Operação Lufada - Fase 2

Operação Autorizada

Operação Lufada


Fase 2: O Golpe na Escuridão

20 de Julho de 1989 — Tóquio, Japão

2000h
No Covil do Leão
Stripclub Libidine, Tóquio. O Libidine cheirava a cera de piso barata, fumo velho e desespero com perfume. Luzes roxas e âmbar escorriam pelas paredes com falsos relevos greco-romanos — deusas de gesso com expressões vazias observando a sala vazia. Os palcos estavam desligados, as cadeiras de veludo vermelho, vazias. Era o esqueleto de um lugar de prazer, esperando o próximo espetáculo.

No centro, cercado por sombras que se moviam com a discrição de fantasmas, estava Kaoru Hanayama. Sentado em um trono improvisado — na verdade, uma poltrona de couro preto — ele era uma montanha de músculo e cicatrizes. Seus olhos, estreitos e calculistas, percorriam a sala como um general inspecionando tropas duvidosas. Ao seu lado, sempre um passo atrás, Kinzaki — mais sombra que homem, lealdade feita carne.

Hanayama não entendia o negócio. Strip clubs, shows, a dança frívola do desejo… eram ruídos distantes. Mas eram negócios dos Hanayama agora, e negócios deviam funcionar. Ainda tinha que resolver a questão do coordenador, um homem sorridente demais para ser confiável. Mas isso poderia esperar. Agora, tinha os estábulos e clubes dos Nagano — algo sólido, tangível, digno. E devia tudo àquela mulher de olhos frios e sorriso raro. Lembrou do beijo. Um toque leve na bochecha rachada, maternal e letal ao mesmo tempo. Sentimentos confusos fermentavam em seu peito. Ela seria útil. E… sua companhia o agradava.

2015h
Os Aliados Chegam

Primeiro veio Abe "Kaishakunin" Haruto, uma torre de mármore vivo vestida de branco imaculado. A cicatriz que partia sua orelha, cortava a mandíbula e sumia no pescoço brilhava sob a luz roxa como uma segunda boca. Quatro homens o seguiam — todos com a postura rígida de quem conhece o peso de uma katana nas costas.

Um dos mais jovens, nervoso, encarou a cicatriz. "Haruto-san… essa marca…"

Kaishakunin virou a cabeça lentamente. "Tentaram arrancar meu rosto com uma espada." A voz era um rosnado de pedras sendo arrastadas. "A espada quebrou. Ossos de adamantium."

O jovem franziu a testa. "Ossos de… adamantium?"

Um sorriso feroz cortou o rosto desfigurado de Kaishakunin. "Tem uma história americana. Um mutante. Logan. Um Gokudō canadense. Tem garras de adamantium, três espadas em cada mão." Ele ergueu um punho, os nós dos dedos parecendo pedras. "Arranca a cabeça de uma Sentinela com um corte só. SNIKT!"

O punho disparou, parando a um milímetro do queixo do jovem. A onda de choque do movimento fez o rapaz recuar dois passos, ofegante. Kaishakunin riu, um som seco. "Fica esperto."

No canto oposto, Chizue Harada estava sentada em uma cadeira, pernas abertas, o bastão de beisebol metálico plantado entre elas. Seus óculos escuros refletiam as luzes mortas do palco. "Nem show tem agora", ela reclamou para ninguém em particular, a voz carregada de tédio profundo. "Que saco!"

Ao seu lado, Seong Su-On estava em pé, imóvel como uma estátua. Vestia apenas uma calça de moletom, seu torso atlético exposto, os braços cruzados. Não falou. Apenas deu um leve encolher de ombros, os olhos vazios escaneando as sombras.

A porta do fundo se abriu.

2020h
A Stargazer Entra em Cena

A porta dos fundos do clube se abriu, deixando entrar uma lâmina de ar noturno e umidade. Quatro figuras surgiram.

Amélie Boucher entrou primeiro, sua presença mudando a pressão da sala. Ela vestia um casaco escuro sobre roupas táticas, seu cabelo dourado preso em um rabo de cavalo severo. Seus olhos escuros, apertados, fizeram uma varredura instantânea, catalogando cada pessoa, cada ângulo, cada sombra. Atrás dela, deslizando como uma extensão da penumbra, veio Shiro, suas roupas largas e desbotadas fazendo-o parecer menor do que era. Em seguida, Eloïse Garnier, com seu andar descontraído de piloto, mastigando chiclete com um pop discreto. E, por fim, Ryan Goveia, o "Fantasma", que simplesmente pareceu materializar-se a partir do corredor escuro, sua mala de couro na mão, um observador silencioso que todos notaram apenas quando ele já estava lá.

Chizue foi a primeira a se mover. Levantou-se com a fluidez de um predador, seu bastão tilintando levemente contra o chão. "Boucher", chamou, a voz carregada de uma frieza que era 50% teatro, 50% aço. "Sora não vem. Tem uns planos em Tóquio. Disse que 'pode ou não pode te ajudar'. Típico dele." Ela encostou o bastão no ombro. "A gente veio porque você pediu. E porque bater em Yakuza é mais divertido que servir sake. Mas sabe como é... depois, a gente acerta as contas."

Amélie acenou com a cabeça, um gesto cortês e calculado. "O Clube terá minha gratidão. E meu débito." Ela entendeu a linguagem: violência por violência, favor por favor.

Em seguida, ela se dirigiu ao grupo de branco. Kaishakunin virou-se, e um sorriso quase imperceptível tocou seus lábios duros. "Yuki no Onna", ele cumprimentou, usando o nome pelo qual a conhecia na época da aliança com os Nagano. "Parece que não precisarei lhe espancar."

Amélie retribuiu o quase-sorriso. "Parece que não precisarei lhe convencer a fazer algo que acabaria lhe matando, Kaishakunin-san. Os Takumi ainda querem sua parte de Tóquio, eu presumo?"

"Os Ichiwakage podem parecer fortes, mas irão ruir feito um castelo de cartas. É hora de limpar a casa. Eles têm algo que o oyabun Ichida quer. Vamos pegar."

Antes que ela pudesse responder, um movimento no camarote chamou sua atenção. Kaoru Hanayama descera, cada passo um terremoto contido. Seus homens se abriram como o Mar Vermelho. Ele parou diante de Amélie, e por um segundo, a formalidade rígida do chefe Yakuza pareceu vacilar. Ele inclinou a cabeça, um pouco mais profundamente do que o protocolo entre aliados de conveniência exigia.

Amélie, percebendo o risco para sua autoridade, curvou-se ainda mais baixo, transformando o gesto em um sinal de respeito ao anfitrião. "Hanayama-oyabun", sua voz era clara, respeitosa. "Sua hospitalidade é honrada."

Kinzaki, salvá-lo, avançou, sua voz projetando-se no salão vazio. "O oyabun Hanayama tem instruções. Queremos os Aizukotetsu vivos. Queremos o Kenji vivo. E pelo menos um de cada facção menor, também respirando. Traga-os aqui. Após os questionamentos... o oyabun fará uma visita aos Aizukotetsu em Quioto." Seu olhar encontrou o de Amélie. "Para convidá-los a se juntarem a uma aliança mais... lucrativa."

Amélie acenou. "Entendido. O ataque será preciso. Rápido. Cartões de visita serão deixados, creditando o oyabun Hanayama e o oyabun Ichida Takumi." Ela fez uma pausa, deixando suas próximas palavras pesarem no ar. "Confio plenamente nos métodos de interrogatório do oyabun. E sei que as informações extraídas serão compartilhadas com nossos... interesses mútuos."

Um sorriso genuíno, raro e terrível, iluminou o rosto brutal de Hanayama. Ali estava. A confiança. A lealdade demonstrada diante de seus homens. A pessoa que via além do monstro e do chefe. Ele deu um único aceno de cabeça, selando o pacto.

O momento foi quebrado pelo ronco abafado de um motor chegando à porta de serviço. Marie-Agnès Ichikawa entrou, a aura de elegância letal envolvendo-a como uma capa. Atrás dela, Guy-Renan Auclair preencheu o vão da porta, seu tamanho colossal fazendo o ambiente parecer encolher. Ele piscou contra a luz fraca, seus olhos se ajustando.

