A Humilhação de Ryuji Yamazaki

21 de Julho de 1989 — Shinagawa Prince Hotel, Tóquio

A Humilhação de Ryuji Yamazaki

Parte 1: Café da Manhã com a Matilha



O Despertar

O sol de Tóquio, pálido e insistente, filtrou-se pelas cortinas do Shinagawa Prince Hotel, desenhando listras de luz no rosto de Shiro. No quarto twin, o som do ronco profundo e cavalar de Renan do quarto ao lado mal era abafado pela parede, mas o que acordou o jovem ninja foi um leve chacoalhar de vidro.

Ryan Goveia, já vestido com uma camiseta regata e calças de treino, agitava um pequeno frasco com pó marrom-avermelhado. "Acorda, sombra. Hoje é dia de culinária de combate."

Shiro esfregou os olhos. "Hã?"

"Café da manhã filipino," declarou Ryan, com um sorriso que era 50% conspiração, 50% orgulho cultural. "Se você topar ser meu sous-chefe, eu convenço o chef do hotel a nos ceder um cantinho da cozinha. Ele é meio... territorial, mas tenho meu jeito."

Sinaing na Bangus & Champorado Especial

Shiro sentou-se na cama, ainda processando. "Eu não conheço pratos filipinos."

"Conhece sim, só não sabe que conhece. Tá na cara que você sabe cozinhar okazu e donburi. É a mesma lógica, espíritos diferentes." Ryan puxou uma cadeira e começou a descrever com as mãos.

"A ideia é o Sinaing na Bangus com Champorado Especial. Bangus é leitelete. A gente vai marinar ele em vinagre de palma, gengibre e calamansi — é tipo uma liminha —, depois cozinhar lentamente em uma panela rasa com folhas de bananeira. Fica tão macio que se desfaz. O champorado é um mingau de arroz glutinoso com tabletes de chocolate escuro. Mas no nosso, a gente acrescenta uma pitada de pimenta labuyo moída na hora e um fio de leite de coco. Doce, picante, cremoso. Revolucionário."

A descrição era vívida, quase uma missão. Shiro visualizou os passos: a precisão da marinada, o controle de fogo lento, o equilíbrio de sabores. Era, de fato, como preparar um veneno, só que delicioso. "Parece... possível," ele concedeu.

"É mais que possível, é obrigatório. A Marie vai fazer aquele sorriso de 'estou tolerando', a Eloïse vai comer como se fosse a última refeição, e a Boucher..." Ryan fez uma pausa dramática. "... vai dar aquele tapinha nas costas que significa 'você me surpreendeu, garoto'. Vale a pena."

O Outro Lado do Corredor

Do outro lado do corredor, no quarto onde as camas tinham sido empurradas uma contra a outra formando um continente de lençóis, Amélie acordou com o peso reconfortante de um braço sobre seu ombro. Eloïse, ainda meio dormindo, a agarrava como a um urso de pelúcia.

Com cuidado, Amélie se soltou e sentou na beira da cama. A memória do pesadelo noturno — a voz quebrada, o pânico — pousou sobre seus ombros como um manto frio. Ela virou-se e viu Eloïse observando-a, agora acordada, com um olhar que não era de pena, mas de solidariedade pura.

"Obrigada, Tetê. Por... ontem. Por estar aqui."

"De rien, mama. Sempre." Eloïse se sentou também, cruzando as pernas.

Amélie respirou fundo, o ar da manhã trazendo uma coragem que a noite havia negado. "Eu... peço que não comente com os outros. Sobre o quão… fofa eu fiquei." Ela tentou um sorriso torto.

Eloïse riu, um som suave.

"Por mim você nem falaria, maman. Só para a Dra. Gunwoo. O resto deles... eles não precisam ver o lado bêbado de medo da chefe. Eles já adoram o lado fofo. Aquele que dá tapinhas na cabeça do Renan e briga com o Ryan por causa de café."

A leveza da resposta desarmou Amélie. Ela balançou a cabeça, um verdadeiro sorriso surgindo. "Eles são uns idiotas maravilhosos, não são?"

"Os melhores idiotas que o dinheiro da Stargazer pode comprar. Agora me deixa dormir mais dez minutos. Se o Ghost e o Shiro estão acordados, significa que vão causar problemas na cozinha. Vou precisar de energia."

O Dojo do Umami

Na cozinha imaculada do hotel, o Chef Kaito, um homem de estatura média e olhos que já tinham visto de tudo, desde noivos bêbados até celebridades exigentes, encarou os dois intrusos com ceticismo profissional.

"Senhor Goveia. A cozinha do Shinagawa Prince não é um... playground para hóspedes."

"Chef Kaito, eu lhe imploro. Não é um playground. É uma colaboração cultural. Este jovem aqui é um prodígio. Um artista do umami que passou anos estudando as técnicas de Iga."

Shiro, sentindo-se como um peixe fora d'água em seu hoodie cinza, tentou parecer digno. O Chef Kaito ergueu uma sobrancelha ao ver as mãos do jovem — finas, mas com calos em lugares específicos, de quem manuseia ferramentas e cordas, não apenas facas.

"Iga... como o ninja?"

"Exato. Disciplina, precisão, respeito pelos ingredientes. Cozinhar é uma arte marcial silenciosa."

O chef olhou de um para o outro. O charme descontraído de Ryan e a seriedade inesperada de Shiro formavam um duo convincente. Com um suspiro que carregava o peso de sua própria curiosidade, ele acenou. "Vocês terão uma bancada. Uma. Eu observo. Um passo em falso, um ingrediente desperdiçado, e acabou. E não toquem no meu dashi."

