Operação Lótus de Aço

 A Herança do Lótus e do Aço

Tóquio, Julho de 1989. O Calor Abafa, mas a Traição Esfria o Coração.


O verão japonês envolve Tóquio em um manto úmido e opressivo, um espelho perfeito do estado de alma de Amélie Boucher. Seis meses após o assassinato de Shintô Nagano, a dor não diminuiu; ela se transformou em uma sombra silenciosa e persistente. Seu amor por Shintô era um refúgio; sua morte, uma sentença. E sua culpa, uma algema que ela carrega voluntariamente.

Shintô não era apenas o amor da sua vida; era um visionário. Um Yakuza que sonhava em lavar a honra de sua família com trabalho honesto, herdando os negócios legítimos do pai – uma rede de bares discretos e, o mais importante, o prestigioso estábulo de sumô "Lótus de Aço". Era ali, no coração dessa tradição milenar, que as cinzas de Shintô descansavam, guardadas por lutadores fiéis. Era o último pedaço de alma dele na Terra.

Mas o legado de Shintô está definhando. Com a morte do patriarca Nagano, o clã se desintegrou, assimilado por famílias rivais como hienas sobre uma carcaça. A culpa que Amélie carrega – a crença de que seu amor o afastou de seu mundo e, indiretamente, o levou à morte – é um veneno que os remanescentes dos Nagano não hesitam em usar contra ela. Ela é gaijin (estrangeira), é mulher e, aos olhos de muitos, a yōkai (aparição) que assombrou e destruiu seu líder.

Sua missão agora é pessoal: salvar o "Lótus de Aço". Para isso, precisa convencer os últimos membros leais dos Nagano a se aliarem a famílias da Yamaguchi-gumi que são aliadas da Stargazer, como a promissora família Hanayama ou os confiáveis Takumi. Cada reunião é um campo minado de desprezo e desconfiança, forçando-a a usar agentes masculinos asiáticos como porta-vozes, uma humilhação tática que alimenta sua própria frustração.


A Armadilha da Serpente Dourada

御案内 (Go-Annai)Convite

拝啓 (Haikei)Com os Devidos Respeitos,

春の名残りに夏の気配が漂う頃、貴女様にはますますご清栄のこととお慶び申し上げます。

Haru no nagori ni natsu no kehai ga tadayou koro, anata-sama ni wa masumasu go-seiei no koto to o-yorokobi mōshiagemasu.

(Às vésperas do verão, quando o último suspiro da primavera ainda paira no ar, rogamos para que a senhora se encontre em crescente prosperidade e saúde.)

さて、この度は、亡き志遠殿と縁深き雪の女様に、私共より謹んでお願い申し上げる儀がございます。

Sate, kono tabi wa, naki Shintō-don to endukaki Yuki no Onna-sama ni, watakushidomo yori tsutsushinde o-negai mōshiageru gi ga gozaimasu.

(É assim que, desta vez, nós, com a mais profunda humildade, dirigimos um pedido à Senhora da Neve, cujos laços com o falecido Senhor Shintō eram tão profundos.)

長らく放置されておりました弊家の湯屋にて、穏やかで私的なお話をさせていただきたく存じます。

Nagaraku hōchi sarete orimashita heika no yukaya nite, odayaka de shiteki na o-hanashi o sasete itadakitaku zonjimasu.

(Desejamos, assim, conceder-lhe uma conversa tranquila e privada em nosso estabelecimento de banhos, que há muito permanecia fechado.)

何卒、お一人様でお越しくださいますよう。

Nanitozo, o-hitorisama de o-koshi kudasaimasu yō.

(Rogamos, com insistência, que tenha a gentileza de comparecer sozinha.)

湯治の儀に則り、身も心も軽やかにしていただければ幸いです。生まれたままの装いで、ざっくばらんに語り合えるひと時を。

Yuji no gi ni nottori, mi mo kokoro mo karoyaka ni shite itadakereba saiwai de gozaimasu. Umareta mama no yosōi de, zakkubaran ni katariaeru hitotoki o.

(Seguindo o ritual da cura pelas águas, seria nossa felicidade se pudesse vir com o corpo e o espírito leves. Para que possamos conversar com franqueza, vestindo apenas o traje com o qual se nasce.)

時節がら、ご多忙とは存じますが、ぜひこの雅やかな機会をお見逃しなく。

Jisetsu-gara, go-tabō to wa zonjimasu ga, zehi kono miyabiyakana kikai o o-minogashi naku.

(Reconhecemos que é uma época de muitos afazeres, mas por favor, não deixe escapar esta oportunidade refinada.)

敬具 (Keigu) Respeitosamente,


上 敬太郎 (Ue Keitaro)

上 丈太郎 (Ue Jōtarō)

O convite, portanto, é uma anomalia perigosa. Jotaro Ue e Keitaro Ue, os antigos e pacatos contadores dos Nagano, a convocam. Com a morte de Shintô, a ganância nasceu neles. Eles abandonaram a calculadora pela espada, contratando mercenários para suas "coletas" e consolidando um poder que nunca tiveram.

Eles a chamam pelo nome que só os mais íntimos conhecem: "Yuki no Onna" (A Mulher da Neve) – o apelido poético que Shintô lhe deu. O convite é para as termas particulares da família Ue, um lugar fechado, íntimo e perigosamente isolado.

"Venha sozinha." (Uma ordem que é um teste de coragem e uma isca para uma emboscada.)

"Será uma conversa agradável e privada." (A negação clássica do perigo iminente.)

"Venha com roupas leves, pois a conversa será usando as roupas de nascimento." (A humilhação final. É uma exigência que visa despojá-la de toda a sua armadura – literal e figurativamente. No contexto de um banho, ela estará sem suas armas, sem seus dispositivos, vulnerável e nua, enquanto eles, provavelmente, estarão trajando apenas toalhas, mas ainda no controle do ambiente.)

Eles não querem negociar. Querem provar que a famosa agente da Stargazer é apenas uma mulher, frágil e derrotada. Querem que ela, simbolicamente e talvez literalmente, se curve perante seu novo poder. 


Briefing de Inteligência: Operação Lótus de Aço

ALVO: Família Ue (Jotaro e Keitaro Ue).

LOCAL: Casa de Banho Termal Ue, interior de Tóquio.

MISSÃO: Assegurar a cooperação dos Ue com o legado Nagano e neutralizar a ameaça ao estábulo "Lótus de Aço".


1. Perfil dos Antagonistas: A Ambição e o Ressentimento


JOTARO UE: O PLAYBOY FINGINDO DE GANGSTER

Psicologia: Jotaro é o produto da riqueza sem caráter. Enriquecer como contador dos Nagano não foi o suficiente; ele quer o respeito e o medo que vêm com o título de Yakuza, sem entender o preço de sangue e honra que ele exige. Sua entrada no crime é uma fantasia de adolescente tardia, uma tentativa desesperada de se ver como um "homem perigoso".

Aparência e Simbolismo: Sua "tatuagem discreta" é a prova de sua farsa. Um verdadeiro Yakuza ostenta sua arte como um brasão de sofrimento e compromisso; Jotaro a esconde, temendo a verdadeira violência que ela deveria representar. Seu corpo malhado e seu treino de boxe de fim de semana são uma armadura cosmética, destinada a impressionar e intimidar outros amadores como ele.

Motivação na Armadilha: Para Jotaro, capturar ou humilhar a "Yuki no Onna" é o troféu supremo. É a sua cerimônia de iniciação, a prova que ele acredita que o legitimará perante os Ichiwakage-gumi. Ele é impulsivo, vaidoso e o elo mais fraco – aquele que pode ser provocado a cometer um erro.

UE KEITARO: O LUTADOR DECAÍDO

Psicologia: Keitaro é a antítese do filho: seu ressentimento é profundo, amadurecido por décadas. Ele conhece o sabor do suor e da dor no dohyō, e foi forçado a trocar essa glória física pela subserviência humilhante de um contador, curvando-se a homens que ele considerava inferiores. A queda dos Nagano é a sua chance final de conseguir o respeito que lhe foi negado, não como um lutador, mas como um patrão.

Aparência e Simbolismo: Seu corpo é um mapa de sua história: a força residual nos ombros e braços, contrastando com a fraqueza traiçoeira das pernas. Suas roupas caras e joias não são apenas ostentação; são uma compensação, um invólucro dourado para um homem que se sente mutilado. Seus exercícios de alongamento e respiração são um ritual nostálgico, uma tentativa de se conectar com o guerreiro que ele já foi.

Motivação na Armadilha: Keitaro não quer apenas um troféu; ele quer subjugar. Humilhar a amante de Shintô Nagano, um verdadeiro guerreiro, é uma forma perversa de se elevar. Ele acredita que pode usar as antigas tradições (o banho, a nudez) para forçá-la a uma posição de inferioridade, reencenando a dominação que ele tanto almeja. No entanto, sua perna ruim é seu calcanhar de Aquiles – um símbolo de sua vulnerabilidade física que uma guerreira como Amélie pode explorar.


2. DISPOSITIVO DE SEGURANÇA INIMIGO (NO LOCAL):

Efetivo: 16 guardas privados terceirizados.

Armamento: Leve e não-letal (devido às restrições japonesas). Bastões, tonfas, facas. Cobertura importante: Todos utilizam coletes balísticos.

Disposição:

10 guardas: Em rotina de coletas e proteção territorial (DISPERSOS e IRRELEVANTES para o evento).

6 guardas: Ativos na segurança perimetral da casa de banho durante a reunião.

Motivação dos Guardas: Puramente financeira. Sem lealdade. Um de seus elementos foi virado e agora atua como nosso informante interno, confirmando todos os dados acima.


3. NOSSOS RECURSOS E DISPOSIÇÃO:

Reconhecimento: Agentes Roland Inagi e Roland Goveia realizaram reconhecimento topográfico completo do local. Mapa detalhado em mãos.

Força de Entrada (Visível):

Agente Amélie Boucher: Principal.

Agente Roland Goveia: Atuará como meu Kage (Sombra) e porta-voz formal, contestando diretamente a autoridade dos Ue sob o pretexto da tradição (uma mulher não fala diretamente a um Oyabun). Sua presença perturbará seus planos de me isolar.