2030h
Os Termos

A voz de Kinzaki era um sussurro cortante. "Queremos os Aizukotetsu vivos. Todos, se possível. Kenji, vivo. Pelo menos um de cada facção menor, vivo. Traga-os aqui. Para… conversas."

Hanayama assentiu, seus olhos fixos em Amélie. Confiança. Expectativa.

"Após as conversas", continuou Kinzaki, "Hanayama-sama fará uma visita aos Aizukotetsu em Quioto. Para oferecer… alternativa."

Amélie manteve a expressão neutra. "O ataque será preciso. Rápido. Profissional. Isolamos os vinte e um, neutralizamos antes que a polícia chegue." Uma pausa. "E deixaremos cartões de visita. Para que saibam quem os atingiu."

Kinzaki sorriu, um movimento raro. "A lenda de Hanayama e Takumi cresce. Bom."

"Confio plenamente nos seus métodos de interrogatório", Amélie disse, olhando diretamente para Hanayama. "E confio que as informações serão compartilhadas."

Hanayama inclinou a cabeça uma vez, um gesto de nobreza antiga. O sorriso que lhe escapou era pequeno, quase tímido. Amélie havia provado lealdade. E ele acreditava nela.

A porta se abriu novamente.

2040h
O Gigante Gentil

Marie-Agnès Ichikawa entrou, impecável como sempre, seguida por Guy-Renan Auclair. O gigante corso parecia deslocar o ar ao seu redor. Seus 2,03m e 181kg preenchiam a porta, seus olhos castanhos escaneando a sala com a calma de um urso veterano.

Ichikawa cumprimentava seus pares com discrição e elegância, mas não Renan. Com um sorriso amplo e genuíno, ele abriu os braços e cruzou o salão direto para Ryan. "Fantasma!", bradou, envolvendo o homem mais magro em um abraço de urso que fez Ryan expelir o ar em um oof surpreso, mas sorridente. Em seguida, virou-se para Shiro, repetindo o gesto. "Tsukai! Bom ver você em pé!" Shiro, rígido por um instante, então relaxou, dando tapinhas desajeitados nas costas do gigante.

Renan então se virou para Eloïse. O abraço foi mais contido, quase delicado — seus imensos braços a envolvendo com cuidado, como se segurasse algo precioso. "Tetê. Sujo de graxa ainda, eu vejo."

Ela riu. "Sempre, mon géant. Pode apertar mais forte!"

Quando Renan se virou para Amélie, o impulso estava lá — os braços começaram a se abrir. Mas então ele congelou. Seus olhos encontraram os dela. Na base, era um aceno. Um toque no ombro. Um abraço? Era... demais? Muito pouco? Seu cérebro travou na etiqueta não escrita de sua amizade torta. O braço direito hesitou, descendo em um movimento estranho que começou como um abraço e terminou como um aperto de mão, sua mão esquerda subindo para tocar levemente seu cotovelo. Ficou um gesto híbrido, desengonçado e profundamente humano.

Amélie, que havia sutilmente se inclinado para o abraço, se endireitou e preencheu o vazio, fechando a distância para um abraço rápido, mas firme, batendo com a mão aberta nas costas largas dele. "Está tudo bem, Grand Guy", sussurrou em francês, só para ele ouvir.

Renan recuou, limpando a garganta, um rubor subindo por seu pescoço. "Estou um pouco... enferrujado", confessou para o grupo, sua voz um bumbo abafado. "Faz uns anos."

"É que nem andar de bicicleta", disse Ryan, sua voz suave como seda, um contraste perfeito com a de Renan.

Shiro acrescentou, tentando ser útil: "Eu o vi treinando com o próprio Lacroix. Então... não tem nada melhor que isso."

Amélie se aproximou de Renan, sua voz baixa, apenas para ele. "Você se sente apto? Não há vergonha em ficar na retaguarda."

Renan endireitou os ombros, seu rosto ficando sério. O embaraço desapareceu, substituído pela determinação do soldado veterano. "Apto e pronto, comandante", ele afirmou, sua voz agora firme. "É só a ferrugem do desuso. Vai cair no primeiro soco."

Ela segurou seu olhar por um segundo a mais, depois acenou. Aceito.

2050h
O Plano Final
Reunião no Libidine — Antes da Tempestade. O ar no Libidine pesava com o cheiro morno de cera de piso, perfume barato e o fantasma de cigarros antigos. Luzes cor de âmbar pingavam de candelabros falsos, iluminando colunas de gesso que fingiam ser mármore e afrescos desbotados de deusas gregas com sorrisos cansados. O palco vazio parecia um altar abandonado.

No camarote mais alto, onde a vista dominava o salão vazio, Kaoru Hanayama estava sentado como um Buda de concreto. Seus ombros largos quase tocavam as laterais do trono estofado em veludo vermelho. Kinzaki, seu wakagashira, permanecia ao seu lado direito, imóvel, os olhos escaneando o recinto com a precisão de um radar.

Hanayama não via beleza naquele lugar. Via números, rotas de contrabando, lealdades compradas. O Libidine era um tumor que herdou, e ele estava decidido a cauterizá-lo. Mas primeiro, precisava que ele funcionasse. Seus pensamentos, porém, vagavam para o estábulo de sumô, para as cinzas dos Nagano que agora guardava com respeito fúnebre. E para ela. Amélie Boucher. O beijo na bochecha marcada. Um toque maternal e letal que ficara gravado em sua pele mais profundamente que qualquer cicatriz de faca. Ele queria aquela força perto dele. Não como um troféu, mas como um farol. Alguém que entendesse a escuridão, mas que não se perdesse nela.

Kinzaki bateu palmas uma vez — um som seco que cortou o ar.

Todos se voltaram para o centro, onde um mapa de Shinkawa foi desenrolado sobre uma mesa de pôquer.

"Boucher", Kinzaki disse. "Explique novamente. Para todos."

Amélie avançou, seus dedos leves tocando os pontos no mapa. A luz roxa do strip club dava a seus movimentos uma qualidade de sonho febril.

"São vinte e um. Divididos em três grupos." Sua voz era clara, projetada, a voz de uma comandante no comando. "Grupo Um: Aizukotetsu-kai, de Quioto. Sete homens. Relutantes. Nosso alvo primário para captura."

Ela olhou para Hanayama, que assentiu.

"Grupo Dois: Clãs menores — Matsuba, Kanda, Inagawa. Sete homens. Cansados, desmoralizados. Alvos para neutralização rápida."

"Grupo Três: Yamazaki-gumi. O núcleo. Sete homens, liderados por Kenji. Arrogantes, incompetentes, mas com as armas. Alvos para humilhação."

Seu dedo apontou para os containers abandonados. "Entramos por aqui. Shiro e eu na ponta. Ryan, cobertura de sniper a partir deste armazém. Renan, você fica com Kaishakunin e seus homens — força de impacto. Rompemos a linha, separamos os grupos."

Ela se virou para Chizue e Su-On. "Vocês dois são a faca na costela. Entram pelo flanco sul quando o caos começar. Focam no Grupo Três. Bagunçam."

Chizue ajustou os óculos escuros, um sorriso selvagem em seus lábios. "Gosto de bagunçar."

Su-On apenas inclinou a cabeça uma vez.

"Eloïse e Marie", Amélie continuou, "ficam com os furgões aqui, aqui e aqui." Ela apontou três pontos de extração. "Quando ouvirem o código 'Tempestade Passou', avançam para coleta. Prioridade: prisioneiros vivos. Depois, nosso pessoal."

Ela olhou para cada rosto na sala — o gigante Hanayama, o desfigurado Kaishakunin, a selvagem Chizue, o vazio Su-On, seus próprios agentes: o fantasma Ryan, a harpia Marie, a motorista Eloïse, o ninja Shiro, e o colosso Renan.

"Objetivo não é massacre. É mensagem."