Arte Marcial Silenciosa

Sob o olhar vigilante do Chef Kaito, Shiro entrou em um estado de fluxo. A cozinha tornou-se seu dojo. A faca do chef, que ele manuseou com permissão, era uma extensão de seu braço. Ele picou o gengibre em lascas perfeitas, extraiu o suco do calamansi com eficiência cirúrgica e dispôs as folhas de bananeira como se estivesse armando uma armadilha. Ryan era seu suporte perfeito, preparando o chocolate, moendo a pimenta labuyo num pilão, sussurrando ajustes de sabor.

O aroma que começou a subir — ácido, picante, terroso e doce — era hipnotizante. Outros cozinheiros pararam para observar. O Chef Kaito, inicialmente rígido, aproximou-se lentamente.

Quando o bangus saiu da panela, desmanchando-se em lascas úmidas e perfumadas, e o champorado foi finalizado com o leite de coco, ele pediu para provar. Um silêncio absoluto dominou a cozinha. Ele experimentou um pouco de cada.

Seus olhos estreitos se abriram um pouco.

Ele olhou para Shiro, depois para a comida, depois novamente para Shiro.

"Você... criou uma refeição filipina autêntica e excelente, jovem. O equilíbrio é notável. Meus parabéns."

Ryan explodiu em um sorriso vitorioso. "E com a minha receita de família!"

[Sanjuro]

"Ele é um chef!! Um mestre! Não faça gracinha, idiota!"

A onda de orgulho e alívio foi tão grande que Shiro quase caiu na armadilha do seu próprio humor. Ele abriu a boca, e a voz de Sanjuro, seca e urgente, ecoou em sua mente. Shiro engoliu as palavras que iam sair — 'o que vocês chamam de saiko, eu chamo de prato normal numa manhã de sexta-feira'. Em vez disso, seus lábios formaram um sorriso genuíno, um pouco tímido.

"Obrigado, Chef. Para mim, isso... é muito oishii."

O chef Kaito deu um cortês sorriso e até o ofereceu um lugar de trabalho lá, mas ele recusou, Goveia incluindo, sugerindo que ele já trabalha em um emprego que paga um salário de seis dígitos.

Agora o chef abriu um sorriso mais generoso. "Ahhh! Salaryman bem sucedido, jovem e gourmet, o rapaz vai conseguir um bom par com essas habilidades!"

Eles se despediram e trouxeram os pratos para os demais, que fizeram festa com o sabor da comida.

Êxtase Coletivo

Marie: "Doce, mas com profundidade... e um calor residual fascinante. Shiro-kun, você é uma caixinha de surpresas."

Renan: "Garoto, com essa mão e a outra que esmaga gente, você é um trunfo completo!"

Eloïse: "Maman, temos que inscrever esse garoto como sous chef para a base. O cardápio do refeitório vai ficar muito mais intenso do que só comida italiana!"

Amélie não disse muito. Ela comeu com atenção, cada garfada uma avaliação.

Então, ela se inclinou e deu um forte tapinha nas costas de Shiro, que o fez engasgar levemente com o champorado.

"Incrível, Shiro. Ryan, boa lembrança."

Seus olhos brilhavam com um orgulho que era quase maternal, e ela nem percebeu o beijinho que deu na têmpora de Eloïse ao se levantar para buscar mais café.

Shiro observou a cena, um turbilhão de sensações. O abraço de ombros que Ryan lhe deu, o tapinha nas costas de Renan que quase o derrubou da cadeira, o toque no braço de Marie ao passar o açúcar, o beijo no rosto desajeitado que Eloïse lhe deu para agradecer...

Era um festival de contato físico, desorganizado, barulhento e cheio de afeto. Um ninja de Iga era treinado no invisível, no impessoal. Aquilo era o oposto total.

E, para sua própria surpresa, ele estava gostando. Principalmente dos gestos vindos de Boucher, Eloïse e Marie. Havia uma calorosa aceitação ali, uma inclusão desengonçada que falava mais alto que qualquer palavra.

A cena não passou despercebida. Em mesas vizinhas, outros hóspedes sussurravam, apontando discretamente para os pratos coloridos e aromáticos. Um casal idoso chamou um garçom.

"Desculpe, onde podemos pedir esse... café da manhã especial? Não está no cardápio."

O garçom, confuso, olhou para a mesa barulhenta da Stargazer, onde um gigante ria alto, uma mulher de cabelo impecável anotava algo num caderno com um sorriso, uma jovem mecânica gesticulava e um homem mais velho aconselhava um jovem de hoodie, enquanto uma loira severa mas de olhos suaves regia a orquestra com pequenos gestos.

"Lamento, senhor. Acho que é um... menu privativo. Muito, muito privativo."

Um café da manhã que começou como missão culinária

e terminou como comunhão de matilha.

O ninja de Iga, pela primeira vez,

sentiu-se visível — e não se importou.

21 de Julho de 1989 — Shinagawa Prince Hotel, Tóquio

A Humilhação de Ryuji Yamazaki

Parte 2: Plano de Voo e Homens Perigosos



A reunião foi convocada no quarto de Amélie no Shinagawa Prince, um espaço agora familiar marcado por mapas desdobrados sobre a cama e a presença densa de agentes cansados mas alertas. O ar cheirava a café forte e a tensão pré-missão.

O Primeiro Ajuste

Amélie começou, como sempre, pelo mais tático: o pessoal. Seu olhar pousou em Shiro, e um leve sorriso tocou seus lábios. Ela se aproximou, colocando uma mão em seu ombro num gesto que era ao mesmo tempo camarada e quase maternal — um choque cultural delicioso para o jovem ninja.

"Shiro, posso contar com você por mais um dia? Sua sombra foi inestimável."

"Sim, Comandante. Estou à disposição."

"Bom. Mas lembre-se: faça as pazes com o time do Tanaka. E entre em contato com o clã Hattori. Não desapareça. Eles precisam saber que seu investimento não se perdeu nas vielas de Tóquio."