Cobertura de Precisão (Oculto):

Agente Roland Inagi: Posicionado em um ponto elevado com visão privilegiada da entrada e área das termas. Armado com rifle de precisão. É nosso trunfo definitivo e seguro de vida.

Força de Reação (Oculta/Próxima):

6 Veteranos da Guerra Ichiwa-Kai: Fornecidos por Kaoru Hanayama. Estacionados a 3 minutos do local, prontos para intervenção imediata. São guerreiros de elite, cuja presença aniquilará moralmente os guardas mercenários.


4. ANÁLISE DA ARMADILHA E OPÇÕES ESTRATÉGICAS:

O convite para as termas é uma armadilha psicológica clássica. Eles buscam:

Isolamento: "Venha sozinha".

Desarmamento: "Roupas de nascimento" (vulnerabilidade física e psicológica).

Humilhação: Estabelecer domínio em um ambiente onde se sentem no controle.

Diante disso, temos duas opções de abordagem:

OPÇÃO A (SUTILEZA / A JOGADA DELES):

Ação: Aceitar as regras. Entrar com roupas de banho, aparentando vulnerabilidade.

Vantagem: Permite controlar a escalada. Coloca os Ue em uma falsa sensação de segurança, fazendo-os revelar seus intentos e possíveis conexões com a Ichiwakage-gumi/Star Corp. É a opção que maximiza a coleta de inteligência.

Desvantagem: Risco pessoal elevado. Mesmo com a cobertura, estaremos em desvantagem tática inicial.


OPÇÃO B (CONFRONTO / A JOGADA NOSSA):

Ação: Romper o protocolo. Adentrar com roupa tática sob o kimono, ou se recusar a se despir. Goveia assume a frente, declarando a farsa desde o início.

Vantagem: Iniciativa e choque psicológico. Revoga imediatamente a vantagem deles. Mostra que temos total consciência e controle da situação, transformando sua armadilha em nosso palco. É a opção mais segura para neutralizar a ameaça física rapidamente.

Desvantagem: Pode encerrar prematuramente qualquer chance de diálogo e forçar um conflito aberto que, embora ganhável, queimará a ponte com os Ue permanentemente.


RECOMENDAÇÃO TÁTICA:

A Opção B é a mais viável. A inteligência já foi coletada. Eles não possuem informação de valor que justifique o risco extremo da Opção A. A presença de Goveia, a mira de Inagi e a força Hanayama nas proximidades nos dão o poder de ditar os termos.

Devemos entrar, expor seu jogo infantil, e apresentar a única opção racional para eles: cooperar com os Hanayama e sair ilesos. A mensagem será clara: "Não estamos aqui para jogar. Estamos aqui para dar ordens. A era de vocês como 'aspirantes a Yakuza' termina antes mesmo de começar."

OBJETIVO FINAL: Forçar a assinatura de um acordo de transferência de administração do estábulo "Lótus de Aço" para a família Hanayama, com os Ue mantendo uma posição honorária e financeira, porém sem poder decisório ou de segurança. Isso preserva seu rosto, mas desarma sua ameaça, honrando o legado de Shintô.

TÓQUIO — ESTÁBULO DE SUMÔ DOS NAGANO

2000 horas — 18 DE JULHO DE 1989

O sol se punha como uma brasa moribunda atrás das cortinas de papel de arroz. Os tambores do verão ecoavam ao longe, um coração pesado batendo contra o zumbido dos insetos. Dentro do antigo estábulo de sumô, o tempo não passava; suspenso no cheiro de madeira encerada, suor sagrado e incenso.

Ao centro, um pequeno altar de pedra guardava a urna de Shintô Nagano. Discreta. Sóbria. Honrada por flores frescas e três folhas de ginkgo. Diante dela, ajoelhada na terra batida do dohyō, Amélie Boucher.

Vestia o terno cinza de detetive europeu, a camisa branca com punhos abertos, a gravata pendendo solta. Seus sapatos jaziam ao lado do altar. Pés descalços no solo sagrado. Ela não pronunciava uma palavra, mas seus olhos já travavam o combate final.

Roland Inagi e Ryan Govea esperavam em silêncio. Respeitavam o que testemunhavam. Sabiam que a mulher à sua frente não era apenas chefe ou guerreira.

Eles haviam lutado ao lado de Nagano. Foram salvos por ele. Ouviam o eco de sua risada no campo de batalha e de sua fúria silenciosa. Govea aceitara o romance com rapidez, atônito no início, mas logo compreendendo que até assassinas de elite merecem amor. Inagi, um franco-japonês de honra severa, hesitara ao ver sua comandante unir-se a um yakuza. Mas testemunhar a verdade crua daquele amor — e a integridade de Shintô em combate — calou o protocolo em seu coração. Ele passara a respeitar aquele laço não como exceção, mas como destino.

Ela era a viúva de um homem que nenhum deles verdadeiramente conhecera — e cuja ausência preenchia o estábulo como um fantasma tangível.

Ela se ergueu. Devagar. Tirou a gravata. Depois, com gestos coreografados pela dor, despiu o paletó, dobrando-o com precisão militar sobre uma cadeira baixa. Em seguida, a camisa — ombros nus revelando a cartografia de suas guerras, músculos de aço forjados no inferno e na glória. Por fim as calças e roupas íntimas, revelando suas pernas poderosas marcadas por dezenas de batalhas. Ela não se escondia. Seu corpo era sua armadura, sua oferenda, seu campo de batalha.

— Nagano-san — sussurrou em japonês puro. — Hoje visto o que me ensinaste. Com o corpo que tu tocaste. Com a alma que tu devolveste ao mundo.

Então, suas mãos encontraram o fundoshi. Algodão preto, luto e guerra.

Ela o desdobrou com as mãos estendidas, uma sacerdotisa abrindo os braços para a tempestade. Cada dobra, um ato de reverência. Um agachamento lento, pés firmes na terra, quadris baixos, exatamente como Shintô a ensinara. As palmas se uniram num gesto de respeito. Uma prece em japonês arcaico — mantra ou lamento — escapou de seus lábios.

Com movimentos calculados, passou o tecido entre as pernas, puxando-o com firmeza, enrolando-o na cintura. O fundoshi moldou-se a seu corpo como se reconhecesse seu legítimo lugar.

Era íntimo. Solene. E, para os dois homens que observavam, inevitavelmente sensual.

Mas nenhum dos dois ousou desviar o olhar. Não por desejo.

Por respeito.


Depois, suas mãos se fecharam sobre o sarashi negro. Não era gaze simples — era kevlar costurado em seda, uma criação única, um presente de si para si. O sarashi da guerra. Ela o enfaixou em torno dos seios, depois abaixo do umbigo, comprimindo o abdômen como o couro de um tambor de guerra.

O peito, coberto, mas ainda assim exposto em sua forma crua.

E só então, o yukata. Azul celeste, invernal, estampado com padrões de prata e branco. Leve, quase translúcido no calor do verão, e ainda assim imbuído de dignidade. Presente de Shintô, um yukata para os entardeceres íntimos, quando os corpos já haviam suado juntos e todas as palavras desnecessárias haviam morrido.

Ela o vestiu lentamente, como quem veste a pele de um deus.

O cabelo firmemente preso, o rosto empoado como uma máscara de Noh.

Nos olhos, a dor e a fúria haviam se fundido em uma única entidade.

— Shintô — sua voz cortou o ar, limpa como uma lâmina saindo da bainha. — Hoje luto por ti. Não como viúva. Como igual.

Ela bateu palmas duas vezes — uma chamada aos mortos.

Um terceiro toque.

Convocação aos vivos.

Govea limpou a garganta.

— Chefe, isso foi...

— Silêncio, Ryan — cortou Inagi, sua voz um filete de água gelada. — Ela entrou no ritual. É perigoso interromper.

Govea aquiesceu, engolindo o resto das palavras.

Ela se virou. Os pés descalços tocavam o chão como sinos mudos.

Era Amélie Boucher. Mas era também Nagano no Amélie, a Guardiã do Estábulo.

A que chorara sozinha e aprendera a dobrar o pano dos guerreiros.

A que conhecia o poder da nudez e o peso do silêncio.

— Shintô me ensinou que os mortos não partem — declarou, sua voz firme e sombria. — Eles se tornam o tecido que vestimos para a guerra.

Ela bateu palmas duas vezes.

Govea sentiu um calafrio ancestral percorrer sua espinha.

Inagi inclinou a cabeça, um gesto breve e profundo.

Ali não estava a espiã, nem a amante, nem a viúva.

Ali estava o símbolo. A encarnação de uma promessa.

Um terceiro toque.

O começo.

— Vamos aos Ue — ela ordenou, ajustando a gola do yukata, o olhar carregado do peso de dois mundos. — Pediram submissão. Receberão terror. Exigiram uma mulher. Enfrentarão a guerra.

A Descida da Yuki no Onna

Propriedade da Fonte Termal, Interior de Tóquio – 18 de Julho de 1989, 2200 horas.

A fonte termal particular estava aninhada num recesso de pedra escura e úmida, aberta aos elementos, mas envolta por um véu de névoa perpétua. O vapor subia lentamente para o luar como fantasmas sem outro lugar para assombrar. O bambu sussurrava suavemente na brisa da montanha. Acima, o céu derramava uma luz fria e prateada que tremeluzia sobre a água negra e a rocha molhada. Cada superfície brilhava, silenciosa e enganosa como vidro.

Uma escada de pedra estreita descia em direção à fonte. No topo, Amélie Boucher fez uma pausa.

Ela vestia um yukata curto, quase translúcido, a barra mal roçando a metade de suas coxas, a seda fina colada ao corpo pela umidade do ar noturno. O tecido era adornado com elegantes motivos de yuki-onna — mulheres da neve renderizadas em fios de seda brancos e azul-gelo. Por baixo, um sarashi negro envolvia seu peito com uma elegância tática e justa, enquanto um fundoshi de kevlar negro envolvia seus quadris com uma modéstia enganosa.