"Mostramos que os Ichiwakage são fracos. Que seus aliados podem ser comprados ou quebrados."

"Que Hanayama e Takumi são o futuro."

Ela fechou o punho sobre o mapa. "Entramos às 2300 em ponto. Estamos fora às 2315. Polícia chega às 2330, no mínimo. Temos quinze minutos para mudar o equilíbrio de poder em Tóquio."

O silêncio que se seguiu era carregado, elétrico. O ar cheirava a adrenalina e ambição.

Kaishakunin quebrou o silêncio, sua voz um rosnado satisfeito. "Bom plano. Simples. Direto. Como um soco no estômago."

Hanayama se levantou novamente, sua presença dominando a sala. "Façam com que doa." Seus olhos encontraram os de Amélie. "Para todos."

Amélie Boucher ergueu o queixo, seus olhos estreitos brilhando na luz roxa.

A Louve pronta para a caça.

"Vamos."

E a palavra ecoou como uma sentença.

Fora, Tóquio continuava sua dança de néon e sombras, inconsciente de que, em um strip club decadente, um vento frio acabara de começar a soprar em direção ao porto. E a tempestade se aproximava.
◆   ◆   ◆
[ OPERAÇÃO LUFADA — FASE 2 ]

Ataque ao Porto de Shinkawa

Parte 2: A Lufada

20 de Julho de 1989 — 23:00h



A chuva fina que caía sobre Tóquio naquela noite não era água, era tinta. Escurecia o asfalto, transformava as luzes de néon em manchas borradas de vermelho e azul, e fazia o ar pesado do porto feder a óleo diesel, salmoura e lixo industrial apodrecido. Os dois furgões não marcados deslizaram como tubarões cinzentos entre os armazéns abandonados de Shinkawa, seus faróis apagados, guiados apenas pelas formas fantasmagóricas dos contêineres empilhados contra o céu noturno.

Dentro do primeiro veículo, o ar era uma mistura de respiração controlada, o cheiro de lã molhada e borracha, e o leve aroma de chiclete de gengibre que Eloïse mascava com foco cirúrgico. Ela dirigia com as pontas dos dedos, sentindo cada poça, cada desnível do cais podre através do volante. Dirigindo o outro furgão, Marie Ichikawa ajustou o fino fio do comunicador que desaparecia em seu cabelo negro, impecável mesmo sob o capuz tático. Seus olhos, refletidos no vidro embaçado, eram dois poços de calma absoluta.

"Ponto de inserção Alfa em trinta segundos", a voz de Amélie ecoou nos ouvidos de todos, nítida e seca como um estalo de dedos. "Lembrem-se: silêncio, precisão, desunião."

No segundo furgão, o ambiente era diferente. O peso físico de Renan Auclair fazia o veículo inclinar-se levemente para o lado do passageiro. Ele ajustava as tiras de um colete tático que parecia ridiculamente pequeno em seu torso de colosso. Shiro, ao seu lado, era uma sombra dentro da sombra, seus dedos tremendo levemente enquanto ele verificava pela terceira vez os ganchos e as bolsas de seu traje ninja moderno. A máscara de Hannya — um demônio feminino de chifres e dentes arreganhados — repousava no colo, seu olhar vazio prometendo terror.

"Ferrugem vai sair, hein, Grand Guy?" sussurrou Ryan do banco de trás, sua voz um bálsamo na tensão. Ele mesmo estava vestido de preto fosco, suas mãos calmas repousando sobre um rifle de precisão desmontado.

Renan assentiu, um movimento pesado. "Vai sair no primeiro osso que eu quebrar."

Os furgões pararam. As portas se abriram sem um som.

E a equipe se derramou na noite úmida.

Eles eram fantasmas se materializando da chuva. Amélie liderava, seu movimento uma economia de força felina. Atrás dela, Kaishakunin e seus quatro homens eram manchas de branco imaculado no mundo sujo do porto — uma declaração de guerra aberta. Chizue e Su-On desapareceram instantaneamente entre as pilhas de contêineres, o primeiro tilintar metálico do bastão de Chizue sendo abafado pelo som da chuva.

O primeiro obstáculo eram os vigias da entrada: sete homens encostados em um container com logotipos desbotados da Colorchem, seus contornos embaçados pelo vapor que subia de uma lata de café sobre um pequeno aquecedor. Os Aizukotetsu-kai. Eles pareciam mais homens esperando um ônibus tarde da noite do que soldados. Um deles ressonava levemente.

Foi quando Kaishakunin avançou. Não foi uma aproximação furtiva. Foi uma afirmação. Seus passos pesados ecoaram no concreto molhado, deliberados, anunciando sua presença antes mesmo que sua silhueta maciça se separasse das sombras.

"Oy, bastardos preguiçosos."

A voz dele não foi um grito. Foi um trovão rolando baixo, carregado de um desdém tão profundo que cortou o sono como uma faca. Os sete homens se contorceram, as mãos voando para as suas armas. Mas congelaram.

Kaishakunin estava parado a três metros de distância, iluminado pela luz fraca de uma lâmpada de segurança quebrada. A chuva pingava de seu casaco branco, escorria pela cicatriz monstruosa em seu rosto. Ele não tinha desembainhado sua espada. Seus punhos, enormes e nodosos, estavam relaxados ao lado do corpo.

"Acordem e prestem atenção. Não façam alarde. Se tiverem meio cérebro, perceberam que estão cercados."

Ele inclinou a cabeça para um lado, os ossos do pescoço estalando.

"Os transformarei em carne moída se soltarem um pio. Entendido?"

Os quatro homens Takumi ao seu redor se espalharam, não em uma formação de ataque, mas em uma exibição de força. Suas katanas foram puxadas com um único shing sincronizado, as lâminas capturando a pouca luz e devolvendo-a como um sorriso mortal. Enquadravam Kaishakunin, fazendo-o parecer o núcleo de uma estrela de aço e violência.

O ar saiu dos pulmões dos Aizukotetsu. Eles reconheceram a estatura, a cicatriz, a aura de morte antiga e paciente. Estavam diante de Abe "Kaishakunin" Haruto. A lenda de Osaka. O Executor. Se ele quisesse, já estariam mortos. Mas ele queria conversar.

"Nós não somos inimigos dos Aizukotetsu-kai. E não queremos começar aqui. Vamos descobrir como eles trouxeram vocês para o lado deles. E juntos, vamos resolver."

Ele fez uma pausa, e a chuva preencheu o silêncio. Seus olhos, frios como pedras de rio, percorreram cada rosto.

"Não me importa realmente o motivo. Só quero que soltem suas armas com meus colegas, sigam por essa direção e entrem nos furgões que os esperam. Nenhuma gracinha no caminho."

Ele inclinou-se para frente, apenas alguns centímetros, e foi como se uma montanha se inclinasse sobre eles.

"Um contingente nosso está indo prestar uma visita aos seus líderes em Quioto enquanto falamos. Dependendo do comportamento de vocês, pode ser apenas uma visita de cortesia para resolvermos nossas diferenças... ou uma carnificina."

Ele fixou o olhar no homem mais velho do grupo, o líder, que o olhava como se fosse uma estátua, escondendo o medo que era denunciado nos nós brancos dos dedos pressionando o cabo de sua kanabo.

"Entendam. Vocês são pardais. Pardais enxergam longe do alto de seus poleiros e são aves corajosas."

Ele ergueu um punho, lentamente, e o abriu diante deles, mostrando a palma massiva, calosa, capaz de esmagar crânios.

"Mas nós somos tigres."

Um dos jovens, mais magro, com olhos arregalados pela fome e pelo medo, quebrou. "Yamazaki..." a voz dele saiu como um rangido. "Ele sequestrou a filha de nosso oyabun. Pagou um 'dote' de dez milhões de ienes para nos aliarmos a eles..." Ele engoliu seco. "As táticas que eles estão usando não são honradas. Eles não são mais Ninkyō Dantai. São apenas... yakuza."

Kaishakunin balançou a cabeça, um movimento lento de compreensão. Sem uma palavra, ele deu um passo à frente e colocou sua mão enorme, mas surpreendentemente suave, no ombro do jovem que falara. O contato era firme, quase reconfortante.