Ida e Volta

Em seguida, virou-se para a dupla de força bruta e engenharia. "Eloïse, Renan. Preciso do Grand Guy de volta à base o mais rápido possível. As análises não podem esperar." Ela pegou dois envelopes do criado-mudo. "Passagens. Vocês dois saem de Narita logo após esta reunião. Tetê, é ida e volta. Você ainda tem serviço como minha sombra sobre rodas."

Renan assentiu, sério. A missão de campo dele, cheia de hesitações e rugidos, terminava. Eloïse deu um leve suspiro, mas um brilho nos olhos denunciava que ela adorava a ideia de pôr o Corolla na pista novamente.

Fantasmas no Cassino

"Shiro, Marie, Ryan. Após o briefing com Takumi e Hanayama, vocês serão nossos olhos. Observem o ataque ao cassino. Registrem movimentos suspeitos, reforços inimigos, rotas de fuga. Não se envolvam a menos que seja absolutamente vital. Sejam fantasmas."

"Entendido," Ryan disse, seu rosto já assumindo a impassibilidade profissional do 'Fantasma'. Marie inclinou a cabeça em silêncio, um aceno de aceitação elegante.

Ajuste de Ritmo

Foi então que Amélie revelou a primeira grande mudança. "Quanto aos próximos passos... decidi ajustar o ritmo." A admissão, vinda dela, fez o ar parar por um segundo. "Amanhã, após a reunião com Kaishakunin, eu, Marie, Ryan e Eloïse vamos para Tosa. De carro."

"Dez a doze horas," calculou Ryan em voz baixa.

"Exato. Tempo que usarei para descansar e preparar os próximos movimentos."

O Tabuleiro de Tosa

Amélie desenhou o cenário em Tosa: um encontro duplo. Primeiro, com os Takano-kai, aliados volúveis liderados pelo incompetente Ryu Tadano. "Para ele, apenas pinceladas da vitória. Nada crucial. Quero ver o que essa cobra de jardim fará com migalhas."

Depois, o verdadeiro objetivo: uma reunião privada com os exilados Kobayashi-kai. Ela nomeou os homens: Kobayashi Koichi, o líder derrotado; Kobayashi Kaito, seu tenente leal e capaz; e, para o desagrado visível de todos na sala...

Amélie disse:

"Takeyo Yori."

Renan fez uma carranca que poderia derreter aço. Marie soltou um "Quelle horreur" tão perfeito e elegante que soou como um verso de poesia maldita.

"Eu sei. Ele é... problemático. Arrogante, impulsivo, um cabeça dura, um verdadeiro kabuto. Mas ele tem potencial e, não se esqueçam, é também o filho de Takeyo Takayasu, o homem que traiu Koichi e entregou Quioto aos Ichiwakage. Yori é nossa chave para reabrir aquela porta."

Ela explicou o plano: convencer Koichi a ceder Kaito para a próxima fase. Kaito, junto com Ryan e Marie, formaria o triunvirato da razão, os guardiães e guias de Yori em sua jornada de (suposta) redenção. "Não repitam meu erro. Não o deixem respirar sem uma instrução clara. Ele é uma arma carregada e sem trava. Vocês serão o dedo no gatilho."

"E então, terei que aturar o olhar lascivo do Tadano Ryu. Ryan, Yori — considerem-se designados para proteger a mim e a Marie da 'libido nojenta' do mimado."

Ryan não perdeu a piada. "Se ele tentar algo com uma de vocês, perde as bolas. E adianto que não serei eu nem o Yori que vamos arrancá-las." O comentário arrancou um sorriso breve até da séria Marie.

A Comandante Vai Dormir

E então veio a surpresa maior. "Minha participação ativa termina em Tosa. De lá, Eloïse e eu voltamos para Kobe. Uma viagem de três horas na qual eu pretendo dormir o tempo todo."

A imagem da comandante invencível planejando uma soneca foi quase tão chocante quanto a admissão de sua retirada. Mas ela já seguia adiante.

A Rota para Quioto

"A missão, no entanto, continua. Para Ryan, Marie e, se tudo der certo, Yori e Kaito. De Tosa, vocês seguem com expediência para Quioto. Lá, entram em contato com nossos aliados Arashikage, do secto do Hard Master, no dojo Akikai. Falem com Jinx. Atualizem-se: a recusa dos Aizukotetsu-kai deve ter abalado os Ichiwakage. Permitam que Kaito e Yori façam reconhecimento nos antigos territórios Kobayashi. Ouçam os Arashikage."

"Também importante, entrem em contato com os Akikai, perguntem sobre suas necessidades e fiquem atentos por qualquer informação importante que eles tenham. E..." ela fez uma pausa dramática, "...requisitem que Ren Garuda seja designado para acompanhá-los."

O nome caiu na sala como uma granada sem pino.

[Sanjuro]

"Uh-oh."

"Primeiro Yori, agora Ren? Isso aqui vai virar um circo," Shiro murmurou, pensando estar falando apenas para o fantasma em sua cabeça, mas as palavras escaparam para a sala.

Amélie olhou para ele, não com reprovação, mas com uma expressão de 'eu sei, garoto, eu sei'. "É um risco. Um risco calculado. Ren não terá nenhuma autoridade. O Corolla da Eloïse terá mais poder de decisão que ele."

"E tem!" pipocou Eloïse do canto, orgulhosa.

O Sr. Gorila

Amélie explicou a lógica tortuosa. Primeiro, uma penitência: Takumi Ichida ainda guardava rancor por uma afronta passada de Ren. Ele teria que se desculpar — e Amélie confiava em Marie para redigir uma humilhação perfeita e fazê-lo decorar.

Segundo, e mais crucial: Watanabe Yoshinori, o "Sr. Gorila". O oyabun mais poderoso dos Yamaguchi-gumi, um titã cujo apoio arrastaria os clãs reticentes.