Sua pele, levemente umedecida pelo vapor, brilhava como fogo pálido. Sua maquiagem a transformara: lábios azul-gelo, olhos emoldurados em camadas de branco, rosa e azul, afiados como uma flor mordida pela geada. Seu cabelo loiro estava preso em um coque de guerra apertado — o estilo que seus aliados conheciam bem, mas seus inimigos nunca haviam visto.

Boucher desceu com uma graça deliberada, um passo descalço de cada vez. Ela deixou os quadris balançarem, num movimento deliberadamente sedutor, a barra do yukata esvoaçando a cada passo, insinuando mais do que revelando.

Atrás dela, Goveia a seguia em silêncio total. Vestia um blazer negro sob medida, uma regata justa e de gola alta que expunha seu peito escultural, e calças de combate folgadas enfiadas em botas de couro marrom resistente. Nada de armadura, nada de truques óbvios. Apenas um bastão de kali, oculto às claras nas suas costas.

Na base da escada, dois guardas. Um deles — o homem que Amélie comprara — avançou para revistá-los. Suas mãos hesitaram ao roçar as dobras do fundoshi. Ele sabia o que estava escondido ali — La Proie de la Louve, o karambit curvo — mas fingiu não notar.

O segundo guarda franziu a testa.

“Era para você vir sozinha”, ele rosnou.

Amélie se virou para ele, curvando-se levemente com uma elegância temperada de puro desdém.

“E é costume yakuza que uma mulher tenha um homem para falar por ela.”

Ela sorriu friamente.

“Seus mestres são yakuza, não são?”

O guarda emitiu um grunhido gutural. A verdade, por mais distorcida, pareceu satisfazê-lo.

Foram liberados.

O piso de madeira rangeu sob seus pés enquanto atravessavam a casa de banho. Suas lanternas fracas projetavam sombras longas e dançantes nas paredes de papel corrediças. O ar dentro era pesado com fumaça de sândalo, que quase — mas não completamente — mascarava o cheiro de suor, decadência e a podridão antiga de sangue derramado em outros cômodos. Mais dois guardas observavam em silêncio de dentro, os olhos afiados por trás da fumaça como os de predadores à espera.

Descendo a escada de pedra final, a fonte termal natural se abriu diante deles, afundada na rocha como uma cratera beijada por um deus esquecido. Poças de água quente brilhavam com um fulgor fantasmagórico, seus reflexos estremecendo na névoa. A neve persistia nas bordas das rochas, onde o calor do mundo inferior não conseguia alcançar.

E lá estavam eles.

Ue Keitaro, seu volume imenso relaxado no centro da piscina fumegante, seu torso poderoso erguendo-se das águas como um templo arruinado. Sua barba branca e rala estava bem aparada, o topo do escalpo careca, seus olhos alertas apesar do sorriso paternalista. Anéis de ouro cintilavam em seus dedos grossos. As cicatrizes pálidas em seu peito sugeriam uma violência outrora grande, agora embotada pelo tempo e pela traição.

Ao seu lado, em pé com a água pelos joelhos, Jotaro Ue — nu, bronzeado e inchado por meios artificiais. Seus músculos foram talhados nas academias de Tóquio, sua postura aperfeiçoada em ringues de boxe. Seu sorriso era arrogante, do tipo usado por homens que nunca sangraram de verdade.

Na margem da piscina, mais dois guardas. Totalizando seis, sem contar o traidor.

Keitaro ergueu os braços numa saudação zombeteira.

“Ah! A famosa Yuki no Onna. Um verdadeiro espetáculo para estes velhos olhos!”

Jotaro esnobou, sua voz ecoando de forma estridente contra a pedra.

“Você devia ter vindo sozinha, vadia!”

A última palavra ecoou em sua garganta, muito aguda, muito alta — o grito de um menino tentando imitar um homem.

Amélie aproximou-se da borda da piscina.

Ela se curvou profundamente, seu yukata abrindo-se o suficiente para revelar o envoltório tenso do sarashi e a curva pesada de seus seios contidos por baixo.

“Peço desculpas, Ue-sama”, disse ela com uma voz aveludada, quase um purr.

“Mas a tradição proíbe uma mulher de falar diretamente com um yakuza. Um homem deve falar por ela.”

Ela gesticulou levemente em direção a Goveia, cujos olhos estavam fixos nos guardas, a mão agora repousando na cintura, de onde seu bastão de kali seria desembainhado num piscar de olhos.

Keitaro riu baixinho, um som úmido e satisfeito.

“Desculpas aceitas. E perdoe meu filho. Ele tem um... temperamento de guerreiro.”

A expressão de Amélie não se alterou em um único músculo.

“Eu sei o que é o temperamento de um guerreiro.”

Jotaro franziu o rosto, seu ego ferido pela desculpa condescendente do pai. Sua voz cortou o vapor:

“Se mulheres não podem falar com yakuza, então por que caralhos você ainda está falando?”

Amélie erqueu-se. Lentamente. Deliberadamente.

Seus dedos encontraram o laço em sua cintura.

“Boa pergunta”, ela disse, e sua voz já não tinha mais doçura alguma.


E então — ela deixou o yukata cair.

A seda deslizou de seu corpo como gelo derretendo do aço, caindo em silêncio absoluto sobre as rochas a seus pés.

Todos os olhos — cada um, exceto os de Goveia — voltaram-se para seu corpo. Musculoso. Sensual. Blindado de negro.

O fundoshi moldou-se aos seus quadris como uma faixa de couro de guerreira, o sarashi envolvia seu peito como uma couraça ritualística. Sua pele fumegava no contraste com o ar frio, sua maquiagem reluzia como uma lâmina coberta de geada sob o luar.

Ninguém viu quando ela puxou La Proie de la Louve das dobras de seu fundoshi.

Mas todos ouviram sua voz quando ela falou, cada palavra uma estocada de gelo:

“Vocês não são Yakuza.”


O silêncio gelado que se seguiu às palavras de Amélie foi mais cortante que qualquer lâmina. Durou menos de um segundo, mas foi tempo suficiente para que o medo germinasse nos corações dos homens que a encaravam.

Jotaro Ue foi o primeiro a quebrar. O pânico, visceral e incontido, subiu de suas entranhas e explodiu em um berro estridente—um grito de fera acuada, destinado a intimidar, mas que soou como o puro desespero que era. "ARRGH!"

Mas o som mal havia deixado sua garganta quando Amélie se moveu.

Ela não correu; ela deslizou. Seus pés descalços tocaram a superfície da água quente como se fosse uma fina camada de gelo, seu corpo uma sombra pálida e etérea que se projetou para a frente. A água nem pareceu perturbá-la, um paradoxo de leveza sobrenatural. Era a Golpe Duplo de Punho Invertido, um movimento que consumia sua força de vontade e a transformava em puro ímpeto assassino.

Jotaro, com os instintos embotados de um playboy, ergueu os braços em uma defesa patética. Bloquear uma lâmina com carne e osso é a cartada de um tolo. O karambit, La Proie de la Louve, cantou um sibilo úmido no ar úmido.

Shick.

Uma linha vermelha e precisa abriu-se em seu peito, um risco grotesco sobre sua tatuagem de novato. O choque chegou antes da dor—seus olhos arregalaram-se de horror ao ver o próprio sangue jorrar. Antes que um gemido pudesse escapar, Amélie já havia completado o movimento, um redemoinho de morte graciosa. A lâmina reluziu de novo, desta vez riscando sua testa num jato carmesim.

O grito de Jotaro transformou-se em um uivo de agonia. Suas mãos voaram—uma para o peito, tentando conter a vida que escapava, a outra para o rosto, onde o sangue jorrado dos cortes na testa já começava a cegá-lo. Ele cambaleou, atordoado, não apenas pela dor, mas pelo impacto brutal da realidade: ele não era um guerreiro. Era um menino sangrando na água.

Enquanto a cena de horror se desenrolava, Ryan Goveia não perdeu um milésimo de segundo. Um sussurro quase inaudível, uma respiração profunda, e o chi fluiu em suas veias. Seus músculos se encheram de um poder súbito, uma centelha de energia vital que afiou seus reflexos e fortaleceu seu corpo. Sua postura, já alerta, tornou-se a de um predador pronto para explodir.

Os guardas, recuperando a compostura, finalmente puxaram seus bastões. O ruído metálico das armas sendo desembainhadas ecoou na caverna. Mas sua ação já era uma reação tardia.

De longe, das rochas escuras acima da fonte, veio o CRACK seco e autoritário de um rifle de precisão. Roland Inagi, o olho invisível da equipe, havia falado.

O guarda que tentava armar-se teve seu movimento abortado num espasmo. Ele se jogou para o lado, um reflexo inútil. O projétil de alto calibre não errou, atingindo-o com força esmagadora no ombro. A força do impacto arremessou-o para longe, como um boneco de pano. Ele caiu pesadamente no chão de pedra, o bastão rolando de sua mão inerte, atordoado e fora de combate antes mesmo de entender o que havia acontecido.

Ue Keitaro, o velho lutador, viu o sonho de poder desmoronar em segundos. Seu filho, sangrando e gritando; seu guarda, abatido por um atirador fantasma. O terror lavrou sua alma, e por um instante, a sombra da dúvida apagou décadas de orgulho. Suas pernas, seu calcanhar de Aquiles, pareciam de chumbo. Em vez de avançar para o combate, ele se virou, desesperado, e começou a se arrastar pela água em direção a uma pilha de toalhas—onde sua velha e confiável revólver SW Modelo 25 estava escondida.

Ele não conseguiria alcançá-la a tempo. O primeiro turno do combate havia terminado.

E o espetáculo de terror da Yuki no Onna mal havia começado.

O eco do tiro de Inagi ainda reverberava nas rochas, um aviso gelado que congelou a coragem dos homens restantes.

Os guardas 3, 4, 5 e Enkai, o traidor, ouviram o som da morte e entenderam a mensagem. A bravata inicial evaporou, substituída pelo instinto de sobrevivência.