"Hoje, capturaremos o porco do Kenji. Realizaremos uma troca. Vocês devolvem a porcaria do 'dote'. E juntos..."

Seus olhos brilharam com um fogo antigo.

"... vamos nos vingar."

O olhar do líder do kumi Aizukotetsu brilhou. Não era apenas esperança; era o fogo da restauração da honra, uma brasa que ele pensava ter sido apagada.

Sem outra palavra, ele segurou sua kanabo — não para atacar, mas para entregá-la, segurando-a com ambas as mãos e fazendo uma reverência.

Um a um, os outros seguiram o exemplo. Katanas, tantōs, bastões, e o eloquente kanabo do líder — uma clava de ferro pesada e dentada — foram depositados no chão molhado.

Nenhuma arma de fogo. Eram, como disseram, Ninkyō Dantai verdadeiros.

Em silêncio, liderados por um dos homens de Kaishakunin, eles se dissiparam na direção dos furgões, uma procissão de sombras resignadas e, agora, esperançosas.

[Comunicador] Boucher: "Bom trabalho, Kaishakunin."

Kaishakunin rosnou, um som de baixo profundo em seu peito. Como uma gaijin poderia dizer que uma conversa honesta de Gokudō para Gokudō era "trabalho"?

[Comunicador] Boucher: "Um verdadeiro bandido cavalheiro. Por Shintô, eu lhe agradeço... mas ele faria melhor."

O rosto desfigurado de Kaishakunin se abriu em um sorriso genuíno, largo e cheio de dentes. No escuro, com a cicatriz torcendo sua boca, era a expressão mais horrível e sincera que seus homens já haviam visto.

[Comunicador] Kaishakunin: "Nagano lhe treinou bem, Yuki."

[Comunicador] Boucher: "Treinou. Agora movam-se. Temos um clã honesto a vingar."

A primeira fase estava completa.

Sem um único golpe, sete inimigos haviam sido neutralizados e convertidos.

A desunião que Shiro identificara fora explorada com maestria.

A lufada de vento que varria Shinkawa começava não com um rugido,
mas com um sussurro que prometia um vendaval.

E nas profundezas do porto, ignorantes do pacto que acabara de ser forjado na chuva, os homens de Kenji continuavam seu turno entediado, reunidos em torno de um barril de fogo, rindo de uma piada suja.

A tempestade estava prestes a atingi-los em cheio.

— CONTINUA —

Operação Lufada em andamento

[ OPERAÇÃO LUFADA — FASE 2 ]

Ataque ao Porto de Shinkawa

Parte 3: A Monja Furiosa



2300h — Guarita do Porto de Shinkawa

Cinco cliques.

Cinco segundos entre o sussurro de Boucher no comunicador e o início do inferno.

Chizue Harada viu as sombras se moverem. Boucher — um relâmpago dourado em preto — convergindo sobre dois homens num canto, suas linhas de movimento tão limpas quanto um diagrama tático. Seong Su-On — o idiota exibido — andando calmamente em direção ao centro, como se fosse dar um passeio noturno. Shiro… Shiro simplesmente desapareceu, dissolvendo-se na escuridão como fumaça na água.

Ela não esperou para ver as carnificinas começarem. Ela começaria as honras.

Se as presas estavam se mexendo, ela terminaria aquilo rápido. Seu sorriso foi uma coisa cruel e afiada sob os óculos escuros — uma fenda de dentes brancos em um rosto de cicatrizes. Ela se pôs a correr.

Não uma corrida desesperada. Uma aceleração — o húmus da noite sob os pés, o bastão metálico uma extensão de seu braço, sua saia escolar esvoaçando como asas de um pássaro de rapina bizarro. A guarita estava a trinta metros. Dez passos. Cinco.

Os Guardas. Havia dois. O primeiro, um homem magro com tatuagens de carpa subindo pelo pescoço, dormia encostado na porta, a cabeça caída sobre o peito. O segundo, mais jovem, sentado nos degraus de concreto, olhava para a negritude que o cercava com um tédio tão profundo que beirava o transe. Uma luz amarelada e suja de um poste quebrado pingava sobre ele — mais uma maldição do que uma ajuda, cegando-o para a escuridão além, afundando-o em uma sonolência química.

Ele não viu nada até que foi tarde demais.

Ela se materializou da escuridão como um pesadelo vestido de provocação escolar. A saia plissada — um mosaico de palavras de ordem e preces escritas a mão, como uma bandeira de guerra adolescente. O torso nu exceto por um sutiã preto e tiras de couro que cruzavam músculos definidos como cordas de aço. Cabelos longos no estilo hime — um contraste chocante com os óculos escuros como poços e a atitude de uma carniceira.

Mas o mais terrível não era a roupa. Era a certeza com que ela se moveu.

O bastão de beisebol metálico — com pregos fendidos e fundidos em sua ponta como um cacto de aço — não balançou. Estocou.

THUD

A ponta encontrou a barriga do jovem yakuza com um impacto úmido e profundo que ecoou nos ossos. O ar saiu dele num "OOF!" audível, gutural, o som de um pulmão sendo esvaziado à força. Ele se dobrou, escorregando para o lado como um saco de ossos, as mãos instintivamente voando para a pistola no coldre.

"Aaah, para onde pensa que vai!" A voz de Chizue foi um desafio cantado, um sibilo de diversão genuína.

O que dormia acordou no susto. Era maior, mais largo, com a cara de um lutador de sumo que perdeu a graça — nariz achatado, sobrancelhas grossas, pescoço mais largo que a cabeça. Ele se levantou num movimento desengonçado, sonolento, e tentou agarrar a mulher com um gancho selvagem.

Mas ela já não estava mais lá.

Chizue saltou como um gato raivoso — não para longe, mas sobre o primeiro yakuza, que tentava ganhar distância, os dedos trêmulos fechando sobre o cabo da pistola. Ela diminuiu os dois metros entre eles em menos de um segundo, o bastão girando em suas mãos.

O golpe não foi um balanço seguindo de um empalamento — a ponta cravejada de pregos encontrou o centro do nariz do homem com a precisão de um cirurgião sádico.

CRUNCH

Não foi um som de osso quebrando. Foi o som de arquitetura facial desmoronando. Cartilagem, osso nasal, septo — tudo colapsou para dentro em uma explosão úmida de sangue e dor. O yakuza esqueceu a pistola. Esqueceu tudo. Suas mãos voaram para o rosto, pressionando a ruína, e um uivo animal, agudo e cheio de pânico, rasgou a noite.

Ao longe, Chizue ouvia os outros focos de luta se acendendo — o som abafado de impacto, um grunhido, o estalo seco de um osso. O uivo do homem se fundiu ao coro. Nenhum problema.

O yakuza grande, agora totalmente acordado e enfurecido, saltou da plataforma da guarita. Seu soco não era técnico — era um projétil de setenta quilos de carne raivosa direcionado ao centro do rosto daquela mulher maluca.

Chizue não se esquivou, poque ela já havia plantado os pés e girado o bastão.

Foi um swing perfeito — uma Hiromitsu Ochiai de saias. O ar assobiou. O metal brilhou sob a luz amarelada por uma fração de segundo antes de encontrar seu alvo.

THWACK

O som foi como uma melancia sendo atingida por um taco. O bastão conectou-se com o lado esquerdo do rosto do yakuza com força suficiente para realinhar sua mandíbula, quebrar seu zigomático e enviar dois molares voando pela escuridão em um arco escarlate.

Ele caiu no chão peito primeiro, como uma árvore derrubada. O rosto — agora uma massa assimétrica — bateu no concreto e ficou imóvel.

Chizue olhou para o primeiro yakuza, que ainda estava de joelhos, segurando o nariz destruído, sangue escorrendo entre seus dedos, ofegando entre ganidos.

"Vocês são uns frouxos!" Ela xingou, a voz carregada de uma decepção genuína, quase ofendida. Balançou o bastão sem entusiasmo, assustando o homem para trás. Ele cambaleou, os olhos arregalados de terror puro.

