Phlangcit: O Poder Psíquico.
PHLANGCIT
O Poder Psíquico através das Eras
Phlangcit é uma prática mística e psíquica marcial advinda dos povos do Khmer antigo. Essa arte aparece e reaparece como mito e lenda, sempre acompanhada de histórias de um senhor de guerra enebriado por poder e imortalidade, extremamente versado no Phlangcit.
AS ORIGENS: A Aurora do Phlangcit (Antiguidade)
Nos primórdios das civilizações que habitavam o sul da China e migraram em direção ao Sudeste Asiático, o Phlangcit (พลังจิต - O Poder Psíquico) já existia. Era uma arte marcial e uma filosofia que pregava o equilíbrio do Bun – o crédito divino que todas as pessoas têm – e o Yeak – o demônio da raiva. Esta arte marcial deu origem ao Yuthakun Khom e, a partir dele, várias outras na região.
Mas então surgiu um homem de estatura impressionante, feições aristocráticas e um carisma magnético avassalador. Seu nome foi esquecido com o tempo, mas não suas maldades. Esse tirano não era um mestre marcial comum. Ele era extremamente versado no Phlangcit e pregava que o Yeak não era fraqueza, mas a aceleração suprema para o poder. Através do Phlangcit, seus punhos canalizavam uma aura invisível e esmagadora que destruía o espírito e a carne de seus oponentes.
Utilizando sua lábia e o Phlangcit, o tirano ergueu o primeiro de muitos impérios tirânicos. Contudo, a opressão despertou a revolta dos povos nativos. Unindo forças e sacrificando legiões, os guerreiros da antiguidade conseguiram derrotar o tirano imortal. O Phlangcit foi classificado como bruxaria sombria e banido. Mas a semente física de seus movimentos não morreu: desprovida da energia psíquica pura, a mecânica corporal do estilo foi adaptada pelo povo, misturando-se ao animismo local para dar origem às artes marciais ancestrais de sobrevivência, como o Yuthakun Khom e o Lbokator (Bokator). O que nasceu como uma ferramenta de opressão foi ressignificado pelo povo Khmer como uma arte de defesa e libertação.
A SEGUNDA VINDA: O Maha Yuthakun Khom (Império Khmer Medieval)
Séculos mais tarde, durante o auge do Império Khmer, o tirano reencarnou, com seu nome apagado dos registros e proibido para as gerações futuras. Sabendo que o nome Phlangcit ainda ecoava como uma maldição nos textos antigos, ele adotou uma nova máscara. Apresentando-se novamente como um líder carismático e de presença divina, ele clamou ter decodificado e aprimorado a arte marcial dos próprios templos de Angkor. Ele batizou seu estilo de Maha Yuthakun Khom (មហាយុទ្ធគុណខម - O Grande Yuthakun Khom).
O tirano vendeu a ilusão de que o Maha Yuthakun Khom era uma dádiva imperial, uma técnica sagrada reservada aos predestinados a governar. Sob essa farsa nacionalista e fascista, recrutou a elite guerreira do império. Discretamente, usava o treinamento para drenar a força vital dos iniciados e corromper suas mentes, reintroduzindo secretamente o Phlangcit Yeak sob o disfarce de "iluminação espiritual".
A farsa ruiu quando mestres ascetas do budismo khmer perceberam que os guerreiros do Maha Yuthakun Khom estavam perdendo sua humanidade, agindo como cascas vazias e cruéis. Uma nova rebelião estourou nos pátios de Angkor. Ao ser derrotado em um duelo monumental, a verdadeira face do tirano foi exposta: sua suposta arte imperial nada mais era do que o velho, odiado e profano Phlangcit Yeak reempacotado. Mais uma vez, o tirano virou poeira, e o império tentou apagar seus rastros.
A TERCEIRA VINDA: O Uttam Lboukkatao (Final do Século XIX)
No final do século XIX, com o Sudeste Asiático fragmentado e sob a crescente pressão do colonialismo europeu, o tirano retorna. Dessa vez, seu nome é lembrado: T. Cheang, ou simplesmente o "Criador de Bonecas". Ele ressurgiu na Indochina Francesa. Compreendendo a nova geopolítica, aliou-se secretamente a diplomatas franceses e investidores americanos que buscavam controlar a região. Tornou-se amado nos palácios franceses e cortes inglesas como "O General Artesão" ou "O Criador de Bonecas", graças à sua habilidade de criar bonecas de porcelana que pareciam reais.
Para as massas locais que clamavam por soberania, ele se apresentou como um aristocrata revolucionário e um exímio general estrategista. Criou o Uttam Lboukkatao (ឧត្តមល្បុក្កតោ - O Supremo Bokator). Afirmava que este estilo era a evolução científica e definitiva do Bokator tradicional, redesenhado para modernizar o exército local e expulsar ameaças externas. Graças ao suporte logístico e às armas de seus aliados ocidentais, o Criador de Bonecas consolidou um poder político e militar imensurável por décadas, especialmente com seu exército de mulheres assassinas que ele chamava de "Tokkata".