"Eles não nos pagam o suficiente para levar tiro!", sussurrou Enkai, sua voz um fio de tensão contida. Os outros concordaram com um olhar silencioso. Em vez de uma carga suicida, desembainharam seus bastões de madeira – armas para intimidação, não para guerra – e começaram a avançar com cautela, seus corpos tensos, cada passo uma hesitação calculada. A lei e o medo os impediam de se jogarem de cabeça naquele moedor de carne.

Enquanto isso, Ue Keitaro, com a respiração ofegante, finalmente fechou os dedos sobre o cabo áspero de seu revólver SW Modelo 25. Um lampejo de esperança triunfal brilhou em seus olhos. Ele começou a se virar, o cano pesado se erguendo lentamente...

Mas a Yuki no Onna já estava sobre ele.

Ela não deu chance. Como um espectro que se materializa a partir do vapor, Amélie fechou a distância. O mesmo movimento que desgraçara seu filho foi executado novamente, uma coreografia de Savate aperfeiçoada pela frieza da SDECE e adaptada para a lâmina. Seu corpo girou, um redemoinho de morte fluido.

Shick!

A lâmina do karambit cortou as costas do velho lutador, rasgando o tecido quimono e a pele embaixo. Keitaro rugiu de dor e surpresa, seu braço armado instintivamente se erguendo para se proteger. Shick! Outro golpe, desta vez no antebraço, um corte profundo que fez seus dedos tremerem e perderem a mira. A arma quase escapou de sua mão. A pele curtida de seu corpo de ex-lutador de sumô o salvou de um ferimento incapacitante, mas não da dor aguda ou da humilhação de ser cortado como um novato.

Do outro lado da terma, Ryan Goveia, ainda imbuído pelo fluxo de chi que amplificava sua destreza e força, ignorou a cena principal. Seus olhos estavam fixos nos guardas que se aproximavam. Ele começou a se mover de forma estranha, quase ritualística. Seus passos ficaram deliberadamente mais lentos, seus movimentos, amplos e controlados, pareciam desprezar a urgência do combate. Era o início do Tari Juru, um kata vivo. Ele gastou um foco imenso de vontade, não para atacar, mas para preparar. Cada bloqueio imaginário, cada golpe ensaiado no ar, era a montagem de uma combinação devastadora que ele desencadearia em breve. Ele estava construindo sua própria tempestade.

Foi então que o Guarda 2, aquele que não estava atordoado, viu em Goveia um alvo aparentemente vulnerável. Com um grito, ele investiu contra o agente, seu bastão de madeira erguido para um golpe vertical.

Mas ele subestimou o olho na rocha.

Outro CRACK cortou o ar. Inagi falara novamente. O Guarda 2, alertado pelo som ou por puro instinto, jogou-se para o lado com um grunhido de esforço. A bala assobiou a centímetros de seu corpo, estilhaçando a superfície da água onde ele estivera um instante antes. Ele havia evitado por um triz ser abatido, mas o preço foi seu ataque. Ele caiu de rolo no chão, ofegante e desorientado, sua investida reduzida a uma mera luta pela sobrevivência.

O Turno 2 terminou sem um único golpe decisivo trocado no corpo-a-corpo principal, mas o campo de batalha estava definido. Amélie mantinha Keitaro sob pressão mortal, Goveia tecia sua teia de artes marciais e Inagi, invisível, ditava o ritmo do medo from afar. A armadilha dos Ue havia se transformado em sua própria cela.


O ritmo coreografado de Ryan Goveia quebrou subitamente em um explosivo solo de violência. Seu Tari Juru encontrou seu alvo. Seu corpo, que antes se movia com uma lentidão deliberada, tornou-se um furacão. Dois chutes foram desferidos em rápida sucessão: o primeiro, baixo e devastador, mirou a canela do Guarda 2; o segundo, ascendente como uma cobra, visou o plexo solar.

O guarda, ainda ofegante por ter escapado do tiro de Inagi, viu a abertura. Ignorando a dor latejante no ombro, ele investiu com seu bastão num golpe cruzado, aimed diretamente às costelas de Goveia. Era um ataque desesperado, mas potencialmente fatal.

No entanto, o som que ele ouviu não foi o de costelas quebrando, mas o CRACK seco e familiar do rifle de precisão. Desta vez, não houve tempo para se esquivar. Uma dor dilacerante, como se um ferro em brasa lhe tivesse perfurado a coxa, fez com que seus membros simplesmente falhassem. Seu golpe cruzado não passou de um balanço inútil no ar.

Ele mal teve tempo de gritar quando os dois chutes de Goveia o encontraram. O primeiro na perna já ferida, quebrando seu equilíbrio de vez. O segundo, no centro de seu torso, arrancando-lhe o ar dos pulmões com um whoosh audível. Ele caiu como um saco de ossos na água, inconsciente antes de afundar. Guarda 2, fora de combate.

Mais adiante, o Guarda 1, aquele que havia sido a primeira vítima de Inagi, agarrou seu bastão de madeira do chão com uma mão trêmula. Seu uniforme estava encharcado de suor e sangue, uma mistura de medo e determinação estampada em seu rosto pálido. Era uma bravata tola, mas ele estava decidido a não falhar.

Jotaro Ue, por sua vez, finalmente sacudiu a estupor ensanguentada que o dominava. A visão de seu pai idoso, sangrando e encurralado, superou seu próprio pavor. Com um berro rouco que era mais histeria do que fúria, ele se lançou contra Amélie num ataque primitivo e desengonçado — um "soco de macaco". Todo seu treino de boxe de fim de semana foi esquecido, substituído pelo instinto cego de um animal acuado.

Amélie Boucher nem mesmo o dignificou com um olhar mais atento. Com uma elegância desdenhosa, ela simplesmente desviou do ataque desequilibrado, como uma névoa que se move para evitar um obstáculo sólido. Seu foco era a presa maior.

Ela usou o momentum do desvio para girar mais uma vez, seu corpo uma roda de lâminas e força concentrada. Desta vez, o karambit não atacou. Em vez disso, ela lançou um chute reverso giratório devastador, uma técnica de Savate capaz de rachar tábuas, aimed diretamente à cabeça de Keitaro.

O velho lutador, porém, ainda tinha a experiência de suas batalhas no dohyō. Mais rápido do que se podia esperar de um homem ferido, ele apontou o revólver e puxou o gatilho.

O estampido foi ensurdecedor no espaço confinado.

Mas Amélie já estava em movimento. No instante exato em que o cano cuspia fogo, ela mergulhou, desaparecendo sob a superfície fumegante da água termal. A bala, ao encontrar a resistência densa da água, perdeu instantaneamente sua letalidade, sibilando de forma inofensiva a centímetros de seu corpo submerso.

Enquanto isso, os Guardas 3 e 4, seguindo a estratégia cautelosa de Enkai, finalmente alcançaram as escadas que levavam ao onsen propriamente dito. Eles testemunharam a cena de puro caos: Jotaro atacando o ar, Keitaro atirando contra sombras, e Goveia, agora liberto de seu oponente, se virando para encarar a nova leva de ameaças.

O combate entrou em um breve e tenso interlúdio tático. Lá nas alturas, Roland Inagi, impávido, ajustou a respiração e a mira de seu fuzil. Ele ignorou os alvos imediatos, sabendo que a verdadeira ameaça eram os reforços. Seu turno foi consumido na calma antes da tempestade, seus olhos calculando trajetórias, trocando a ação imediata pelo domínio absoluto do campo de batalha que viria a seguir.

No coração do conflito, o Guarda 1, ainda tremendo mas impulsionado por um dever distorcido, avançou contra Goveia num golpe de bastão em investida. Era um ataque desesperado, uma tentativa de redimir sua falha anterior.

Mas Ryan Goveia já havia terminado sua coreografia silenciosa. O Tari Juru estava completo. O poder acumulado em seus membros precisava de uma válvula de escape. Ele não recuou. Em vez disso, encarou a investida e lançou um soco overhead devastador. Seu corpo todo torceu, das pernas enraizadas ao ombro, canalizando uma força brutal em um movimento descendente que prometia esmagar ossos.

O som do ar sibilando ao redor de seu punho foi o suficiente. O Guarda 1, seus instintos de sobrevivência finalmente superando sua bravata tola, abortou o ataque no último milésimo de segundo. Ele deu um salto para trás, os olhos arregalados de puro terror. O cálculo era simples e cruel: não valia a pena o intercâmbio de golpes. Ele recuou, deixando Goveia com a vitória moral e territorial.

Foi nesse momento que os Guardas 3 e 4 pisaram finalmente na área principal da fonte termal. A cena que se apresentou a eles foi um pesadelo em vapor e sangue.

Ue Keitaro, enlouquecido pela dor e pela impotência, disparou sua SW Modelo 25 duas vezes contra a água turva e agitada onde Amélie havia submergido. Dois jatos de água explodiram à superfície, inócuos. Ele atirava contra um fantasma, suas balas perdendo toda a força na resistência líquida.

Jotaro, encolhido em uma postura defensiva medrosa, tentava em vão se lembrar dos fundamentos do boxe, seus olhos vidrados de pânico.

E então, ela emergiu.

A água escorreu de seu corpo como um manto líquido sendo descartado. Amélie Boucher ergueu-se das profundezas escuras como Toyotama-hime, a deusa dragão do mar, surgindo da espuma não para conceder bênçãos, mas para exigir tributo em sangue. Seus músculos palpitavam, sua pele reluzia sob a luz fraca, uma visão ao mesmo tempo terrível e magnificente.

Sem um som, ela lançou um chute frontal poderoso, direto no esterno já ferido de Keitaro. O ar escapou de seus pulmões com um baque surdo. Ele cambaleou para trás, a dor irradiando por todo seu torso maciço.

Mas ela não havia terminado.

O momentum do primeiro chute foi canalizado em um redemoinho mortal. Seu corpo girou no ar, uma bailarina da morte, e o chute reverso giratório que antes havia sido evitado, agora encontrou seu marco. O calcanhar de Amélie conectou-se com o queixo de Keitaro com um CRUNCH ossudo e horrivelmente nítido.