"Aqui entra o desastre ambulante que é o Ren. Shintô viu um potencial de lutador nele. Treinou-o. Lutou ao lado dele. Para muitos yakuzas, especialmente para um tradicionalista cavernoso como Yoshinori, Ren se tornou o pupilo não oficial de Shintô Nagano. O sucessor simbólico."

[Sanjuro]

"Foi ele quem me matou... Segui as ideias dele..."

"Então são uns bestas, confiando em alguém com quem nem tomaram um chá," Shiro comentou em voz alta.

"Concordo plenamente. Mas o estrago está feito. E piora: Yoshinori acha a Stargazer fraca. Acha que Lacroix se esconde atrás de... saias. Mesmo com Ryan como meu porta-voz, ele vê minha liderança como uma afronta."

"Gorila em todos os sentidos," resmungou Ryan.

"Por isso Ren é necessário. É uma linguagem que Yoshinori entende: um 'sucessor' de Nagano, um lutador. Mas precisamos controlar a mensagem. Yoshinori vai tentar fazê-lo falar. O que ele deve dizer?"

Shiro pensou rápido, aplicando a lógica ninja de dar ao inimigo a resposta que ele espera, mas desarmada.

"Que não gosta de falar. Que prefere lutar. Que deixa a conversa para os mais capazes."

Amélie sorriu, um vislumbre de aprovação. "Boa. Marie, refina isso. Transforme em uma arrogância de lutador, uma simplicidade tola que confirme para Yoshinori que Ren é apenas um músculo, não uma mente. Um símbolo, não um estrategista."

O objetivo final era claro: sair da sala de Watanabe com seu apoio, ou, no mínimo, com a promessa de renegociação após a tomada de Minato City. "Se tivermos sucesso lá — e teremos, com ou sem ele —, o 'Sr. Gorila' se juntará ao comboio. E os Ichiwakage estarão se faire baiser."

Marie, com seu tato habitual, traduziu para Shiro com um discreto sussurro:

"...estarão ferrados."

O Prazo

Por fim, Amélie estabeleceu o prazo. "O ataque a Minato City será no início de agosto. Quero todos de volta em Kobe antes do dia 26."

Ela então cruzou os braços, seu olhar percorrendo o círculo de rostos — o gigante preocupado, a motorista leal, a harpia elegante, o fantasma camaleão, o ninja em formação.

"A reunião está encerrada. Eloïse, Renan, peguem suas coisas. O resto de vocês... preparem-se. O circo está prestes a começar. E nós vamos ser os donos do espetáculo."

Descansem

Após a reunião, a ordem de Amélie ecoou na sala com a força de um decreto: "Descansem." Era menos uma sugestão e mais um diagnóstico tático. O cansaço era um inimigo, e eles precisavam estar alertas para o briefing noturno com os yakuza.

Eloïse e Renan foram os primeiros a partir, o gigante e a motorista formando uma dupla silenciosa e eficiente que desapareceu nos corredores do Shinagawa Prince Hotel rumo ao aeroporto.

Olhos no Terreno

Os demais obedeceram, mas o "descanso" para homens como Ryan Goveia era um conceito relativo. Uma hora depois, a quietude do quarto twin foi quebrada pelo som característico de Ryan estalando os dedos de sua mão esquerda, um ritual pré-ação.

"Shiro, o cassino. Não podemos entrar cegos na reunião. Precisamos de olhos no terreno antes de Kaishakunin e dos Hanayama começarem a traçar círculos no mapa."

"Concordo. Mas precisamos da autorização dela."

"Exato. E a Marie tem o mapa da área na cabeça. Melhor volante não há."

Juntos, foram até o quarto de Amélie. A porta, número 407, estava fechada. Ryan bateu — três batidas firmes e respeitosas.

Silêncio.

Ele esperou um momento, trocou um olhar com Shiro, e bateu novamente.

Mais silêncio.

Quando a porta finalmente se abriu, após o que pareceram dois minutos inteiros, a visão que tiveram foi perturbadoramente… doméstica. Amélie Boucher estava lá, mas era uma versão desmontada da comandante. Seu cabelo loiro, normalmente preso com a precisão de um cabo de parafuso, estava amarrado em um coque baixo e desleixado, mechas escapando nas têmporas. Seus olhos, castanhos e normalmente tão focados, estavam fundos, vidrados, com a névoa espessa de quem foi arrancado das profundezas do sono REM. Ela se apoiava na porta, envolvida em um cardigan de lã cinza aberto sobre uma regata preta simples.

"O que foi?" A voz dela era áspera, carregada de sono, mas tentando forçar um tom de normalidade.

"Comandante. Pensamos em fazer um reconhecimento prévio do cassino e do perímetro. A Marie servindo de volante. Conhecer o terreno antes do briefing."

Amélie piscou lentamente, processando. Por um segundo, Shiro viu a confusão cruzar seu olhar — aquele breve hiato antes de o comandante retomar o controle. Então, ela anuiu. "Boa ideia. Façam. Documentem tudo. Entradas, saídas, pontos cegos, fluxo de civis."

"Já autorizado."

"Você pode voltar a dormir, Boucher."

Um sorriso cansado e genuíno tocou os lábios dela. "É exatamente o que pretendo fazer, Shiro. Agora, vão. E sejam discretos."

A porta se fechou suavemente.

No corredor, Ryan e Shiro ficaram parados por um momento.

"Isso foi… estranho."

"Ela nunca demora para atender."

A Harpia Sempre Pronta

Eles então se dirigiram ao quarto de Marie Ichikawa. A resposta foi um contraste brutal. A porta se abriu quase antes de Ryan terminar de bater. Marie estava em pé, impecável como sempre, mesmo em roupas casuais — calças de linho creme e uma blusa de seda azul-petróleo. Em suas mãos, um livro de capa dura: "Geografia Urbana e Fluxos de Poder no Distrito de Kabukichō, pós-1970". Ela o fechou com um clap decisivo.

"Senhor Goveia, Shiro-kun. À que devo o prazer?"