O segundo yakuza — o grande — não estava fora. Com um rugido abafado por um rosto inchado, ele se levantou, o mundo girando. Viu a mulher de saia, viu seu parceiro chorando, viu vermelho. Tentou um uppercut feroz, desengonçado, mas com todo o peso de seu ódio.

O primeiro, vendo a abertura, avançou para agarrá-la por trás.

Chizue dançou.

Ela deslizou para a esquerda, o uppercut passando a centímetros de seu queixo. Girou no mesmo movimento, suas mechas laterais coladas ao rosto pela força centrífuga. O grandalhão perdeu o equilíbrio com o soco sem conexão. A girada completou-se, e ela depositou o bastão — não com um balanço, mas com um empurrão de todo o seu peso — nas costelas do grande yakuza.

CRRRR-ACK

Não foi um estalo. Foi uma cascata de estalos — costelas quebrando em sequência, da terceira à sétima. O ar saiu dele num gemido rouco. Seus olhos reviraram. Ele caiu de joelhos, depois para o lado, inconsciente.

Chizue olhou para o primeiro yakuza, agora em posição de boxe, fungando e babando pela maxilar deformada. Ela limpou a franja suada da testa com o dorso da mão, os dentes rangendo em legítima frustração.

"Urgh, grandalhão..." Ela cuspiu as palavras. "Acho que vou te matar por esse desapontamento todo!"

"Damare! Kono kichigai ama!"

("Cala a boca! Sua monja louca!")

O yakuza gritou, o insulto saindo entre dentes partidos e sangue.

Chizue parou.

Lentamente, ela se virou para olhá-lo.

Seu rosto, antes apenas decepcionada, congelou em uma máscara de fúria glacial.

"Monja..." Ela repetiu, a palavra saindo como um sibilo.

O yakuza, movido por um último surto de energia assassina, se lançou num soco feroz direcionado ao seu estômago.

Ela não se esquivou desta vez. Ela girou como uma batedora profissional, o bastão se movendo em um arco horizontal rápido.

THWACK-CRUNCH

O bastão encontrou o braço estendido do homem no ponto exato entre o pulso e o antebraço. O som foi de gravetos sendo pisados — rádio e ulna, ambos, fragmentando-se em uma dúzia de lugares. A mão do yakuza — ainda fechada em punho — foi lançada para trás por um momento, pendurada apenas por tendões e pele, antes de cair inutilmente ao seu lado, um membro estranho e quebrado.

Ele cambaleou para trás, um ganido agudo e contínuo escapando de sua garganta enquanto tentava segurar o braço moído com a mão boa, os olhos arregalados de um terror além da dor.

Chizue olhou para ele, sua respiração agora controlada, meditativa. Lentamente, ela largou o bastão no chão. O CLANG metálico ecoou na noite.

Ela deu pequenos saltos no lugar, aquecendo os punhos, os ombros girando. "Arrgh! Que raiva!" Ela cuspiu no chão. "Gemendo feito uma criança... E ainda me chamou de monja."

Ela parou de pular, os pés plantados na postura perfeita do Jeet Kune Do.

A Série da Flecha

Ya no Rensha

"Vou te matar com minha assinatura. 'Ya no Rensha'." Sua voz era plana, factual. "Aí você fica sabendo que foi morto por Harada. Chizue Harada."

O nome atingiu o yakuza como uma segunda porrada. Seus olhos arregalaram ainda mais — ele conhecia esse nome. Uma lenda nas ruas de Yokohama e Shibuya. Diziam que ela havia morrido queimada. Diziam que ela era um fantasma. Diziam que se você a visse, você já estava morto.

Era inútil.

Chizue explodiu em movimento.

"Ya no Rensha"

— A Série da Flecha —

Não foram socos. Foram dardos de carne e osso. Esquerda. Direita. Esquerda. Direita. Esquerda. Direita. Uma barragem rítmica, interminável, cada golpe carregando o peso de seu quadril girando, o poder de suas pernas se enraizando no chão.

PAP-PAP-PAP-PAP-PAP-PAP-PAP-PAP-PAP-PAP

Os socos não procuravam o queixo. Eles liquefaziam. Fígado. Baço. Plexo solar. Então subiam. Zigomático. Órbita ocular. Ponte nasal (o que restava). Mandíbula. Crânio.

O yakuza desmoronou sob a tempestade, cada impacto afundando-o mais no chão, até que ficou imóvel, uma massa ensanguentada e mole contra o concreto frio.

Chizue parou. Suas mãos estavam vermelhas e inchadas. Ela respirava fundo, o vapor saindo de sua boca na noite fria. Olhou para o corpo por um longo momento.

Então cuspiu nele — um gesto final de desdém.

"Na próxima encarnação... não me entedie tanto."

Ela se virou, pegou seu bastão do chão, e olhou para o porto. Os sons de luta continuavam — mas agora estavam diminuindo. O trabalho dela aqui estava feito.

A guarita estava silenciosa. Apenas dois corpos e o zumbido da luz quebrada.

A primeira vítima da noite tinha caído.

E a Monja Furiosa estava apenas começando.

[ OPERAÇÃO LUFADA — FASE 2 ]

Ataque ao Porto de Shinkawa

Parte 4: O Riso do Vento



Enquanto a fúria ritmada de Chizue pintava a guarita de vermelho, uma forma de violência completamente diferente se desenrolava a cinquenta metros de distância, numa clareira de concreto entre duas fileiras de contêineres. Aqui, o som era a chuva caindo em poças e o ronco leve de um yakuza.

O mais novo, cabelo tingido num loiro desbotado que falhava em esconder suas raízes negras, dormia encostado num pneu velho, a cabeça caída no peito. Ao seu lado, em um squat perfeito que falava de anos de disciplina, um homem mais velho. Seu rosto era um mapa de cicatrizes e rugas profundas, os olhos entreabertos, mas vítreos de cansaço. A mão direita, no entanto, estava firme, descansando sobre o cabo de uma pistola Tokarev TT-33 enfiada no cinto. Ele cochilava, mas o corpo estava armado.

Da escuridão entre os contêineres, Seong Su-On emergiu.

Não foi uma entrada. Foi uma aparição. Ele simplesmente estava lá, onde um instante antes havia apenas sombra e chuva. Mãos enfiadas nos bolsos do casaco leve, ombros relaxados, andando com a despreocupação de quem dá um passeio noturno. Seus passos não faziam som. A chuva escorria pelo visor de seu boné, seu rosto uma máscara vazia de expressão.

O velho yakuza não o ouviu chegar. Sentiu. Os instintos de sobrevivência de décadas no submundo dispararam um alarme silencioso. Seus olhos se abriram completamente, e ele se levantou num movimento fluido, a Tokarev já saindo do coldre e apontando para a figura que se aproximava.

"Garoto," a voz do velho saiu áspera, carregada de um cansaço que ia além do físico. "Está muito cedo para você morrer. Vaza."

Su-On continuou andando.

A distância entre eles era de dez passos. Oito. Seis.

O dedo do velho apertou o gatilho. Mas antes que o músculo concluísse o movimento, Su-On agiu. Não tirou as mãos dos bolsos. Apenas inclinou o quadril direito para frente, num movimento tão econômico que parecia um tique.

A perna dele, compacta e poderosa como uma mola de aço, disparou.

Não foi um chute espetacular. Foi um empurrão preciso, a ponta do pé de seu tênis batendo exatamente no cano da Tokarev.

TING

O metal vibrou com um impacto agudo, e a arma foi arrancada da mão do yakuza, girando no ar e caindo numa poça escura a vários metros de distância.

"Nani?! Bakana shōnen!"

(O quê?! Garoto idiota!)

O rugido do velho era de pura incredulidade. Seu orgulho, mais ferido que seu punho dormente, o levou à ação. Ele saltou para frente, os braços se abrindo para um agarramento de luta de rua, para esmagar esse insolente contra o concreto.