A mandíbula do velho lutador torceu-se em um ângulo antinatural. Um uivo abafado e bestial escapou de sua garganta antes que seu corpo maciço fosse arremessado para trás, como um boneco desengonçado. Seu amplo frame atingiu a água com um SPLASH monumental, erguendo uma cortina de água e vapor que tingiu o ar de um cheiro metálico de sangue e derrota.

O equilíbrio do poder desabou como um castelo de cartas. O espetáculo de horror havia quebrado a já frágil disciplina dos últimos guardas.

Enquanto os Guardas 3 e 4 desciam os degraus finais, o som da redenção veio do alto. O CRACK do rifle de Inagi ecoou mais uma vez. Desta vez, porém, a sorte não estava totalmente com o atirador. A bala não encontrou carne e osso de forma limpa, apenas arrancou um sulco sangrento no braço do Guarda 4. Foi o suficiente para fazê-lo gritar de dor e susto, um ferimento incômodo e sangrento que o fez vacilar, mas não foi o golpe incapacitante que se esperava.

O Guarda 1, vendo Goveia momentaneamente distraído, viu uma última chance. Com um grito rouco, ergueu seu bastão para um golpe vertical desesperado. Era o erro final de sua carreira.

Ryan Goveia não estava mais se preparando. O Tari Juru estava completo, e a tempestade foi liberada. Seu corpo reagiu com a precisão de um mecanismo de relojoaria. O mesmo chute duplo que derrubara seu predecessor foi desferido. O primeiro movimento, um golpe baixo e fulminante, quebrou a guarda do homem. O segundo, um chute ascendente e devastador, conectou-se com plena força sob seu queixo.

O impacto foi seco e decisivo. O som de dentes se estilhaçando foi abafado pelo grunhido de agonia do guarda. Seus joelhos bateram na pedra molhada com um baque surdo, seu corpo um peso morto de dor. Ele não tentou mais lutar. A mão que segurava o bastão se abriu, e a arma caiu na água. Ele ergueu as mãos vazias, um murmúrio de "Por favor... misericórdia..." escapando de seus lábios sangrentos.

Goveia olhou para o homem ajoelhado, derrotado. O segundo chute, que poderia ter sido fatal, foi contido. Ele acenou com a cabeça, uma concessão rápida e silenciosa. A missão não era um massacre.

Mas o verdadeiro espetáculo da noite estava do outro lado da fonte.

Amélie Boucher virou-se para Jotaro Ue. Seu olhar não carregava ódio, mas um desdém cortante, tão afiado quanto sua lâmina. Ele tremia incontrolavelmente, a mente lutando para processar a realidade de uma mulher que lutava como um demônio. "Como uma mulher pode lutar assim? É impossível!", seu cérebro gritava, negando a evidência diante de seus olhos.

Vendo sua postura desengonçada, Amélie falou, sua voz um sibilo gelado que cortou o vapor: "Boxe, huh? Se é de boxe que você quer, é de boxe que vai ter."

A frase, carregada de sarcasmo, paradoxalmente inflou um resto de confiança em Jotaro. Era sua linguagem! Seu domínio! Ele lembrou-se do movimento que praticara incontáveis vezes diante do espelho, o golpe de assinatura de seu ídolo: o uppercut quebra-guarda de Mike Tyson. Ele se agachou, a cabeça baixa, imitando o estilo de luta corpo-a-corpo do lendário pugilista, e avançou.

Foi como uma criança tentando desarmar um atirador de elite com uma funda.

Amélie não recuou. Seu braço disparou como uma cobra. Mas seu punho não estava fechado. Sua mão estava dobrada na formação de uma Pata de Lobo, os ossos superiores de seus dedos formando uma ponta sólida e devastadora. O movimento foi tão rápido que foi quase invisível.

CRACK.

O som da cartilagem nasal de Jotaro se esfacelando foi horrivelmente alto. A "Pata de Lobo" atingiu o sélio nasal (o ponto entre os olhos) com força cirúrgica. Sua investida desintegrou-se instantaneamente. Jatos de sangue escuro jorraram de suas narinas, pintando a água de vermelho. Seus olhos reviraram, e ele caiu para frente na água termal, seu corpo imóvel flutuando levemente, a consciência apagada pela dor e pelo choque cerebral.

Um grito dilacerante rasgou o ar. "NÃO!"

Era Keitaro. O velho lutador, ainda atordoado, com a mandíbula desalinhada e o corpo uma massa de dor, vasculhara as águas em busca de sua arma em vão. Ao ver seu único filho, seu herdeiro, ser nocauteado com tanto desprezo, algo dentro dele se partiu. A vergonha, a raiva e o orgulho ferido de décadas coalesceram em um único, último e feroz impulso.

Ele cuspiu água e sangue, erguendo-se com uma dificuldade imensa. O olhar de desespero transformou-se em uma determinação primitiva. Ele inspirou fundo, enchendo seus pulmões, e seu corpo, outrora poderoso, pareceu recuperar um vislumbre de sua antiga glória.

A era das armas de fogo e dos contadores gananciosos havia terminado para ele. Era a hora de mostrar a esta bruxa do inverno o verdadeiro poder do Sumô.

O cenário havia se degradado em um caos absoluto. O ar, outrora pesado de incenso, estava agora impregnado do cheiro de pólvora, sangue e medo.

Dois dos guardas restantes, os números 3 e 4, finalmente alcançaram Goveia, brandindo seus bastões com uma coragem nascida do desespero. Eles atacaram em uníssono, mas seus movimentos eram de homens já mentalmente derrotados – golpes amplos e previsíveis. Goveia, com uma calma desconcertante, não precisou sequer bloquear; um passo lateral elegante foi suficiente para esquivar-se dos ataques desengonçados. Enquanto isso, outro CRACK ecoou das rochas. A mira de Inagi encontrou novamente o Guarda 4, mas a sorte continuava a sorrir para o malfadado homem; o projétil foi outro golpe de raspão, uma queimadura furiosa no ombro que o fez gritar, mas não o derrubou. Era como se o próprio destino se recusasse a dar um fim rápido à sua agonia.

Ignorando o fracasso do atirador, Goveia fechou os olhos por uma fração de segundo. Seu corpo, já uma arma, sintonizou-se mais uma vez com a fonte interior. O chi fluiu novamente, um surto renovado de poder que afiou seus sentidos e fortaleceu seus músculos. Ele estava se preparando para acabar com aquilo.

Enquanto isso, o Guarda 1, aquele que havia suplicado por misericórdia, arrastava-se para longe do conflito, seus gemidos um som de fundo patético. Seu combate havia terminado.

Na escadaria, a discórdia reinava. Guarda 5 e Enkai, o traidor, testemunharam o último ataque de Inagi.

"Muitos tiros! Acho que é mais de um atirador!", disse Enkai, plantando a semente do pânico com a maestria de um homem que sabia exatamente o que estava fazendo.

"Eu tenho filhos, cara...", sussurrou o Guarda 5, sua voz trêmula.

"Covarde!", rosnou outro, mas a bravata soou oca. Enkai podia sentir a hesitação do coleaga, a vontade de desistir pairando no ar como um vapor tóxico.

Mas o palco principal, as águas sagradas do onsen, pertencia a apenas dois.

Amélie Boucher e Ue Keitaro se encaravam através da névoa carmesim. O olhar dela era de soberano desprezo, o dele, de ódio primordial.

"Votre tas de fumier", cuspiu ela, sua voz feminina carregada de uma fúria gelada que cortava mais que qualquer vento do norte. "Eu vim aqui jurando que sangraria vocês, traidores, como porcos. E eu pretendo cumprir esta promessa."

Keitaro, com a mandíbula desalinhada e o rosto uma máscara de sangue e dor, cuspiu um arroto de riso amargo. "Fale o que quiser. Vou matá-la pelo que fez com meu filho."

Não havia mais palavras. A resolução de um homem que nada mais tem a perder é uma força terrível. Keitaro inspirou fundo, e o fantasma do lutador de sumô que um dia fora tomou conta de seu corpo dilacerado. Ele baixou a cabeça e carregou. Era o Tachiai, o impacto inicial do sumô, uma investida de touro destinada a esmagar, quebrar, expulsar. A água jorrou em sua esteira, sua massa um projétil de pura força bruta.

Amélie não recuou. Em vez disso, ela fincou uma finta de chute, um movimento rápido e enganoso. Keitaro, seus reflexos embotados pela dor, instintivamente se contraiu, preparando o torso para um impacto que nunca viria.


Foi sua sentença.

Explorando a abertura, Amélie pulou. Não foi um salto comum; foi um voo horizontal e poderoso. Seu punho, carregado de todo o ódio pelo legado profanado de Shintô e pelo luto que a consumia, desceu como um martelo dos céus. Um superhero punch devastador que conectou com a nuca exposta do velho lutador.

CRUMP.

O som foi abafado, profundo. A consciência de Keitaro Ue apagou-se instantaneamente, como uma vela soprada por um vendaval. Seu corpo, ainda carregado pelo momentum cego de seu ataque, continuou para a frente por inércia. Seu braço inerte atingiu o estômago de Amélie com o peso de um saco de areia, empurrando-a para trás sem causar dano, um último e inútil testemunho de seu poder outrora formidável.

E então, silêncio.

O corpo massivo de Keitaro tombou de lado na água, gerando uma última e grande onda que lavou sobre o rosto inconsciente de seu filho. A linhagem Ue, em sua arrogante ambição, jazia derrotada nas águas termais que haviam sido planejadas para ser o local de sua humilhação triunfante.

Os Ue estavam caídos.

A transição foi tão abrupta quanto letal. Um momento, Amélie Boucher estava imersa nas águas quentes e ensanguentadas do onsen; no seguinte, ela emergiu como uma deusa da guerra desencadeada, arrancada diretamente de um pesadelo antigo. A água escorreu de seu corpo em cortinas prateadas sob o luar, e ela se moveu com uma velocidade que desafiava a percepção.

Seus pés descalços mal tocaram a pedra molhada antes de impulsioná-la em direção ao Guarda 3. O homem, com os olhos arregalados de terror, viu-a chegar e, por puro instinto, arqueou um golpe de bastão em um amplo e desesperado balanço.