Ryan explicou o plano e a aprovação já obtida.

Um brilho de interesse profissional acendeu os olhos de Marie. "Excelente iniciativa. A ociosidade começava a ser entediante." Seu olhar então percorreu os dois, de cima a baixo, e seu nariz delicado pareceu contrair-se levemente. "Antes de qualquer coisa, porém, sugiro que utilizem os chuveiros. Estão exalando… eflúvios pós-operacionais bem característicos."

Shiro, instintivamente, levou a manga do hoodie ao nariz e cheirou. Ryan riu. "Prioridades da Harpia."

"Por falar nisso… a Boucher. Ela parecia… meio fora do ar. Demorou uma eternidade para atender."

"Quantas batidas?"

"Três. Depois mais algumas. Demorou uns dois minutos no total."

O rosto normalmente impassível de Marie mostrou uma fenda de genuína surpresa. Seus lábios se entreabriram. "Isso… não é padrão operacional dela. Nem um pouco."

"Talvez ela esteja levando o 'descanso' a sério desde já. Você sabe como ela é. Decidiu algo, mergulha de cabeça."

Marie considerou a hipótese, seus dedos finos tamborilando na capa do livro. "Faz sentido. É típico dela. Tomara que seja apenas isso, e não… mais um sintoma do dano." Sua voz ficou suave na última palavra.

Shiro balançou a cabeça, um gesto rápido de negação. Ele não queria alimentar aquela linha de pensamento.

"Você é dura demais, Ichikawa! Vamos ser otimistas. Agora, vamos. Banho rápido. Encontro vocês na garagem em trinta minutos. Não se atrasem."

Os Olhos da Harpia

A alta manhã de Shinjuku engoliu o carro compacto que Marie dirigia com uma calma que era quase sobrenatural. Ela era uma maestrina do tráfego de Tóquio, deslizando entre faixas e aproveitando semáforos com uma antecipação que parecia psíquica.

"Próximo à esquina, Ryan-kun. A loja de conveniência com a placa azul. Pertence ao clã Matsuba. Observe o homem fumando fora. Postura relaxada demais para um vigia. Ele está entediado. Ponto fraco."

"À direita, Shiro-kun. O 'love hotel' Rosa. A saída de serviço no fundo dá para um beco que conecta com a rua atrás do cassino. Uma rota de fuga provável. Anote."

Ela os conduziu em um périplo silencioso e eficiente, seu conhecimento do território não era apenas estudado; era internalizado. Ela lia a cidade como um mapa vivo de influências e fraquezas.

O alvo principal, um prédio discreto anunciado como "Centro de Mahjong Lucky Koi", foi examinado minuciosamente. Ryan, com seu olhar de observador social, e Shiro, com sua percepção ninja para padrões anormais, trabalharam em dupla. Foi Shiro quem, escalando silenciosamente uma escada de incêndio adjacente, capturou com uma microcâmera um fragmento de conversa entre dois homens em um escritório no terceiro andar.

A informação foi crucial:

Yamazaki não era o cérebro.

Ele era o rosto, o braço direito de um oyabun mais antigo e astuto chamado

Soramachi,

que havia se "aposentado" concedendo a Yamazaki o comando nominal,

mas permanecendo como conselheiro oculto —

e provavelmente, o verdadeiro beneficiário.

Eles mapearam todas as entradas, saídas, pontos de vigilância. Expandindo o raio, familiarizaram-se com cada estabelecimento suspeito em dois quarteirões: um bar izakaya que fechava tarde demais, uma casa de câmbio com grades pesadas, um clube de vídeo-pachinko. Saberiam, durante o ataque, para onde os coelhos poderiam correr ou de onde as raposas poderiam surgir.

Satisfeitos, retornaram ao hotel. A sensação era de dever cumprido, de terem roubado uma pequena vantagem das sombras.

Notícias da Outra Frente

No lobby do Shinagawa Prince, porém, uma surpresa os aguardava. Amélie Boucher estava sentada em uma poltrona de couro, não mais a figura sonolenta de horas atrás. Ela estava alerta, vestida com jeans e um suéter, e o brilho em seus olhos era de triunfo contido.

"Acabaram de chegar a tempo. Mamoru acabou de mandar o relatório preliminar. Missão Jogo Mortal, em Sarushima. Coordenada pela Yunuen. Foi um sucesso absoluto. Limpo, eficiente, e com um bônus estratégico que nem esperávamos."

O cansaço do reconhecimento pareceu evaporar. Naquele momento, sob a luz suave do lobby, não eram apenas agentes retornando de uma missão de vigilância. Eram membros de uma equipe que, em múltiplas frentes, estava começando a virar o jogo.

E o sorriso de sua comandante, genuíno e carregado de orgulho, era a melhor recompensa que poderiam receber.

Planos traçados, peças posicionadas,

o tabuleiro se expandia de Tosa a Quioto,

de Shinjuku a Sarushima.

A Stargazer estava jogando em todas as frentes.

21 de Julho de 1989 — Shinagawa Prince Hotel, Tóquio

A Humilhação de Ryuji Yamazaki

Parte 3: Boas Novas, Velhos Instintos



O almoço no restaurante do Shinagawa Prince foi uma refeição leve, mas o ar estava carregado de uma expectativa diferente. Boucher havia recebido as transmissões da manhã via canal seguro — uma pilha de folhas de papel fax trazidas pessoalmente por Jenishiro Imigata dos Road Roaders, sujas de óleo de moto, mas seladas. A tecnologia de ponta da Stargazer, em 1989, ainda dependia de máquinas de escrever, papel carbono e a fidelidade de motoqueiros.

Notícias de Sarushima

"Temos atualizações de Sarushima. O relatório final da Yunuen chegou."

Os agentes pararam de comer. A Operação "Jogo Mortal" era um espectro distante, mas crucial.

