordem de recuar com os ativos humanos intactos.

Lad'ya ajustou a mira da Banshee no helicóptero líder. "Derrubo?"

"Negativo." A voz de Gunwoo foi firme, quase maternal em sua certeza. "Deixa eles irem. Queremos que vão. Queremos que contem aos seus superiores que enfrentar um povo nativo custa mais do que qualquer corporação está disposta a pagar."

Lad'ya baixou a arma. Não discordava.

Vendetta foi o último a subir. Por um momento, imóvel no meio do pátio, sua máscara-caveira pareceu apontar diretamente para a torre onde a Stargazer se ocultava. Não havia ameaça na postura — apenas reconhecimento. O olhar de um predador que encontra outro predador e decide, por hoje, que o território não vale a briga.

Então ele subiu na corda com uma fluidez que desafiava a gravidade — e desapareceu na barriga negra da aeronave.

Os helicópteros sumiram no céu como se nunca tivessem existido.


Foi então que Prak realmente começou seu trabalho.

Livre para operar sem a ameaça de caça dos ares, sua artilharia encontrou novos alvos: depósitos de munição, ninhos de metralhadora, concentrações de tropas ainda leais a Kiri An. Cada impacto era cirúrgico, cada explosão abria caminho para os guerrilheiros de Ong Son avançarem mais um metro.

Narith Chum, que até então coordenava o avanço com precisão de relojoeiro, viu-se subitamente cercado. Um contra-ataque desesperado de uma célula de zumbis — vinte homens sem medo, sem dor, sem hesitação — isolou seu grupo do resto da força invasora.

"Stargazer, Narith cercado," a voz no rádio veio calma, mas o som de tiros ao fundo contava outra história. "Coordenadas transmitidas. Se puderem—"

O tiro de Lad'ya chegou antes da frase terminar. O líder da célula zumbi caiu com a perna destruída, e no segundo seguinte, Samantha e Ricardo já estavam realinhando suas miras para os flancos do grupo inimigo.

Beth ajustou sua mira encontrou o suporte de metralhadora que mantinha os homens de Narith imobilizados. A PKM rugiu chumbo levantando uma névoa vermelha — e o silêncio súbito da arma inimiga foi a senha para o avanço.

Narith respirou fundo. "Obrigado, doutora."

"Anote na conta," ela respondeu, e Ricardo quase riu.


As forças de Kiri An recuaram, dissolveram-se, renderam-se ou morreram — nessa ordem de preferência. O anel de soldados ao redor do líder encolheu, encolheu, até que restaram apenas os mais fanáticos, os mais drogados, os mais perdidos.

E então, abriu-se.

Não porque os soldados recuaram. Porque Ong Son avançou através deles.

Seu corpo moveu-se com a graça absurda de um predador de topo — bloqueios que viravam ataques, esquivas que pareciam convites, cada movimento tão econômico que doía assistir. Três homens caíram antes que percebessem que ele já passara. Mais dois tentaram flanqueá-lo e encontraram os punhos de seus próprios aliados — ele os usara como escudos humanos sem perder o ritmo.

Quando finalmente parou, estava a dez metros de Kiri An.

O silêncio caiu sobre o campo de batalha como um véu.

Cambojanos de ambos os lados baixaram as armas. Atiradores imobilizaram os dedos sobre gatilhos. Até os feridos pareceram conter os gemidos.

Dois gigantes se encaravam no centro do inferno.


"Ong Son." A voz de Kiri An era um ronco gutural, como pedras rolando em um barril de aço. Seu sorriso revelava dentes limados em pontas — não por tradição, mas por prazer. "Que bom vê-lo novamente, 'camarada'." A palavra saiu cuspida, cheia de escárnio. "Sua carne vai alimentar meu exército. Vou mastigar cada fibra, chupar cada osso — e então serei mais forte. Mais poderoso. Mais rei."

Ele abriu os braços, exibindo o corpo deformado pelos rituais canibais. "Você fugiu. Eu comi. Você perdeu. Eu venci. Essa é a lei do Camboja, grandão — a lei que você esqueceu."

Ong Son não moveu um músculo. Apenas observou, com a paciência de quem já viu dezenas de homens como Kiri An — e enterrou todos.