Era um movimento de amador. Amélie simplesmente se agachou, o bastão sibilando inutilmente sobre sua cabeça. E então, ela retaliou.

La Proie de la Louve cantou.

A lâmina customizada, uma extensão de seu ódio e sua dor, encontrou as costelas do homem. O golpe foi cirúrgico e profundo, rasgando roupa, o tecido do colete, carne e músculo num único arco úmido e decisivo. Um grito agudo de pura agonia jorrou da garganta do guarda, um som que foi abruptamente interrompido pelo segundo movimento do redemoinho mortal de Amélie.

Ela girou no eixo, e o karambit riscou de baixo para cima. Desta vez, o alvo foi o rosto. A lâmina não penetrou o crânio, mas danificou severamente a região supra-orbitária. O inchaço foi instantâneo, uma cortina de sangue e tecido inflamado caindo sobre suas pálpebras, cegando-o no ato.

Ele não tentou mais lutar. Seu bastão caiu no chão com um ruído surdo. Suas mãos voaram para o rosto, tentando conter a dor e a escuridão súbita, e ele se encolheu em uma posição fetal, seus gritos se transformando em um choro suplicante: "Chega! Por favor, não mais! Por favor!"

Enquanto isso, o Guarda 4, vendo seu companheiro cair de forma tão horrível, investiu contra Goveia com um urro de desespero. Era um ataque tolo, nascido do pânico.

Ryan Goveia, com seu chi ainda fluindo como lava em suas veias, nem precisou de sua coreografia complexa. Em um flash de velocidade sobre-humana, ele contra-atacou com brutal eficiência. Dois chutes frontais, rápidos como o bater de asas de um beija-flor e pesados como martelos, conectaram-se com o esterno do homem.

CRACK.

O som de pelo menos uma costela quebrando ecoou na gruta. O ar foi expulso dos pulmões do guarda com um whoosh audível. Ele foi arremessado para trás, rolando sobre si mesmo antes de cair de bruços no chão de pedra. Lá ficou, ofegante pesadamente, o rosto enterrado no solo, incapaz e sem vontade de se levantar. A luta havia saído dele.

Foi nesse momento de silêncio pontuado por gemidos que o Guarda 5 e Enkai finalmente pisaram no nível principal do banho.

A cena que se apresentou a eles foi um quadro do inferno. Seus patronos, os Ue, pai e filho, boiavam inertes nas águas do onsen, agora tingidas de um vermelho escuro e sinistro. Quatro de seus colegas jaziam pelo chão, incapacitados, inconscientes ou suplicando. E no centro daquele pandemônio, apenas duas figuras permaneciam de pé.

Uma mulher gaijin, cujo corpo, outrora objeto de desejo lascivo, agora se parecia com uma máquina de morte perfeita, respiração controlada, olhos de gelo, pele salpicada de sangue alheio. E um homem filipino imponente, cuja postura tranquila e poder bruto sugeriam uma possessão divina, como se Bishamon, o deus da guerra, habitasse seu corpo.

E então, uma última e fatal lembrança: um brilho fugaz nas rochas distantes, o reflexo da lua na luneta de Roland Inagi.

Enkai, o traidor, não precisou fingir. O terror em seu rosto era genuíno. Ele balançou a cabeça, recuando um passo.

"Não, cara. Estou fora."

O Guarda 5 engoliu em seco, sua garganta seca como pó. Sua mão, que segurava o bastão, tremia incontrolavelmente. Ele olhou para os corpos caídos, para os demônios de pé e para o atirador invisível. A decisão estava feita antes mesmo de ser conscientemente tomada. A luta havia acabado.

A resolução foi tão rápida e brutal quanto inevitável.

Enquanto Roland Inagi, impávido em seu posto, executava o procedimento meticuloso de recarregar seu fuzil com a calma de quem sabia que a arena principal estava controlada, Amélie Boucher já havia traçado os próximos passos.

"Vou recuperar os porcos da água, precisamos deles vivos. Cuida desse tolo", ordenou ela a Goveia, sua voz um comando claro no intercomunicador, sem tirar os olhos dos corpos inertes de Jotaro e Keitaro na água avermelhada.

O Guarda 5, ouvindo-a chamá-lo de tolo, sentiu uma fagulha final de orgulho ferido. Talvez um ataque rápido, uma estocada certeira com o bastão para tirar o fôlego do gigante filipino... talvez isso fizesse Enkai mudar de ideia e lutar. Era um pensamento de homem desesperado, e desespero raramente vence disciplina.

Ele ergueu o bastão e investiu.

Ryan Goveia não deu um passo sequer. Ele simplesmente se ancorou. O chi que já circulava em seu corpo explodiu em um fluxo concentrado, e as formas do Tari Juru, agora completamente internalizadas, guiaram seu movimento. Não foi um simples soco; foi uma liberação de força cinética perfeita. Seu corpo todo, da sola dos pés à ponta dos dedos, torceu-se em um único propósito, canalizando cada grama de sua massa e poder em um único golpe.

O punho atingiu a têmpora do Guarda 5 com a força de um meteoro.

O impacto foi seco e final. A consciência do homem não escorregou; ela se apagou como uma lâmpada cujo filamento se parte. Seu corpo, antes tenso para o ataque, amoleceu instantaneamente, desabando sobre si mesmo como uma cadeira dobrável. Ele estava nocauteado antes mesmo de sentir a dor.

Enkai, que já estava com os nervos à flor da pele, não precisou de mais convencimento. Jogou seu bastão longe, que caiu com um ruído metálico no chão de pedra. Ajoelhou-se e cruzou as mãos atrás da cabeça. "Eu me rendo!"

Um suspiro de alívio e satisfação escapou dos lábios de Goveia. "Estava morrendo de vontade de conectar aquele soco!", comentou ele para Inagi e Amélie pelo rádio.

"Bom garoto, Goveia", respondeu a voz calma de Inagi no seu ouvido. "Da próxima vez, meu braço estará bom o suficiente e eu lhe mostrarei o poder do meu Kenjutsu!" Era um lembrete sutil de que suas habilidades com a espada eram sua verdadeira especialidade, e de que a lesão no braço o impedia de brilhar em seu auge.

"Fechado!", Goveia respondeu, um sorriso no rosto.

"Hehe, foi um bom soco", comentou Enkai, timidamente, ainda ajoelhado. Ele olhou para o colega caído. "O... o... Yuta está morto?"

"Sinceramente, espero que não", respondeu Goveia, com um tom que era mais observação do que preocupação.

"E eu não estou nem aí", completou Inagi, fazendo Goveia soltar uma risada abafada.

A cena foi quebrada pela voz de Amélie, um pouco ofegante, no rádio. "Posso pegar o Goveia emprestado por um instante, Inagi? Esses brutamontes são pesados demais, não consigo arrastar os dois!"

Ela já estava na borda do onsen, puxando o corpo molhado e inconsciente de Jotaro para fora. Escolheu ele primeiro por ter ficado mais tempo submerso.

Goveia correu para ajudá-la, entrando na água para agarrar o corpo maciço de Keitaro Ue. "Por que o mais pesado é para mim?", reclamou ele, fingindo indignação.

"Porque você é um homem", ela respondeu, sem fôlego, mas com um fio de provocação na voz.

"E você tem a força de um homem", ele retrucou na mesma moeda, fazendo-a soltar uma risada cansada.

"Cala a boca", ela riu, sacudindo a cabeça.

Enquanto isso, a voz de Inagi ecoou novamente no rádio, prática e eficiente: "Estou entrando com o equipamento de filmagem, câmbio." Do alto das rochas, ele já havia desmontado e guardado o fuzil, recolhido os cartuchos usados e agora pegava as malas com as câmeras. O trabalho deles, afinal, ia além da simples neutralização. Era preciso documentar, provar e enviar uma mensagem.

A batalha havia terminado. Agora, começava o trabalho burocrático da vingança.

O Preço da Derrota

A luz era a primeira coisa que cortava através do véu negro do inconsciente. Uma lâmina branca e crua, apontada diretamente para os olhos. Ue Keitaro piscou, a visão turva lentamente se ajustando ao holofote implacável. Do outro lado da luz, a forma escura de Roland Inagi segurava uma câmera, seu rosto uma máscara impessoal. O silêncio era quebrado apenas pelo zumbido baixo do equipamento e pelo som abafado de um gemido vindo de algum lugar atrás dele.

Ele se encontrou deitado no chão duro, não amarrado, mas cada músculo do corpo uma fornalha de dor. Sua mandíbula latejava, e a memória do impacto final veio como um flash: a visão daquela mulher, a Yuki no Onna, erguendo-se das águas como um demônio vingativo.

Ele virou a cabeça com esforço. Jotaro estava ao seu lado, consciente, mas encolhido, o rosto uma máscara de sangue seco e terror não disfarçado. Seus olhos estavam vidrados, fixos em uma ponto no chão, como se temessem que qualquer movimento atraísse a fúria divina sobre eles.

À frente, uma mesa baixa de estilo japonês havia sido posta. Sobre ela, uma pasta de clipboards com uma pilha de papéis e uma caneta. E atrás dela, envolta no yukata azul-profundo que fora presente de Shintô Nagano, estava Amélie Boucher.

Ela não precisava de algemas ou cordas. Sua presença era uma prisão. Seus olhos castanhos, usually cheios de uma inteligência afiada, agora eram furnas de uma raiva tão profunda e contida que parecia resfriar o ar ao seu redor. O presente de Shinto havia se tornado o manto do carrasco.

"Vocês são a escória da terra", sua voz saiu como um sibilo, baixa, mas carregando o peso de uma desilusão cósmica. "A vergonha do mundo. Se morrerem, renascerão como moscas ou vermes."

Keitaro sentiu cada palavra como um golpe físico, mais doloroso que os cortes e contusões.