Ela pincelou os pontos altos: o desmantelamento total do Nihon Hiro, a destruição da ilha, a neutralização de Michael Poser. A coleta de evidências… "Provas o bastante para, no mínimo, arrastar a reputação da Colorchem — e por extensão, da Star — para a lama. Terminação é uma possibilidade real. Expusemos uma rede de corrupção: policiais, empresários, políticos. Muitos deles, como era de se esperar, têm ligações com a Ichiwakage-gumi."

Shiro, que conhecera o espião soviético durante a missão americana, fixou-se em uma frase.

"E o 'falecido Vostok'?"

A expressão de Boucher suavizou-se por uma fração de segundo.

"Infelizmente, perdido em ação. Um sacrifício que garantiu a vitória e a fuga dos civis."

Era a linguagem fria dos relatórios, mas sua voz carregava o peso de uma baixa aliada.

Ryan Goveia baixou a cabeça em um gesto silencioso de respeito por um camarada de sombras que nunca conhecera direito. Marie murmurou um "Dommage" (uma pena) que era a quintessência da elegância cortês sob luto.

O Tabuleiro Iluminado

Mas Amélie Boucher não era feita para ficar nos obituários. Seu motor era a ofensiva. "O mais importante é que essas evidências conectam o porto de Shinkawa — aquele que limpamos — diretamente ao tráfico do Nihon Hiro. É propriedade dos Ichiwakage."

Um sorriso lento, predatório, começou a se formar em seus lábios.

Era um sorriso que mostrava todos os dentes,

não de alegria, mas de pura e calculada malícia estratégica.

"Se — e quando — essas informações vazarem para a grande mídia… o Japão inteiro ficará contra os Ichiwakage-gumi. O porto que nós atacamos será visto como um ninho de víboras que nós destruímos. Hanayama e Takumi podem sair daqui como… heróis nacionais. E os Ichiwakage serão tratados como uma ameaça à soberania japonesa."

Ela soltou uma risada baixa, gutural.

"Vou endossar o pedido da Yunuen de liberar os Arquivos. Isso é bom… e ruim. Malditos Takumi!"

Marie soltou uma risada, um som raro e um tanto descomposto para seus padrões, um breve escapamento de tensão e divertida compreensão. Ryan fez uma expressão de quem estava tentando conectar os fios. Shiro apenas coçou a cabeça, perdido na lógica francesa.

"Bom e ruim? Por quê?" o jovem ninja perguntou.

O olhar de Amélie brilhou com o fogo de quem acabara de encontrar um adversário à altura.

"Os Takumi estão crescendo rápido demais. Ichida deixou seu cão de guarda, Kaishakunin, solto em Tóquio. Isso significa que ele se sente muito seguro em Osaka. Ele prometeu um 'grande contingente' após o sucesso no porto. Hoje veremos quantos homens ele realmente traz."

Ela fez uma pausa, deixando a implicação pairar.

"Dependendo do número… podemos medir o poder real dos Takumi. E se for grande demais, nosso amigo Ichida pode se tornar um aliado… problemático no futuro. Um jogador ambicioso com um exército próprio é sempre uma variável perigosa."

"Ah! Pensava algo parecido. A demonstração de força é também um aviso."

"Notei a ostentação, mas não liguei os pontos. Você vê, garoto? Bandido é bandido. Amizade é uma coisa, negócios são outra."

"Exatamente. L'amitié est une chose, les affaires en sont une autre. E Ichida é, acima de tudo, um empresário. Um bandido-empresário." Ela deu um suspiro exageradamente feminino, um contraste deliberado com a frieza de suas palavras. "Parece que o nosso querido Roland Inagi finalmente terá uma missão digna de seus talentos. Mandarei ele dar uma olhada em Osaka. Ver o que o nosso 'amigo' realmente está construindo lá."

A conversa fluiu para amenidades, mas o subtexto estava claro. A vitória em Sarushima era um raio que iluminava todo o tabuleiro de xadrez, revelando peças e alianças em uma nova luz. Boucher ordenou que todos lessem o relatório da Yunuen para entenderem as ramificações. A guerra não era mais apenas em becos e portos; agora também se travava nos jornais e nos corredores do poder.

◆   ◆   ◆
Notícias de Kobe

Pouco antes da reunião no Libidine, Eloïse retornou, trazendo notícias da base em Kobe. O clima era de euforia contida pelo sucesso de Yunuen, mas sombreado pela perda de Vostok e pelo estado abalado dos sobreviventes resgatados — Victor, Mari e os civis que agora eram, para todos os efeitos, parte do ecossistema Stargazer.

"Estão todos seguros, mas… é uma tempestade de emoções lá," resumiu Eloïse, mascando seu chiclete de gengibre com uma expressão séria.

Bien Habillés

Agora, era hora de apresentar uma fachada de força. Boucher deu a ordem: "Bien habillés." Bem vestidos.

Shiro — A Sombra Respeitável Seus cabelos loiros tingidos, antes espetados, estavam penteados para trás com gel, domados. Ele vestia um conjunto esporte fino totalmente preto, limpo e discreto — a sombra feita respeitável.
Ryan Goveia — O Artista Havia amarrado seus longos cabelos em um coque samurai impecável. Um blazer esportivo sobre uma camisa polo sóbria e calças de corte clássico completavam o visual de um empresário ou um artista de renome — perfeito para se perder em qualquer cenário.
Amélie Boucher — A Executiva Implacável Optou pelo business-chic implacável. Uma camisa de gola rolê em bege e preto com padrões geométricos austeros, uma saia-pincel com um discreto — mas calculado — vão na barra, meias-calças opacas e sandálias de salto que eram armas tanto quanto acessórios. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo tão meticuloso que parecia desenhado com régua, sua maquiagem um escudo de cores neutras e profissionais.
Marie Ichikawa — A Declaração Um vestido social na cor amarelo-ouro, ousado e magnético, sobre o qual usava uma jaqueta de couro vinho. Meias-calças e botas de cano alto uniam o glamour à praticidade letal. Ela não se vestira para passar despercebida; vestira-se para ser lembrada e respeitada.
Eloïse Garnier — A Guardiã do Carro Abençoada com a desculpa de ficar de guarda no carro, agradeceu aos céus por suas jeans, jaqueta de couro surrada e sua camiseta dos Rolling Stones.