Para que não suspeitassem de sua óbvia imortalidade, Cheang forjou meticulosamente sua própria morte e passou a governar totalmente nas sombras. Contudo, o arranjo ruiu quando franceses e americanos precisaram de um bode expiatório para acobertar seus crimes na região. Revelaram todos os segredos sujos de Cheang e o culparam, juntamente com suas assassinas, por uma série de desastres humanitários na Indochina. No caos da virada do século, os rebeldes locais invadiram os quartéis do Uttam Lboukkatao e testemunharam suas assassinas de elite canalizando chamas invisíveis e distorcendo a gravidade com a mente. A verdade veio à tona outra vez: o Uttam Lboukkatao era apenas o Phlangcit vestindo farda militar.
A ERA MODERNA: O Paradoxo do Winat Lerdrit
Já na segunda metade do século XX, com o mundo imerso na Guerra Fria e na transição para a modernidade tecnológica, o Criador de Bonecas retorna. Adota o nome de Makok Wạw p̀ā e inicia sua jogada final: a fundação da corporação Shadaloo. Com seu carisma estonteante e incrível poder de persuasão, rapidamente tornou-se amigo e confidente de grandes líderes mundiais, como Gorbachev, Reagan e Bush. A revista Time traduziu seu nome como M. Bison, o homem mais influente do mundo. O nome pegou, junto com sua foto de sorriso aberto e rosto forte. Com sua influência e exército, invadiu e conquistou uma série de arquipélagos da Birmânia e fundou um país chamado "República Democrática Autocrática de Mrganka", tornando-se seu "Presidente Vitalício Supremo". Mrganka foi rapidamente reconhecida como país pelos EUA e União Soviética; o resto do mundo teve que seguir o exemplo.Porém, antes de chegar a isso, ele precisava de uma força de elite que operasse perfeitamente no submundo militar e de espionagem. Foi então que estabeleceu o estilo Winat Lerdrit (វិនាសเลิศริទ្ធិ).
Para entender o peso desse nome, é preciso olhar para a realidade marcial. Na Tailândia moderna, o Muay Lerdrit (เลิศฤทธิ์) é a arte marcial militar legítima, focada em eficiência extrema, quebramentos e neutralização rápida do inimigo. Sabendo do respeito que o termo evocava, Bison adicionou o prefixo khmer/páli Winat (វិនាស), que significa "Destruição", "Ruína" ou "Aniquilação".
O Winat Lerdrit foi apresentado aos soldados como uma variante ultra-secreta, uma evolução "corrompida e letal" do Lerdrit militar tradicional. Mas há uma verdade sombria que os praticantes do Lerdrit convencional finalmente começaram a compreender: o Winat Lerdrit não é uma evolução técnica, mas um vetor de infecção.
Enquanto o Lerdrit real baseia-se na mecânica corporal perfeita e na disciplina militar, o Winat Lerdrit usa essa mesma base física como um "para-raios" para canalizar o Phlangcit Yeak ancestral (que o mundo moderno agora conhece como Psychic Power). Bison projetou o Winat Lerdrit para que cada soco, postura e projeção de peso do corpo maximize a condutividade da energia psíquica. É por isso que os soldados da Shadaloo que praticam essa vertente conseguem desferir golpes que desafiam a física e rasgam a alma do oponente: eles estão usando o corpo do Lerdrit, mas a alma de seus golpes pertence ao mesmíssimo Phlangcit autoritário que Makok Wạw p̀ā criou no início dos tempos.
A tragédia do estilo original é que ele não é nada disso. É uma arte marcial espiritual e legítima que foi cooptada por uma força esmagadora do fascismo e jogada no lixo da humanidade.
Por isso, o Phlangcit é um tabu nos países descendentes do Império Khmer. Seus praticantes são ostracizados e vistos com desconfiança, taxados de bruxos ou mau agouro, não importando realmente se fazem mal ou não. A realidade é que o estilo não é corruptor em si. De fato, é parecido com o Ansatsuken, onde se tenta equilibrar o Bun com o Yeak. Curiosamente, o Phlangcit é o avô ancestral do Yuthakun Khom, que por sua vez deu origem ao Bokator.
O Phlangcit é um estilo mal visto em sua terra de origem, mas sobrevive pontualmente na Indochina e em poucos outros pontos do mundo. Seus praticantes são tímidos e reclusos, preferindo se isolar e ajudar como podem na condição de ascetas, em vez de atrair a ira de seu povo. Esses tímidos ascetas, vez por outra, tomam coragem da pura indignação da injustiça histórica e se tornam Guerreiros das Sombras para mostrar ao mundo o que o verdadeiro Phlangcit é capaz — uma força de restauração, não de destruição.
Arte marcial criada para campanha de Street Fighter RPG — Ambientação Guerra Fria

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