"Os Nagano os trataram bem. Fecharam os olhos para seus esquemas para enriquecer às suas custas. E mesmo assim, vocês traem a memória deles tentando vender o Estábulo de Sumô mais sagrado para o inimigo?" Ela inclinou-se levemente para a frente, e Keitaro pôde ver o tremor quase imperceptível em suas mãos, a luta visceral para conter a tempestade interior. "Vocês não merecem respirar o mesmo ar que eles um dia respiraram."

A raiva dela era um ser vivo, um animal acorrentado. Ele pôde sentir o desejo nela – o desejo simples, puro e primitivo de acabar com tudo ali, de apagar suas vidas como se apaga uma mancha. Ele viu seus olhos faiscarem, e por um segundo, a morte pareceu inevitável. Mas então, ele viu seus punhos se cerrarem, suas unhas cravarem nas palmas das mãos, e uma respiração profunda e controlada acalmar seus ombros. Ela havia vencido a própria fúria. E isso, ele percebeu com um calafrio, era muito mais assustador.

Jotaro permaneceu em silêncio, um soluço preso na garganta. Keitaro baixou a cabeça, não por submissão, mas por uma vergonha que afundava até os ossos, uma vergonha de anos, de uma vida inteira de ambições mesquinhas e ressentimentos.

"Eu... sinto muito", a voz saiu rouca e quebrada.

"Você não sente", ela cortou, o desprezo pingando como ácido. "Você voltaria aos seus caminhos perversos no momento em que a oportunidade surgisse. Conheço ordure como você." Ela cuspiu a palavra final, 'ordure' – lixo, em francês, soando mais sujo e desprezível que qualquer insulto em japonês.

"Vocês querem misericórdia? Então façam a coisa certa. A maioria dos homens remanescentes do clã Nagano está se unindo ao clã Hanayama. Vocês DEVERIAM ter feito o mesmo!" Ela gesticulou em direção à pasta. "Façam o que é certo e leiam o contrato em voz alta. Agora."

Keitaro olhou para ela. A amante de Shintô era uma mulher notável, pensou, e a ironia da situação o esmagou. Ele sempre a imaginara como um pedaço de carne bonito que seduzira Shintô e subira em sua reputação. Achara que seria fácil capturá-la, filmá-la sendo humilhada por ele e por seu filho, e depois entregar sua cabeça a Ryuji Yamazaki, o bilhete dourado para ser aceito como um verdadeiro Yakuza pelos Ichiwakage-gumi.

Como ele fora cego. Ela não era uma mulher. Era uma força da natureza. Um tufão com olhos de gelo e a fúria de um amor profanado.

Em um lampejo de claridade tardia, um sentimento amargo e inútil brotou nele: um anseio por ter tido a oportunidade de conhecê-la em termos amigáveis. Se ele tivesse se unido ao clã Hanayama desde o início... talvez Jotaro, seu filho, pudesse tê-la cortejado. O coração do seu 'eu' presente amaldiçoou a cegueira e a ganância do seu 'eu' passado.

A escolha, ele entendeu, não era entre honra e desonra. Era entre viver como um verme, ou simplesmente não viver.

"Está bem", ele resmungou, a voz um sussurro de derrota total. "Vou lê-lo."

Sua mão, trêmula e marcada por anéis que agora pareciam apenas adereços tolos, estendeu-se e puxou a pasta para perto de si. A caneta pesava como uma barra de chumbo. Ele estava prestes a assinar não apenas a transferência de seus bens, mas a certidão de óbito de suas próprias ambições. E, naquele momento, isso parecia um preço pequeno para continuar respirando o mesmo ar que ela.

A Assinatura e o Adeus

A voz de Ue Keitaro era um arrasto rouco e quebrado, cada palavra uma admissão pública de sua própria ruína. Ele lia o contrato, e cada cláusula era um golpe direto no pouco que restava de seu orgulho.

"... por vontade própria e sincera de Ue Keitaro e Ue Jotaro, transferimos o Estábulo Tachimana ao clã Hanayama... legítimos herdeiros do clã Nagano, conforme ratificado por testemunhas dignas..."

Ele citou os nomes, e cada um era um peso maior sobre seus ombros: Saejima Yota, o membro mais antigo dos Nagano, um homem que ele evitara desde a morte de Shintô; e o Yokozuna Edmondo Honda, uma lenda viva do sumô, cujo endosso era inquestionável. Eles haviam isolado os Ue completamente, cortando qualquer fio de simpatia ou disputa de narrativa.

Mas foi a cláusula final, a mais crucial, que partiu a fachada de todos. Keitaro leu, sua voz quase sumindo:

"... incluindo o santuário interno dos Nagano, local de descanso dos remanescentes de Yu Nagano... e de Shintô Nagano."

O nome ecoou na gruta silenciosa como um toque de sino.

Um som sufocado escapou de Amélie Boucher. Um soluço abafado, cortado no nascedouro, mas sua boca tremeu incontrolavelmente. Os olhos, antes poços de fúria gelada, agora brilhavam com uma dor tão raw e vulnerável que era quase mais difícil de encarar do que sua ira. Por um instante, ela não era a Yuki no Onna, a agente da Stargazer ou a justiceira. Era apenas uma mulher de luto, diante do túmulo do homem que amava, sendo lembrada da pergunta que nunca seria respondida.

Keitaro parou de ler, congelado. O medo o atravessou como um raio. Ele a viu recuar, os dedos se contraírem como garras, e temeu que tivesse cruzado uma linha intransponível. A frágil contenção que a impedia de os matar parecia ter se rompido.

Mas então, uma presença sólida e calma interpôs-se. Ryan Goveia colocou uma mão firme, mas não agressiva, no ombro de Amélie. Não era um gesto de romance, mas de camaradagem no campo de batalha, uma âncora na tormenta emocional dela. Ele não disse uma palavra. Ele não precisava. O toque foi o suficiente: "Estamos quase lá. Mantenha o foco."

Amélie fechou os olhos por uma fração de segundo, respirou fundo e acenou com a cabeça quase imperceptivelmente. A guerreira havia retornado, abafando a viúva mais uma vez.

Keitaro, com o coração ainda acelerado, voltou ao documento. "Jotaro", ele ordenou, sua voz recuperando um fio de autoridade paterna, mesmo na derrota. "Diga que concorda."

A câmera de Inagi focou no rosto pálido do jovem. "C-Concordo", Jotaro gaguejou, a voz um fio de terror.

Sob o olhar impassível da lente, Keitaro pegou a caneta. Ela parecia pesar uma tonelada. Ele rabiscou seu nome no documento, a assinatura, outrora um símbolo de seu poder crescente, agora era a confissão final de sua capitulação. Jotaro fez o mesmo, suas mãos trêmulas mal conseguindo segurar o instrumento.

Assim que a tinta tocou o papel, Inagi desligou a câmera. O holofote se apagou, mergulhando os Ue de volta em uma penumbra relativa, mas o peso do que haviam feito permanecia, indelével.

Enquanto isso, Goveia se virou para o grupo de guardas derrotados. Enkai ainda estava de joelhos; os outros, conscientes, ouviam com expressões de exaustão e medo.

"Ouçam com atenção", Goveia disse, sua voz clara e impositiva, mas sem raiva. "Quando a polícia chegar – e vocês vão chamá-la –, a história é simples: foi um ataque Yakuza. Não viram rostos, não ouviram nomes. Foi confuso e rápido."

Ele fez uma pausa, deixando as palavras assentarem. "Se algum de vocês decidir ser... criativo com essa história, saibam disso: o clã Yamaguchi-gumi já está ciente de sua possível traição. Eles sabem onde cada um de vocês mora. Sabem onde suas famílias vivem."

Seus olhos percorreram cada rosto machucado, garantindo que a mensagem fosse entendida.

"Os Ichiwakage-gumi, por outro lado, nem sabem que vocês existem. Não são uma opção. São um beco sem saída. A única escolha que têm é seguir as instruções e viver suas vidas insignificantes longe disso tudo. Está claro?"

Os homens assentiram, seus rostos uma mistura de alívio e terror. A escolha, como Goveia dissera, era ilusória. A obediência era sua única rota de fuga.

O legado de Shintô estava seguro. E o preço da traição havia sido pago até o último centavo.

O Peso da Justiça e o Sussurro das Cinzas

O ar do lado de fora da propriedade era frio e puro, um contraste brutal com o vapor opressivo e o cheiro de sangue do onsen. Sob a luz fraca das estrelas, dois carros escuros e silenciosos aguardavam, como caixotes funerários sobre rodas. Deles, desceram homens de ternos sóbrios, seus rostos impassíveis como máscaras de Noh. Eram os homens de Hanayama.

A transferência dos Ue foi rápida e eficiente. Jotaro, ainda atordoado pela dor e pela humilhação, foi empurrado para dentro do carro sem compreender o significado final daquilo. Seu mundo havia se reduzido à própria agonia.

Mas Keitaro Ue sabia. O conhecimento, velho e amargo como o fel, inundou seus olhos no momento em que viu os yakuza. Esta não era uma simples custódia. Era uma sentença. Um traidor no mundo deles não merecia o ritual de expiação do seppuku. Essa honra era reservada a guerreiros. Para um contador ganancioso que ousou brincar de ser oyabun, a justiça seria sumária, brutal e anônima. E ele sabia, com um frio que lhe congelou a alma, que o mesmo destino aguardava seu filho.

Quando as mãos ásperas dos homens o agarraram, o último resquício de seu orgulho desintegrou-se. Seus olhos, inchados e cheios de terror, encontraram as costas voltadas de Amélie Boucher. Ela estava de pé, rígida, olhando para o vazio, o yukata de Shintô balançando suavemente na brisa noturna.

"Poupem meu filho!", a voz de Keitaro irrompeu num grito dilacerante, um som primal de um pai enfrentando o abismo. "Por favor, poupem meu filho! Ele é só um tolo! A culpa foi minha!"

Amélie não se virou. Seus ombros se estriaram por um instante, mas ela não se virou. Era a sentença dela. A justiça de Shintô, embora administrada pelas mãos de Hanayama, seria cumprida. Os yakuza não ligaram para seus apelos, enfiando-o no carro com um empurrão brusco. A porta fechou-se com um baque final, selando seu destino.