O tabuleiro estava montado.

As peças estavam vestidas para a guerra.

O Libidine os aguardava.

21 de Julho de 1989 — Libidine & Shinjuku, Tóquio

A Humilhação de Ryuji Yamazaki

Parte Final: O Rugido e o Silêncio



A Demonstração de Força

O Libidine à luz do dia era um lugar diferente, mas a energia na sala de reuniões era palpável. E viram a demonstração de força dos Takumi.

Kaishakunin não trouxera um esquadrão; trouxera um pelotão.

VINTE E SEIS HOMENS

todos com a postura rígida de veteranos, ocupavam o espaço.

Era um contingente maior do que todos os Hanayama presentes e estava sendo enviado para um "simples" ataque a um cassino.

A mensagem era clara como o corte de uma katana:

Olhem o poder de Osaka.

Os Aizukotetsu, agradecidos e agora leais, haviam enviado seis de seus homens — os sete resgatados, menos um que fora punido por sua família por ter colaborado com os Ichiwakage. Os Hanayama, sabiamente, não enviaram ninguém; seus homens estariam defendendo seus territórios das retaliações que o ataque ao porto certamente traria.

O plano foi traçado com eficiência brutal. Ataques escalonados: primeiro o cassino, para causar dano máximo e financeiro; depois, ataques mais simbólicos aos Matsuba, na esperança de que a demonstração de força os fizesse reconsiderar sua lealdade.

Ryan, Marie e Shiro receberam suas ordens: fantasmas, olheiros, os sentinelas nos telhados e nas sombras. Sua missão era observar, reportar movimentos suspeitos, reforços inimigos, rotas de fuga, e comunicar oportunidades ou perigos diretamente a Kaishakunin e ao líder dos Aizukotetsu.

Enquanto isso, Boucher se preparava para a verdadeira jogada da noite: uma reunião de cúpula privada com Kaoru Hanayama e Kinzaki. Eloïse, em seu Corolla, seria sua linha de fuga e seu anjo da guarda motorizado.

Enquanto os planos táticos eram finalizados, a mente de Amélie já trabalhava em múltiplas camadas. O relatório de Yunuen, o poderio dos Takumi, a fragilidade mascarada dos Ichiwakage, a promessa de um aliado em Minato City… Era um quebra-cabeça complexo, mas pela primeira vez desde a morte de Shintô, todas as peças pareciam estar caindo no lugar, movidas por uma mistura de sangue, astúcia e pura sorte de guerreira.

O jogo estava longe de terminar, mas o vento, finalmente, parecia estar soprando a seu favor. E Amélie Boucher, com seu sorriso de loba e seu olhar calculista, estava pronta para navegar nele.

◆   ◆   ◆
O Centro de Mahjong Lucky Koi

O ar em Shinjuku, em julho de 1989, era uma mistura úmida de gases de escapamento, água das ruas evaporando e promessas falsas de néon. O "Centro de Mahjong Lucky Koi" era mais um desses faróis falsos: um prédio discreto de concreto, onde a fachada legítima de mesas de pachinko e telhas de Mahjong escondia, nos andares superiores, o "Cassino Sorimachi".

Por dentro, era uma cápsula do tempo do gokudō clássico. A iluminação era baixa, filtrada por abajures de opala e cortinas pesadas. A fumaça do tabaco dançava em colunas espirais sob as luzes de lustres falsos, misturando-se ao cheiro de madeira encerada de painéis escuros, uísque caro e um leve tom de suor nervoso. O ruído era um zumbido constante — o tilintar hipnótico das moedas de pachinko vindo do andar térreo, o baralho sendo embaralhado com estalidos secos, o sussurro baixo de apostas e as explosões ocasionais de vozes de homens que bebiam muito ou perdiam mais do que podiam. Roupas caras esfregavam-se contra as de linhas duras de suéter. Era um lugar onde o dinheiro parecia um rio sem fim e a decadência, um luxo.

Fantôme para Kaishakunin:

"Movimento no estacionamento traseiro. Dois, quatro… oito veículos. Yamazaki-gumi. Eles não estão dentro. Estão se agrupando do lado de fora. Parece que esperavam por nós."

No coração do estacionamento mal iluminado, Kaishakunin ouviu a mensagem. Um sorriso feroz, quase feliz, cortou seu rosto desfigurado. O inimigo queria um contra-ataque? Ele lhes daria uma guerra, mas em seus termos.

"Mudança de plano. Não vamos procurá-los na toca. Vamos esmagá-los aqui, onde não podem esconder seus canos longos."

Era uma decisão brutal e correta. No espaço aberto e confinado do estacionamento, armas de fogo eram um risco para ambos os lados. A batalha regrediria a sua forma mais primitiva: aço contra osso.

A Batalha no Estacionamento

A investida foi um choque de titãs. Os Yamazaki, surpreendidos ao serem atacados antes mesmo de entrarem em formação, recuaram para trás de carros. A luta eclodiu em pequenos focos de pura selvageria.

E Yamazaki estava lá. Não era mais o playboy de casaco de peles; era uma fera encurralada. Ele lutava com a fúria desesperada de um homem que sabe que está perdendo seu reino. Seu corpo, bem cuidado, escondia uma força brutal de rua. Um Takumi atacou com uma barra de ferro; Yamazaki se esquivou, agarrou-o pela nuca e esmagou seu rosto contra o para-choque de um Toyota Crown, uma, duas, três vezes, até o osso ceder com um som úmido. Outro, mais jovem, tentou agarrá-lo por trás; Yamazaki girou, uma faca surgiu em sua mão, e ele desferiu uma saraivada de estocadas baixas e rápidas no abdômen do homem.