Su-On ainda não tirou as mãos dos bolsos. Seu corpo, no entanto, engatilhou. A perna direita se recolheu e então disparou novamente, desta vez um chute frontal direto, rápido como o bote de uma cobra.

THUMP

A sola do tênis acertou o centro do peito do velho. O bloqueio foi instintivo — os braços se cruzaram — mas a força foi tão concentrada e repentina que o ar saiu de seus pulmões num whoosh. Ele foi arremessado para trás, pousando pesadamente de costas na poça d'água, os dois antebraços latejando de dor como se tivessem parado uma marreta.

O barulho acordou o jovem loiro. Ele bocejou, esfregou os olhos, e seu cérebro levou um segundo horrível para processar a cena: seu veterano mentor deitado na água, e um homem estranho de boné, mãos nos bolsos, parado no meio da claridade.

O jovem não pensou. Reagiu. Com um grito gutural, ele agarrou um bastão de metal que estava ao lado do pneu e se lançou em uma carga desesperada, o bastão erguido para um golpe selvagem.

Su-On, pela primeira vez, moveu mais do que as pernas. Ele girou sobre o calcanhar esquerdo, um movimento despreocupado, como se estivesse virando para olhar um pássaro. O bastão do jovem passou a centímetros de seu ombro, o ímpeto da carga desequilibrando o atacante.

Aproveitando o momento, Su-On completou o giro. A perna direita descreveu um arco perfeito, um roundhouse invertido que chegou por cima do ombro do jovem ainda em movimento. A traseira do pé de Su-On conectou-se com a têmpora do yakuza.

CRACK

O mundo do jovem desligou e ligou em um turbilhão de dor e ruído branco. Ele caiu de quatro na poça, engasgando, tentando entender por que o céu estava no chão.

O velho, agora de pé, respirava com dificuldade. A humilhação fervia em suas veias, mais quente que a dor. Ele cerrou os punhos, assumindo uma postura de kenjutsu desarmado, os pés se arrastando no concreto molhado, criando distância. Sua respiração era ofegante, mas seus olhos eram focos de ódio gelado.

Su-On, diante dessa exibição de determinação, parou.

E então, fez algo inesperado.

Ele tirou as mãos dos bolsos.

E começou a se aquecer.

Não era um aquecimento comum. Era uma série de pequenos saltos no lugar, os joelhos subindo alto, as pernas se movendo com uma elasticidade sobrenatural. Era o aquecimento preciso de um atleta de Taekwondo antes de uma competição, mas executado aqui, na chuva, diante de um inimigo armado apenas com orgulho. O insulto era calculado, absoluto.

O jovem yakuza, ainda atordoado, conseguiu se ajoelhar, sacudindo a cabeça para afastar as estrelas. Ele viu seu velho mentor em guarda e o estranho saltando. Uma fúria cega tomou conta dele. Com um rugido, ele se levantou e partiu para uma carga cega, a cabeça baixa, um battering ram humano dirigido ao centro de massa de Su-On.

Su-On parou de pular.

O que aconteceu a seguir não foi uma defesa. Foi uma demonstração.

Quando o jovem estava a dois metros, Su-On saltou. Não para trás, mas para o alto. Seu corpo se torceu no ar, e a perna direita desceu como um machado. Um axe kick aéreo. O calcanhar acertou o topo do crânio do jovem com um baque surdo.

O yakuza cambaleou, seus joelhos amolecendo.

Su-On ainda no ar, ajustou-se.

Segundo axe kick. Mesmo alvo.

CRUNCH

Terceiro.

Quarto.

Cada impacto era um martelo de força concêntrica afundando o jovem no concreto. Quando seu corpo começou a inclinar para frente, inconsciente antes mesmo de tocar o chão, os dois chutes finais de Su-On o encontraram: um na nuca, outro entre as omoplatas, acelerando sua queda.

O corpo do jovem colapsou em uma pilha inerte, afundando na poça d'água agora tingida de rosa.

Su-On aterrissou com a leveza de um gato, virando-se para enfrentar o velho.

O yakuza veterano havia testemunhado a pura, insana proficiência. Vira seu pupilo ser transformado em um saco de pancadas voador. O orgulho agora se misturava com um desespero frio, mas sua postura não vacilou. "Seu maldito!" ele gritou, a voz trêmula de raiva e exaustão. "Eu sou Gokudō! E lutarei até o fim!"

"Heheh."

Não foi um riso alto ou cruel. Foi um som curto, quase adolescente — sincero e abrupto.

Parecia o riso de alguém que ouviu a piada mais hilária do mundo em meio a um funeral.

Seus olhos, normalmente vazios, brilharam por uma fração de segundo com genuína diversão.

E então, calmamente, ele colocou as mãos de volta nos bolsos do casaco.

O duplo insulto foi perfeito. A risada desdenhosa da sua bravata, e o ato final de desprezo: as mãos no bolso. A luta já havia terminado na mente de Su-On. O velho não era mais uma ameaça; era uma formalidade.

O rosto do veterano se contorceu em um misto de fúria absoluta e humilhação profunda. "Seu pivete maldito!" Ele se lançou em um último ataque desesperado, os braços abertos para um agarramento de urso, abandonando toda técnica em nome do ódio puro.

Su-On não se moveu dos bolsos. Apenas balançou o quadril esquerdo para frente.

O pé direito saiu do chão num chute frontal curto, um movimento tão econômico que mal pareceu um ataque. A ponta do tênis encontrou o ponto mole sob o queixo do velho.

TOCK

O som foi limpo e final.

Os olhos do yakuza rolaram para trás, e seu corpo, ainda no ar, perdeu toda a tensão. Ele caiu como um fardo, batendo no chão ao lado de seu pupilo inconsciente, apagado.

Su-On ajeitou a aba do boné, que havia se deslocado um milímetro. Olhou para os lados. O porto ecoava com os sons da batalha de Boucher, com os gritos abafados de outros combates. Ele suspirou, um som quase inaudível.

"Chŏlmŭn Club,"

(Primeiro o Clube)

Murmurou para si mesmo em coreano, sua voz monótona pela primeira vez revelando um fio de resignação.

Ele voltou a andar, mãos nos bolsos, direção do som metálico e dos gritos de fúria de Chizue Harada.

A chuva lavava qualquer sujeira de seus tênis, apagando qualquer evidência do furacão silencioso que acabara de passar.

[ OPERAÇÃO LUFADA — FASE 2 ]

Ataque ao Porto de Shinkawa

Parte 5: O Rugido de Osaka



Enquanto a precisão mortal de Su-On e a fúria coreografada de Chizue escreviam suas estrofes de violência, um verso diferente, mais antigo e brutal, começava do outro lado do pátio de contêineres. Não era o som de ossos quebrando com eficiência ou de aço contra carne, mas o rugido.

Kaishakunin ouviu o grito de batalha de seus Takumi ecoando entre o ferro enferrujado. Era um som áspero, curto, um "Ura!" sincronizado que significava: contato. O sangue em suas veias, que antes fluía com a paciência de um negociador, ferveu em um instante, transformando-se em diesel puro. O tempo da palavra acabara. Agora era o tempo do osso.

Ele não começou a correr. Desencadeou-se.

Seus passos não eram os de um homem, mas de um juggernaut em baixa velocidade. Cada pisada no concreto molhado era um BAF que ecoava, um aviso sísmico. Deixou seus homens para trás, as katanas deles faiscando como dentes de uma besta maior. Passou por Su-On, uma silhueta fantasmagórica desarmando um homem com a indiferença de quem abre uma lata, e não desviou o olhar. Seu foco era um túnel escavado pela raiva.

Seus alvos estavam no cais, à beira da água escura e oleosa. Dois. Um veterano, postura tensa, os olhos escaneando a escuridão com a paranoia de quem conhece a morte. Em suas mãos, uma escopeta Remington 870, cano serrado — a ferramenta do terror urbano. Ao seu lado, um jovem enorme, gorducho, o rosto inchado pelo álcool e pelo sono, lutando para se manter em pé, uma garrafa de shochu vazia rolando perto de seus pés.