Foi então que a surpresa surgiu da sombra do segundo carro. Não era outro soldado. Era Kaoru Hanayama em pessoa.

O jovem gigante emergiu com uma presença que mudou a gravidade do local. Seu torso imenso, um mapa de cicatrizes e tatuagens, era envolto em um terno impecável. Seu rosto, marcado por batalhas lendárias, era impassível, mas seus olhos, profundos e sábios além de seus anos, fixaram-se em Amélie.

Kyuuichirou Kizaki, seu porta-voz e conselheiro, seguiu-o um passo atrás. "Hanayama-sama está satisfeito e impressionado com sua demonstração de amizade, Yuki no Onna-sama!", anunciou Kizaki, sua voz um contraste cortês com a selvageria recente. "Ele deseja assegurar-lhe que o Estábulo Tachimana será tratado como a posse mais sagrada dos Hanayama, perdendo apenas para o túmulo da mãe do próprio Hanayama-sama."

A declaração era monumental. Era mais do que uma promessa; era um juramento de sangue, colocado no mais alto patamar de reverência do clã.

Kizaki fez uma pausa, e um frasco de emoção genuína pareceu suavizar seus traços. "Ele também deseja lhe dar este pequeno símbolo de gratidão."

Hanayama então se moveu. Com uma delicadeza que parecia impossível para mãos que podiam esmagar crânios, ele se aproximou de Amélie. Seus olhos castanhos encontraram os dela, e ele gentilmente pegou sua mão. Na palma dela, ele depositou um medalhão ornamentado, pesado e frio. Era uma peça de arte fina, gravada com o mon dos Nagano entrelaçado com motivos etéreos de Yuki no Onna – o espírito protetor que ela havia se tornado.

Ele então fechou a mão dela em volta do medalhão, suas enormes mãos envolvendo as dela por um breve, poderoso instante.

Kizaki completou, sua voz baixa e carregada de significado: "Ele contém algumas das cinzas de seu amado. Para que você possa tê-lo por perto, onde quer que esteja."

A frieza de guerreira de Amélie dissolveu-se. Seus lábios tremeram incontrolavelmente. Um suspiro entrecortado escapou, e as lágrimas que ela havia contido para Keitaro agora fluíam livremente, silenciosas e puras.

"Eu... eu agradeço", ela sussurrou, sua voz falhando. E então, ela se curvou profundamente, um gesto de respeito e gratidão que vinha da alma.

Para surpresa de todos, Kaoru Hanayama, o homem que desafiara os mais fortes do mundo sem pestanejar, retribuiu com uma reverência ainda mais profunda. Era um reconhecimento humilde. Ele não se curvava à espiã ou à amante, mas à guardiã de um legado, a uma força de natureza igual à dele.

Comovida além das palavras, Amélie ergueu-se e, num impulso de pura emoção, esticou a mão e tocou sua face marcada pela guerra. O toque foi leve, um reconhecimento da dor que ambos carregavam em seus próprios mundos. Então, ela se ergueu na ponta dos pés e plantou um beijo suave em sua outra face.

O gigante, por um instante, mostrou sua verdadeira idade. Um rubor subiu por seu pescoço e ele desviou o olhar, um riso baixo e comovido escapando de seus lábios. Até Kizaki permitiu um raro e genuíno sorriso.

"Eu, nós agradecemos, Yuki no Onna", disse Kizaki, recuperando a compostura, mas com a voz mais suave. "Os Hanayama são, e sempre serão, seus aliados mais firmes. Dê nossos cumprimentos a Lacroix."

Com um último aceno de cabeça, os dois homens viraram-se e entraram no carro. Os veículos desapareceram nas sombras da noite, levando consigo o som dos gritos abafados dos Ue e deixando para trás um silêncio pesado e complexo.

O silêncio foi quebrado por Ryan Goveia, que esfregou o estômago com um exagero cômico.

"Jantar", ele anunciou, sua voz um baixo contraponto terreno à epopeia trágica que se desenrolara. "Estou esfomeado."

A declaração foi tão absurdamente normal, tão profundamente humana, que Roland Inagi soltou um riso abafado. E Amélie... Amélie riu. Um riso que começou como um soluço, misturou-se com o som de suas lágrimas e explodiu em uma risada cansada, real e catártica. Ela riu até doer, limpando as lágrimas com as costas da mão, o medalhão de Shintô apertado com força contra seu peito.

Ela deu mais um passo na longa estrada para vingar seu amante. Mas naquela noite, envolta na escuridão do Japão, cercada por seus companheiros, com o peso das cinzas de Shintô sobre seu coração, ela também deu um pequeno, trêmulo e importante passo em direção à sua própria paz.

Caldo Quente e Corações em Repouso

Tóquio respirava à noite com um ritmo diferente. Não era o silêncio ameaçador da propriedade dos Ue, mas o zumbido vivo de uma cidade que nunca dorme de verdade, iluminada por néons e pela luz quente de estabelecimentos que acolhem pessoas de todas as histórias.


Dentro de um shokudō modesto, o ar estava impregnado com o aroma reconfortante de caldo de peixe, dashi e missô. Amélie, Goveia e Inagi ocupavam um canto, afastados do burburinho. Estavam limpos, vestidos com roupas casuais – suéteres e calças simples, uma camuflagem perfeita na multidão anônima. A violência da noite parecia um pesadelo distante, lavado pelo vapor de um banho quente.

Três tigelas de missô fumegante foram colocadas à frente deles. O simples ato de erguer os hashis foi um ritual de retorno à normalidade.

"Sabem", começou Amélie, soprando suavemente sobre uma colher de sopa, "o Lacroix uma vez me disse que a verdadeira medida de uma agência não está em quantos segredos ela rouba, mas em quantas refeições seus agentes fazem juntos depois." Um sorriso maroto brincou em seus lábios. "Acho que ele só estava com fome na hora, mas faz sentido."

Goveia abocanhou um pedaço de tofu, praticamente engoliu-o inteiro e apontou o hashi para ela. "Faz todo o sentido. Inimigo algum resiste ao poder de um bom missô. Deveria ser arma padrão." Ele olhou para a tigela de Inagi, que comia com uma postura impecável, quase cerimonial. "Ei, Inagi, se você comer tão devagar, o Inagi do amanhã vai ficar com fome."

Roland Inagi nem pestanejou. "A pressa é inimiga da digestão, Goveia. E da perfeição." Mesmo de jeans e blazer esportivo, ele carregava uma dignidade natural.

Amélie observou a dinâmica com um afeto genuíno. Goveia era como um irmão mais novo turbulento – sua lealdade era feroz e descomplicada, expressa em gestos largos e brincadeiras. Inagi era o irmão mais velho, reservado, sua lealdade demonstrada através de um profissionalismo absoluto e uma vigilância silenciosa.

Ela decidiu cutucar a formalidade dele.

"Roland", ela disse, seu tom leve, mas com um brilho travesso nos olhos. "Se você fosse um tipo de missô, qual seria? O awase tradicional, que é uma mistura equilibrada? Ou o hatchō, escuro e intenso, quase filosófico?"

Inagi parou, os hashis suspensos no ar. Ele ponderou a pergunta absurdamente séria por um momento. 

"Eu seria akamiso", respondeu, finalmente. "Vermelho. Forte. E com um toque de koji para complexidade." Ele manteve a pose séria, mas um canto de sua boca se moveu quase imperceptivelmente.

Goveia gargalhou. "Eu sou o missô instantâneo que você compra no mercado! Rápido, eficaz e surpreendentemente gostoso!"

A risada deles ecoou pelo pequeno espaço. Amélie, vendo a abertura, não perdeu a chance. Ela se levantou, contornou a mesa e, antes que Inagi pudesse se erguer em sinal de respeito, jogou o braço em torno de seus ombros num abraço lateral descontraído, de camarada.

"Inagi, para de ser um poste", ela disse, sua voz suave, mas firme. "A missão acabou. Você atirou, eu cortei, o Goveia fez caras e bocas. Foi um sucesso. Relaxa."

Inagi ficou momentaneamente rígido, mas então, sob o peso do abraço despretensioso e do olhar sincero de Amélie, sua postura militarmente ereta cedeu um grau. Ele não retribuiu o abraço, mas permitiu, e um suspiro quase inaudível escapou. Era sua versão de "estou em casa".

Ela voltou ao seu lugar, e um silêncio confortável se instalou, preenchido apenas pelo som do jantar. Amélie olhou para o vapor que subia de sua tigela, e sua expressão suavizou-se, a máscara da comandante dando lugar à mulher por trás dela. Os eventos da noite, a assinatura do contrato, o medalhão pesando sob sua roupa... tudo levou sua mente de volta a ele.

Ela pegou seu hashi e, pensativamente, começou a desenhar caracteres invisíveis na mesa com a ponta fina.

"Um haiku", ela murmurou, mais para si mesma do que para eles. "Para um guerreiro que preferia a lâmina à pena, mas que entendia a beleza em ambas."

Ela fechou os olhos por um instante, e então os abriu, sua voz sainte em um sussurro claro e carregado de emoção, recitando para seus companheiros, para a noite, para as cinzas que agora carregava consigo:

"Sob o luar frio,

O som do aço e do amor:

Vento leva a paz."

O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros daquela noite. Não era o silêncio da tensão ou da morte, mas o de uma reverência compartilhada.

Goveia olhou para ela, seu rosto habitual de pilhas sério. "Isso foi... lindo, chefe."

Inagi, por sua vez, inclinou a cabeça em um gesto profundo e genuíno. "Um tributo digno, Boucher-san. Nagano-san sorriria."

Amélie sentiu um nó na garganta, mas também uma calorosa sensação de paz. Ela estava entre a família que escolheu, honrando a memória do amor que perdeu. Ergueu sua tigela de missô.

"Para Shintô. E para nós. Que possamos sempre encontrar calor após o frio da batalha."

Os hashis de Goveia e Inagi tocaram a borda de sua tigela, um tilintar suave que selou o momento. Naquele pequeno shokudō em Tóquio, cercada pela vida que lutava para proteger, Amélie Boucher encontrou, mesmo que por uma noite, um porto seguro.

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