"Você confunde comer com vencer, Kiri." Sua voz era baixa, mas carregava a gravidade de um trovão distante. "Pensa que devorar os fracos te faz forte. Mas tudo que você fez foi encher a barriga de medo."

Ele ergueu uma mão — aberta, calma.

"Para devorar um homem de verdade, primeiro precisa vencê-lo. E isso..."

O punho fechou-se lentamente.

"...você não tem chance."

Kiri An rugiu e atacou.


O primeiro soco veio como uma marreta — bruto, direto, carregado de toda a força que músculos alimentados por hormônios sintéticos e rituais canibais podiam gerar. Ong Son bloqueou. Não esquivou — bloqueou, antebraço contra antebraço, o impacto produzindo um som úmido de carne contra carne.

E então agarrou.

Sua mão gigante fechou-se em torno do pulso de Kiri An como um torno hidráulico. O cambojano tentou puxar-se, mas Ong já estava movendo — não para trás, mas em um arco perfeito, usando o impulso do próprio ataque de Kiri An contra ele.

O corpo do líder rebelde voou seis metros e encontrou a parede de concreto do centro de comando com a força de um veículo em baixa velocidade.

Reboco explodiu. Pó subiu. Kiri An gemeu — um som animal, surdo — e por um momento pareceu ter acabado.

Mas no instante seguinte, estava de pé.

Correu de volta com a velocidade de um felino enjaulado, outro soco disparado. Ong desviou com um movimento mínimo de quadril, e enquanto Kiri An passava por ele, desequilibrado, o punho do gigante encontrou o estômago do oponente com a precisão de um bisturi.

Kiri An dobrou-se, ar expelido dos pulmões em um chiado. Pela primeira vez, seus olhos pintados de caveira mostraram algo além de fome: dúvida.

Recuperou-se rápido demais, o treinamento militar ainda presente sob a camada de loucura. Seu punho disparou em um gancho contra as costelas de Ong — e encontrou os músculos oblíquos do gigante como quem bate em um muro de borracha. Ong grunhiu, sentiu a dor, mas não recuou.

Respondeu com um soco em arco que teria decapitado um homem comum. Atingiu o lado da cabeça de Kiri An com um som que ecoou por todo o pátio.

Kiri An cambaleou, sangue escorrendo do lábio partido. Mas ainda estava de pé. Ainda lutava.

Seu contra-ataque foi primitivo, desesperado — um uppercut no estômago de Ong Son. Ong bloqueou com o joelho, o impacto produzindo um estalo seco. A mão do líder rebelde prendeu-se no bloqueio.

Ong sentiu os ossos da mão de Kiri An cederem sob a pressão.

aproveitou.

Agarrou Kiri An pelo colete — aquela relíquia americana enfeitada com ossos humanos — e rolou com ele. Não foi apenas um arremesso. Foi uma projeção completa, o đòn chân do Vovinam em sua forma mais pura: usar o peso do oponente contra ele, transformar sua própria massa em arma.

Kiri An voou novamente contra a parede.

Desta vez, caiu de cabeça para baixo.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

Kiri An moveu-se. Lentamente, como um inseto atordoado, tentou erguer-se. Seu corpo tremeu, falhou, caiu novamente. Ele sorriu — os dentes agora pintados de seu próprio sangue — e tentou falar.

Nenhuma palavra saiu.

Apenas um suspiro.

E então ele tombou.

Não se levantou mais.


O grito que rompeu o silêncio não foi de guerra — foi de libertação.

"ÔÔÔÔNG! ÔÔÔÔNG! ÔÔÔÔNG!"

Os guerrilheiros de Dara, os sobreviventes de Narith, os soldados de Prak que testemunharam de longe — todos encontraram a mesma voz, o mesmo nome, a mesma fé renascida.

Os poucos leais a Kiri An que ainda restavam tentaram fugir, resistir, negociar. Foram caçados, rendidos ou mortos — não com a fúria cega da vingança, mas com a frieza cirúrgica de quem está limpando uma ferida para que ela possa finalmente cicatrizar.


No alto, os helicópteros stealth já eram pontos distantes no céu.

Vendetta observava pela janela da aeronave, sua máscara-caveira voltada para o campo de batalha que encolhia na distância. Seus dedos tamborilaram uma vez no apoio do banco — o único sinal de qualquer emoção.