O veterano viu Kaishakunin emergir da sombra, uma torre de branco e ódio sólido. Seus olhos se arregalaram. "Matte!" ele gritou, erguendo a escopeta, mas seus reflexos, embotados pelo medo, eram lentos.

Kaishakunin não diminuiu o passo. Em vez disso, soltou seu brado de guerra, um rugido gutural que pareceu vir do próprio solo de Osaka.

"OSAKA NO KEMONO DA!"

(É A FERA DE OSAKA!)

O som foi um choque físico.

O veterano disparou.

A escuridão cuspiu fogo e trovão. O padrão de chumbo, à queima-roupa, acertou Kaishakunin de cheio no ombro esquerdo e no peito. O casaco branco imaculado rasgou-se em uma dúzia de lugares, manchas escuras de sangue aparecendo instantaneamente. Ele estremeceu, o impacto girando seu torso ligeiramente.

Mas não parou. Não caiu.

As pelotas de chumbo não eram feridas; eram alfinetadas, agulhas de fogo que apenas alimentaram a fornalha em seu núcleo.

Seus olhos, por trás da cicatriz monstruosa, incendiaram-se.

Três passos. Dois.

O veterano, paralisado pelo terror ao ver o colosso absorver o disparo, tentou engatilhar novamente.

Muito tarde.

Kaishakunin fechou a distância final. Seu braço direito, um pilão de músculo e osso, desceu não em um gancho, mas em uma pancada vertical, um martelo de demolição direto do céu. O punho, do tamanho de um presunto, encontrou o centro do rosto do veterano.

COLAPSO

O som não foi de quebra. Foi de colapso. A cartilagem do nariz desapareceu, assoalho orbital fraturou, e o cérebro, sacudido dentro do crânio, desligou por um milésimo fatal. O veterano foi arremessado para trás como um boneco de pano, sua cabeça batendo no concreto do cais com um crunch terrível. Ele ficou imóvel, um fio de sangue escuro escorrendo de sua orelha.

O gorducho, sóbrio de repente pelo choque adrenalínico e pelo cheiro de pólvora e sangue, emitiu um grunhido de pânico. Ele se levantou cambaleando, agarrando uma machadinha de combate que estava caída ao lado de um barril.

Kaishakunin virou-se para ele, ignorando o sangue que escorria de seu ombro. No chão, o veterano começou a se contorcer, um gemido baixo escapando de seus lábios desfeitos. Kaishakunin olhou para ele, depois para o gorducho hesitante. Com um simples movimento, ele se curvou, agarrou a lapela do veterano com uma mão, e o levantou do chão como se fosse uma criança.

O gorducho, encorajado pela imobilidade aparente de seu aliado, avançou com um grito, a machadinha erguida.

Kaishakunin não se esquivou. Arremessou.

O corpo inconsciente do veterano virou um projétil humano de 80 quilos. Ele colidiu de peito com o gorducho. Os dois homens, um mole, outro desequilibrado, caíram em um emaranhado de membros e gemidos.

Kaishakunin caminhou até eles, seu passo lento e pesado, o som da morte se aproximando. O gorducho, por baixo do veterano, empurrou o corpo inerte para o lado e se levantou primeiro, ofegante. O veterano, agora semi-consciente, rolou para longe, seus movimentos descoordenados, os olhos não focando.

O gorducho, vendo Kaishakunin a apenas três metros, agarrou a machadinha com ambas as mãos. Seu rosto era uma máscara de puro terror transformado em raiva desesperada. Com um berro, ele investiu, cravando a lâmina com toda a sua força no peito de Kaishakunin, onde o sangue já manchava o branco.

A lâmina penetrou. Parou. Enfiou-se na carne e no músculo, mas encontrou a densidade de um touro. Não atingiu osso vital.

Kaishakunin olhou para baixo, para a machadinha cravada em seu peito.

E então, riu.

Um som profundo, rosnado, que parecia ecoar de um poço sem fundo.

Era o riso de um homem para quem a dor era um velho conhecido, um companheiro de bebida.

Ele ergueu a cabeça. O gorducho, ainda segurando o cabo, olhou para ele, a compreensão do horror absoluto afundando em seus olhos.

Kaishakunin disparou a cabeça para frente. Não foi uma cabeçada comum. Foi um bate-estaca. Sua testa, um bloco de osso, encontrou o supercílio direito do gorducho com a força de uma marretada.

CRACK

O osso acima do olho do yakuza cedeu. Sangue jorrou. O gorducho foi empurrado para trás, tropeçando, soltando o cabo da machadinha que ainda tremulava no peito de Kaishakunin.

Antes que ele pudesse recuperar o equilíbrio, Kaishakunin fechou a distância. Suas mãos, cada uma do tamanho de um presunto, agarraram o gorducho pelas orelhas, puxando-o para frente com força implacável.

Segunda cabeçada. Centro da testa contra o supercílio esquerdo.

SPLAT

O lado esquerdo do rosto do gorducho se tornou uma pasta de sangue. Ele gemeu, seus joelhos falharam, mas Kaishakunin o segurou pelas orelhas, mantendo-o de pé.

Foi então que o veterano, em um último ato de coragem ou desespero, conseguiu se arrastar para perto e desferiu um soco fraco, mas preciso, no flanco ferido de Kaishakunin, onde as balas de chumbo estavam enterradas.

Kaishakunin nem pestanejou. A dor era um rumor distante. Ele soltou o gorducho, que desabou, e girou para o veterano. Seu punho direito cruzou o ar como um projétil. O veterano, por instinto puro de sobrevivência, jogou-se para trás, e o punho de Kaishakunin passou a centímetros de seu nariz quebrado, o vento do golpe fazendo seus olhos arderem.

O gorducho, com uma resiliência bestial alimentada pelo pânico, aproveitou a distração. Ele se levantou e, com toda a força que lhe restava, desferiu um uppercut no queixo exposto de Kaishakunin.

A cabeça do gigante balançou para trás, o pescoço fazendo um ruído seco. Ele pisou para trás, um único passo. E então, devagar, ele voltou a cabeça para a posição normal. Seus olhos se fixaram no gorducho. Não havia fúria neles agora. Havia… fascínio. Como um zoólogo observando uma criatura particularmente teimosa.

O gorducho tremeu, o braço que havia desferido o golpe pendendo inutilmente ao lado do corpo.

Kaishakunin decidiu que o experimento acabara. Ele avançou, agarrou o yakuza gordo pelo braço bom, e, com um único movimento fluido de seus quadris e costas, o girou no ar como um martelo de guerra.

O veterano, prevendo o movimento, jogou-se para o lado. O corpo do gorducho, usado como uma maça humana, passou por onde ele estivera e foi arremessado por vários metros, batendo e rolando no chão até parar em uma pilha imóvel.

O veterano ficou de pé, ofegante, encarando Kaishakunin. O gigante não olhava para ele. Seus olhos estavam no gorducho, que, inacreditavelmente, começou a se mover, tentando se levantar mais uma vez.

Um sorriso quase respeitoso tocou os lábios de Kaishakunin.

"Tolo", ele resmungou.

Seigyo Funōna Ichi

— Incontrolável Um —

Então, ele se lançou. Não uma corrida, mas uma investida pura, o movimento que lhe dera fama nas ruas de Osaka. Era simples, direto, brutal. Seu corpo se transformou em um míssil humano, a cabeça abaixada como um aríete.

O gorducho mal teve tempo de erguer os braços. Kaishakunin o atingiu em cheio no estômago, a cabeça enterrando-se fundo, e então, com um poderoso levantar de pescoço e costas, içou o homem enorme do chão.

O gorducho voou. Seu corpo maciço descreveu um arco sobre o cais e caiu a cinco metros de distância, direto em uma pilha de paletes de madeira velha. O estrondo de madeira estilhaçada ecoou pelo porto. Ele não se moveu mais.

Kaishakunin endireitou-se, limpando sangue e sujeira da testa com o dorso da mão. O veterano estava ali, a poucos passos, encarando-o, a respiração ofegante.

"V-você…" o veterano engasgou, o terror e o reconhecimento lutando em seu rosto desfigurado. "Kaishakunin."