SHICK-SHICK-SHICK-SHICK

O som era de um açougueiro trabalhando rápido. O Takumi caiu, tentando segurar suas próprias entranhas.

Kaishakunin, por sua vez, era uma tempestade de força bruta personificada. Ele ignorava os golpes que recebia — facadas nos braços, garrafadas na cabeça — como se fossem picadas de insetos. Seus punhos, do tamanho de martelos de demolição, desciam com força esmagadora. Uma cabeçada que partiu um nariz em estilhaços. Um soco no peito que fez um yakuza vomitar sangue antes de cair. Ele agarrou um homem pela cabeça e o lançou através do pára-brisa de um carro, o vidro estilhaçando-se em mil estrelas de segurança.

Shiro para Kaishakunin:

"Grupo de cinco, saindo pela porta dos fundos da cozinha! Podem buscar reforços no bordel Matsuba a duas quadras!"

Kaishakunin, com o rosto salpicado de sangue, não precisou dar ordens. Seis sombras, leves e silenciosas, destacaram-se da batalha. Os Aizukotetsu-kai. Movendo-se com a elegância de guerreiros que retornavam à sua honra, eles interceptaram o grupo de fuga no beco escuro. Não houve grande luta; houve apenas a eficiência silenciosa da vingança pessoal. Em segundos, os Yamazaki que tentavam fugir estavam no chão, imobilizados ou inconscientes.

Yamazaki, vendo seus homens cair, seu plano de contra-ataque desmoronar e a força avassaladora dos Takumi, calculou friamente. A fúria em seus olhos deu lugar ao pragmatismo gelado de um sobrevivente. Gritou uma ordem de retirada. Seus homens, os que ainda podiam, arrastaram-se ou correram para a escuridão. Ele mesmo recuou, não para fugir, mas para subir as escadas internas. Tinha um dever maior: proteger Sorimachi, o oyabun aposentado, a verdadeira mente. Ele se trancou na sala do velho, ouvindo, impotente, enquanto o inferno se abatia no andar de cima.

O Saque

O saque ao cassino foi metódico e completo. Os Takumi, agora livres da resistência, invadiram o salão de jogos. O tilintar de moedas foi substituído pelo estilhaçar de mesas de baccarat, o rasgar de tecidos de veludo, o estrondo de máquinas de caça-níqueis sendo derrubadas. O ar fino de perfume caro e charuto foi contaminado pelo pó de gesso e o cheiro de medo.

Yamazaki, na sala silenciosa com Sorimachi, ouvia cada estrago, cada grito de vitória dos invasores. Seus dentes rangiam com tanta força que pareciam prestes a se partir.

◆   ◆   ◆
A Mensagem aos Matsuba

Os ataques aos estabelecimentos Matsuba foram, como planejado, simbólicos, mas não menos eficazes. Um coquetel molotov arremessado contra uma vitrine de loja de conveniência, não para incendiar, mas para estilhaçar vidros e espalhar o terror entre clientes. Um funcionário recebeu um único e preciso soco no plexo solar que o deixou se contorcendo no chão por longos minutos, uma lição dolorosa. No bordel de médio padrão, a governanta, uma matrona endurecida, teve seu orgulho quebrado com uma série de estaladas firmes e humilhantes diante das garotas aterrorizadas.

A mensagem não era de aniquilação, mas de lembrança:
Sabemos onde vocês estão. Podemos chegar quando quisermos.

◆   ◆   ◆
A Madrugada no Shinagawa Prince

De volta ao Shinagawa Prince Hotel, na alta madrugada, o cansaço era profundo, mas o ar estava limpo da tensão pré-batalha. Amélie Boucher os recebeu no lobby quase vazio. Seu olhar percorreu Ryan, Marie e Shiro, buscando ferimentos, encontrando apenas a fadiga satisfeita do dever cumprido.

"Excelente trabalho. Observação precisa, comunicação eficiente. Vocês foram o diferencial."

Ela então se voltou para Shiro. "Shiro, sua missão conosco termina aqui. E muito bem cumprida. Vou para Tosa amanhã. É caminho de Kobe. Uma carona até a base?"

Shiro sentiu uma pontada estranha — não de alívio por partir, mas de uma espécie de saudade antecipada daquele caos organizado. "Agradeço, Comandante. Aceito."

"Bom. Aproveite o caminho para descansar. E lembre-se: faça as pazes com o Tanaka. Visite o clã. E… há uma nova turma na base. Os amigos da Mari. Acho que vocês devem ter idades parecidas. Faça-os se sentir… em casa. Integre-os."

Shiro a olhou, vendo pela primeira vez não a comandante de aço, mas a mulher que se preocupava com o tecido humano de sua equipe. Ele riu, um som descontraído. "Você fala como se fosse uma velha preocupada, Boucher."

A gargalhada que ela soltou foi alta, genuína e cheia de vida, ecoando no lobby silencioso.

"Tais-toi, petit!"

(Cala a boca, garoto!)

Ela riu, avançando e desferindo uma série de soquinhos rápidos e leves — o último um pouco mais forte — no peito dele.

Era um gesto de caserna, de irmã mais velha bruta,

completamente francesa e completamente dela.

Shiro riu também, esfregando o local. O gesto, que teria sido uma afronta mortal em Iga, aqui soava como um selo de aceitação.

O caos estava terminando, por ora.

Novos caos, novos aliados problemáticos e velhas feridas o aguardavam.

Mas naquela madrugada, com o cheiro de fumaça e néon ainda pairando em suas roupas

e o eco da risada da comandante no ar,

tudo parecia, por um momento, incrivelmente simples.

Eles haviam vencido.

Fim

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