"Charles Lacroix," ele murmurou, para ninguém em particular. "Interessante."

Depois virou-se para seus homens e começou a planejar o próximo movimento.


Na torre, Gunwoo baixou lentamente a Dragunov.

Seu corpo doía. Sua mente zumbia com o esforço psíquico do dia. Mas quando olhou para o vale — para Ong Son erguido nos ombros de seus homens, para os portões abertos, para os containers do Exército da Vingança abandonados como presentes de despedida — ela sentiu algo que não experimentava há anos.

Esperança.

"Stargazer para todas as estações," sua voz fluiu pelo rádio, suave mas firme. "Missão cumprida. Objetivos primários e secundários alcançados."

Pausa.

"Preparem-se para extração. E... bom trabalho, todos."

Lad'ya recuou da janela, a Banshee fria em suas mãos. Seus olhos encontraram os de Gunwoo por um segundo — e algo passou entre eles. Reconhecimento. Respeito. O entendimento silencioso de quem compartilhou o inferno e saiu do outro lado.

Beth Brawl já estava rindo, abraçando Samantha com força de urso enquanto a francesa tentava fugir.

Ricardo fotografava tudo — os rostos, os tanques, o momento.

Lá embaixo, o Camboja começava a respirar novamente.

Kiri An, ao acordar não foi poupado, foi executado por fuzilamento, junto com uns poucos iludidos ou fanáticos demais para serem redimíveis. Kiri An morreu proferindo uma maldição ininteligível.

Peshin e seu sobrinho, ao saberem da vitória de Ong Son tentaram fugir, mas foram rendidos pelos próprios homens, um oficial chamado Virak Chaam jurou pelo rádio lealdade a Ong Son e que iria para a base entregar o traidor Peshin e seu sobrinho.

Outras bases de Kiri An regiram de formas variados, alguns seguiram exemplo de Virak, jurando lealdade ou se rendendo. Uma resolveu se debandar e uma, tola, resolveu continuar a luta de Kiri An.

Ao se encontrarem lá embaixo, Ong Son pediu para que Gunwoo, Dan Ji e Yuki os acompanha-se, foram encontrados os reféns japoneses. Gunwoo pediu que Ricardo e Samantha fosse com eles para ajudar, enquanto Beth e Lad’ya faziam  inventário do que foi deixado pelo Exército da Vingança. O que viram foi hrrível, os reféns japoneses estavam em um curral, como que com porcos, dois deles mortos, suas carcaças cortadas como gado. Um deles, um orgulhoso ex-lutador de sumo mongol não tinha mais pernas, outro, um velocista coreano havia perdido um braço e uma perna. Muitos tinham pedaços de seu corpo cirurgicamente removidos. Gunwoo decidiu uma coisa, não ia curar eles lá, o trauma iria enlouquecer todos. Como eles estavam submetidos a Ong Son pediu que este discursasse para eles, para mandar que eles sejam fortes, pedir desculpas pelo que fez com eles, pedir que aguentem, que eles serão livres e esperança irá retornar, mas, que no momento, ele ordena que sejam fortes e que resistam a dor para poderem ser evacuados. Influenciados pela droga, eles lutaram com todos os sentimentos horríveis que inundavam suas mentes para obedecer Ong Son.

No fim da tarde, os reféns estavam assegurados e o inventário foi feito. A Stargazer ficaria apenas com uma amostra – a maioria ficando para o Exército da Vingança – mas a amostra que a Stargazer ficava era grande o bastante para ser de valor inestimável para a divisão científica, de tecnologia e pesquisa e desenvolvimento.

Ong Son proveu a eles veículos para levarem tudo, ele mesmo e todos os membros do Exército estariam muito ocupados se organizando o mais rápido que pudessem para resistir os contra-ataques que certamente viriam dos poucos ainda leais a Kiri An, de outras facções e do próprio governo, mas eles sobreviveriam o importante é que a Stargazer chegasse ainda esta noite para a fronteira com a Tailândia, onde a policial Chivy San estaria esperando por eles, com grande gratidão por terem libertado sua sobrinha de Kiri An. Porém, para garantir que a Stargazer é mesmo de confiança, Dara Yim, Sokram Prak e Narith Chum combinaram que o irmão de Dara iria com eles disfarçado de refém recuperado – Sareth Yim serviria como olhos e ouvidos dos Heróis do Khmer Vermelho na Stargazer.

