Manuntenção Preventiva

Manutenção Preventiva

20 de Julho de 1989

O "Shopping" da Base Stargazer — 23:47h

Protocolo de Silêncio Luz Baixa



Cena: Alguns dias após o funeral de Geffords. A Pesquisa e Desenvolvimento da base está quase vazio, a luz é baixa, todos estão almoçando. Mas Laura está sentada em um banco, desmontando e remontando um rádio militar velho, suas mãos trabalhando em um ritmo mecânico, quase febril. Ohm, seu gato, observa de cima de um armário. Shinji Tanaka sentiu sua falta no refeitório e foi procurá-la. Ele a encontra e se aproxima, com uma expressão de preocupação contida. Ele traz dois copos de café.

Tanaka

(Coloca um copo ao lado dela no banco) A oficina está muito silenciosa, Faith. Até o Ohm parece pensativo.

Laura

(Sem olhar para cima, seus dedos giram um parafuso minúsculo) O silêncio é um sinal de que nada está quebrado, Tanaka. Por enquanto. (Ela para por um segundo, segurando o parafuso com muita força) Exceto tudo.

Tanaka

(Senta-se ao lado dela, olhando para as mãos dela trabalhando) O relatório para a família do Geffords foi despachado. A versão das Filipinas.

Laura

(Um espasmo quase imperceptível percorre sua mão) O Cabo Elmer Santos. Herói filipino. Parceiro no comboio. (Ela solta uma risada curta, rouca, sem humor) Sabia que eu fui designada para a Força-Tarefa de Auxílio Humanitário em Okinawa, em '85? Após o tufão. Tinha um soldado filipino anexado à nossa unidade. Um cara quieto. Bom com motores. Salvou um gatinho de dentro de um veículo inundado. (Ela finalmente olha para Tanaka, seus olhos azuis-claros parecem translúcidos, vidrados) Ele não se chamava Elmer Santos. Mas poderia.

Tanaka

(Assente lentamente, entendendo o rumo) Laura...

Laura

(Interrompe, sua voz fica mais firme, como se estivesse anunciando uma mudança de protocolo) É isso. A partir de agora, no registro interno, nos meus esquemas, nas minhas ferramentas... Vou adotar o nome. Laura Elaine Faith Elmer Santos. (Ela diz isso com uma precisão técnica, como se estivesse rotulando um componente) Meus filhos, se eu tiver algum, vão ser "Algo" Faith Elmer Santos. Meu marido... bem, terá que aceitar que seu sobrenome virá depois do "Santos". É a ordem lógica.

Tanaka

Laura, você não precisa carregar isso sozinha. O Geffords fez o que qualquer um de nós faria. Ele te protegeu porque você é vital para esta equipe. Para esta missão.

Laura

(Ela pega o copo de café, mas não bebe. Segura como se fosse uma ferramenta desconhecida) Eu sei da lógica, Tanaka. Custo-benefício. O especialista em munições é mais dispensável que a única engenheira elétrica que consegue manter este bunker antigo funcionando e decifrar os transmissores da Star Corp ao mesmo tempo. (Ela olha diretamente para ele) Eu sei. Mas a lógica não conserta um curto-circuito no sistema emocional, entende? O Ryan... ele era a pá de cal que impedia o cimento daqui de rachar de vez. Ele era o café na hora certa, a piada idiota que tirava a pressão do ar, a voz, meu Deus Tanaka, ele era o Tenor!. Ele era a pessoa.

Tanaka

(Fica em silêncio por um momento, respeitando a dor dela) E Elmer Santos?

Laura

(Ela coloca o copo de volta no banco com um clique seco) Elmer Santos é a fiação de segurança. É o fusível que eu insiro na história para que o circuito não entre em colapso total. Se a mentira diz que um soldado filipino chamado Elmer Santos estava lá, e o Ryan morreu protegendo ele... então eu sou o Elmer Santos. (Ela ergue a mão, mostrando as marcas de solda e os pequenos cortes) Estas mãos que ele protegeu. Este cérebro que ele considerou valer a pena salvar. Eu carrego o nome. Eu completo o circuito da mentira, faço ela ter um eco de verdade. É a única manutenção que eu consigo fazer nele agora.

Tanaka

(Estende a mão e coloca-a firmemente sobre o ombro dela, um gesto raro de sua parte) Então o Cabo Laura Santos está de serviço. (Ele fala com um tom de comando suave, aceitando os termos dela) Mas lembre-se do regulamento, Cabo. Nenhum soldado em minha equipe trabalha com equipamento emocional sobrecarregado. Você vai passar pela Dra. Kang. Você vai falar sobre o gatinho em Okinawa, sobre o Ryan, sobre o fusível que você está carregando. Isso é uma ordem.

Laura

(Ela não se afasta do toque. Um leve tremor percorre seus ombros, mas então ela assente, uma única vez, crispada) Sim, senhor. Manutenção preventiva. (Ela pega o rádio novamente, seus dedos encontrando o próximo parafuso) O Ohm pode participar das sessões? Ele é um bom ouvinte.

Tanaka

(Levanta-se, um quase-sorriso nos lábios) Desde que ele não tente consertar o divã da Dra. Kang com suas garras. (Ele começa a se afastar, depois para) E, Laura? Obrigado. Por ser o Elmer Santos. É um bom nome.

Laura

(Ela não olha para trás, mas sua voz é um pouco menos áspera) Não me agradeça. Apenas me passe os schematics quando precisar que algo exploda... ou pare de explodir.

(Tanaka sai, deixando-a com seu rádio, seu gato e o peso duplo de um nome que agora carrega. Ela sussurra para as ferramentas, ou talvez para Ohm.)
Laura

(Sussurrando) Tudo certo, Ryan. O fusível está no lugar. O circuito está fechado. Agora vamos ver se consigo fazer essa porcaria funcionar direito.

◆ ◆ ◆
Fim da Cena

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