Na viagem de volta, Gunwoo teve uma notícia inesperada de Mamoru, o transporte de volta ao chegarem em Rayong (aeroporto de U-Tapao) era esperado que fosse militar, da Defesa Japonesa, graças aos contatos que o aliado de Charles Lacroix, o superintendente da Interpol de Tóquio Takeshi Sato havia conseguido. Porém Mamoru explica algo que pode trazer um complicador futuro à Stargazer – esse contato é o clã Mori da Sociedade da Mão Esquerda, estes tendo muita influencia na Defesa Japonesa.

25/07/1989

Os membros da Stargazer chegam, exaustos à noite na província de Rayong onde Chivy San se despede depois de uma viagem sem descanso até o local.  

Lá eles encontram, dentro do avião militar e os aguardando – Yagyu Nobumasa – a ponte entre a Stargazer e a Sociedade da Mão Esquerda – e um homem em que eles não sabem se podem confiar ou não.


Nobumasa os congratula no sucesso da missão de uma forma que pareceu calorosa e honesta, mas tudo que sai do robusto senhor de bigode de ferradura e cabelos longos e cinzentos amarrados em coque samurai, óculos aviator e roupas de esporte fino kitsch não parece completamente honesto.

Enquanto os soldados carregam e asseguram os equipamentos e os reféns recuperados ele olha tudo, percebe a exaustão, percebe que um dos reféns não tem o mesmo olhar de desolação confrontada (Sareth Yim) e percebe que Ong Son – que os Yagyu consideram seu ativo – não está lá.

Ele questiona Gunwoo da forma diplomática oleosa dele onde está Ong Son, lembrando a ela que foram os Yagyu que emprestaram ele para a missão com a intenção de ter ele de volta.

Gunwoo, de forma bem mais direta, e brutal, porém ainda diplomática, lembrou a ele que foi a Stargazer que o capturou em primeiro lugar, a Stargazer entregou aos Yagyu para custódia apenas e ela está decepcionada em como ele foi tratado.

Na viagem, Nobumasa e Gunwoo entram em um debate, Nobumasa com o argumento de que a Stargazer e os Yagyu deveriam se tratar como aliados e provocar os Yagyu com coisas como essa, de que os Yagyu confiam algo para eles e eles não cumprem, não é recomendável.

O argumento de Gunwoo é bem mais poderoso porque é a verdade. Os Yagyu tratam a Stargazer não como aliados, mas como um recurso, prova disso é que considera Ong Son como um “ativo” deles, sem consultar a stargazer, que meramente pediu que eles tivessem a custódia temporária dele, incluindo dificultando acesso a ele durante dita custódia.

A insistência de Nobumasa em defender o discurso cooperativo e as afiadas respostas de Gunwoo estavam trazendo a antipatia dos outros agentes para Nobumasa. Beth disse que se ele abrisse a boca novamente, ia jogar ele do avião. Lad’ya recomendou ele ter cuidado com o que ia dizer em seguida. Samantha deu um sorriso predatório e disse que tem a punição perfeita para ele, coloca-lo como passageiro no trem de pouso. E Ricardo disse que é contra tortura, mas hipoteticamente, para ele parar de falar bobagens, apoia. Dan Ji e Kagawa pediram para ele não insistir mais.

Se vendo derrotado ele volta num tom mais apaziguador, admitindo que o clã Yagyu pode ser difícil, mas pedindo que Gunwoo trabalhe com ele em um comprometimento, ele não pode voltar de mãos vazias. Gunwoo foi clara, que ele negociasse com Lacroix, pois ela mesma estava cansada e queria descansar, o que a presença dele tornava difícil. Derrotado, ele recuou para uma abordagem mais amigável, falando que também estava e que iria conversar com Lacroix.A partir daí começou a conversar coisas amenas com os agentes, como Baseball com Dan Ji e Kagawa e futebol com Samantha, Ricardo e Beth.

Quando eles chegaram, foram recebidos com os membros da Stargazer fazendo uma grande recepção para Nobumasa.

Após Nobumasa ter passado por uma inspeção a busca de escutas, a reunião com Charles Lacroix vai ocorrer. 


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