Kaishakunin olhou para ele. Com a outra mão, ele agarrou o cabo da machadinha ainda cravada em seu peito. Com um puxão seco, ele a arrancou. Um jato de sangue escuro seguiu a lâmina, mas ele nem pareceu notar. Jogou a ferramenta para o lado, onde caiu com um tinido.

"Quer viver ou morrer, velho?"

A pergunta foi feita com a mesma simplicidade com que se pergunta a hora.

O veterano engoliu seco. Viu o corpo de seu camarada. Sentiu o cheiro de sua própria derrota. Seus ombros caíram, mas seu queixo se ergueu. "M-morrer!" Ele gritou, a voz trêmula, mas a resolução clara. Morrer como Gokudō.

Kaishakunin assentiu, um único movimento de cabeça.

"Hrm."

Ele avançou. O veterano, em um último lampejo de coragem, também correu, fechando os olhos e se atirando para um agarramento suicida, suas mãos procurando a lapela do gigante.

Kaishakunin não se incomodou com as mãos dele. Sua própria mão, rápida como a língua de uma serpente, fechou-se em torno da garganta do veterano, interrompendo o avanço bruscamente. Ele levantou o homem do chão, até que seus pés pendurassem no ar.

"Que pena, velho", Kaishakunin sussurrou, seus olhos frios encontrando os do veterano que se debatia. "Meu chefe te quer vivo."

Seus dedos, fortes como pinças hidráulicas, apertaram. Não foi para esmagar. Foi para traumatizar. A pressão foi calculada, concentrada na traqueia e nos nervos.

O veterano emitiu um ruído áspero, seus olhos arregalados, as mãos arranhando inutilmente o braço de Kaishakunin. Então, seus membros ficaram moles. Kaishakunin soltou-o, e ele caiu no chão, inconsciente, a respiração um assobio rouco e irregular, mas presente.

Kaishakunin respirou fundo, o ar noturno frio em seus pulmões. Olhou ao redor. Viu Chizue e Su-On à distância, seus combates aparentemente terminados. Ouviu o som distante de tiros de escopeta vindo da direção onde o jovem ninja, Shiro, deveria estar. E viu o gigante Auclair sendo arremessado contra um container por um veterano yakuza guerreiro e o Fantasma se esquivando de tiros de escopeta de um yakuza magrelo do outro lado de um caminhão abandonado, mas também notou ela, como um raio de lua através das nuvens — Yuki no Onna, Amélie Boucher — movendo-se com a graça letal de uma loba, sua lâmina curta tingindo sangue escuro no ar em socorro de seus filhotes.

Ele limpou o sangue do rosto com a manga do casaco branco, agora uma pintura abstrata de vermelho e sujeira. Seu peito latejava de dor, mas era uma dor boa, familiar, a dor do trabalho bem feito.

Sem uma palavra, ele se virou e partiu em uma corrida pesada, direção ao som da escopeta e do ninja.

O rugido de Osaka ainda tinha dentes para mostrar.

Interlúdio

Ataque ao Porto de Shinkawa



Os Quatro Cães de Osaka

O rugido de Kaishakunin ainda ecoava no ar úmido quando seus quatro homens, os chamados "Cães Takumi", tentaram seguir seu rastro de destruição. Eles corriam, seus passos sincronizados, katanas balançando nas mãos, mas o gigante de Osaka era um furacão em movimento, deixando para trás um vácuo e dois yakuzas atônitos.

Kaishakunin passou por eles como um trem de carga, um borrão branco e preto. A única ordem foi jogada por cima do ombro, sem nem um olhar para trás.

"Vocês cuidam deles."

E então ele sumiu na escuridão, na direção das suas duas vítimas que o esperavam no porto.

Os quatro pararam em uníssono, suas botas rangendo no concreto. Diante deles, dois yakuzas, acordando abruptamente para o pesadelo.

O primeiro era um homem do clã Matsuba, um jovem grandalhão com um pompadour ridiculamente alto e gelado que desafiava a chuva. Seus olhos estavam inchados de sono, mas as mãos já se fechavam, envolvendo arame farpado em volta dos nós dos dedos. Tinha a cara de quem brigava em becos por puro esporte.

O segundo era puro Ichiwakage-gumi do cassino Yamazaki. Cabelo em degradê, preto nas raízes e desbotando para um loiro sujo, uma tentativa patética de imitar o estilo do temido Ryuji Yamazaki. Tatuagens de cartas hanafuda subiam por seu pescoço, contando uma história de dívidas e apostas. Ele mostrou a língua num gesto de desafio automático, a mão voando para a Cold War automática no coldre de axila.

Mas o pânico o traiu. O coldre estava engatilhado, o botão de segurança ainda no lugar. Seus dedos, trêmulos, arranharam o couro, incapazes de libertar a arma.

Foi a deixa que os Cães esperavam.

Não houve sinal. Apenas um entendimento visceral entre os quatro. Baka, Baki, Buko, Buke. Seus nomes eram quase piadas ("Idiota", "Chifre", "Arma", "Guerreiro"), mas sua eficiência era mortal.

Buke, o mais velho e o líder tático, foi o primeiro a se mover. Sua katana saiu do saya num iai silencioso, a lâmina um arco prateado na penumbra. Ele investiu contra o Yamazaki, buscando um corte limpo pelo quadril.

O yakuza dos hanafuda, desistindo da pistola, jogou-se para trás com um grunhido, evitando o golpe por um triz. Mas não viu Baki vindo pela lateral. Mais baixo e compacto, Baki era o carneiro do grupo. Ele se lançou, ombro primeiro, num tackle de rua que acertou o Yamazaki em cheio no peito.

WHUMP

O ar escapou em um jato, e o yakuza deu dois passos desequilibrados para trás.

Enquanto isso, o grandalhão Matsuba se viu entre Buko e Baka. Buko, ágil, fez um feinte baixo com sua lâmina. O Matsuba, instintivamente, baixou a guarda. Baka, o mais impetuoso, aproveitou e desferiu uma poderosa pernada no joelho do yakuza. O osso estalou, e o homem cambaleou. Antes que pudesse se recuperar, a lâmina de Buko desceu, cortando-lhe o antebraço levantado em um jato de sangue escuro. O Matsuba gritou, mais de surpresa que de dor.

No centro, Buke se reposicionou. Vendo o Yamazaki ainda ofegante, ele ergueu a katana para um golpe vertical esmagador, destinado a dividir o homem de cima a baixo. Foi um movimento arriscado, teatral.

O yakuza dos hanafuda, corajoso ou desesperado, viu sua chance. Ignorando a dor no peito, ele se jogou para dentro do golpe, agarrando Buke pela lapela com ambas as mãos, tentando derrubá-lo.

Foi um erro fatal. Ele esqueceu de Baki.

Como um raio, Baki girou e sua katana descreveu um corte horizontal perfeito, abrindo as costas do Yamazaki da cintura até a omoplata. O tecido e a carne se separaram com um som úmido. As mãos do yakuza se afrouxaram instantaneamente, a força fugindo dele. Buke, livre, aproveitou e deu uma coronhada com o cabo de sua espada no rosto do homem. O impacto quebrou ossos e deixou um olho como uma massa escura. O Yamazaki caiu de joelhos, emitindo um gemido animal.

O Matsuba, ferido e vendo seu companheiro cair, entrou em frenesi. Ignorando o braço sangrando, ele se lançou em uma cabeçada suicida contra Buke, que ainda estava de costas para ele.

Buko interceptou. Sua lâmina cravou-se no peito do grandalhão, mas a força da carga era tanta que a ponta da espada passou limpa, sem parar o ímpeto. O Matsuba, como um rinoceronte ferido, atingiu Baka em cheio. Baka, que não enxergava direito pelo sangue escorrendo de um corte no supercílio, reagiu por instinto. Sua espada, ainda na mão, foi para frente num movimento de estocada, enterrando-se na coxa do Matsuba.

Os três homens caíram em um amontoado de dor, metal e maldições.

No chão, o capanga Yamazaki gemeu, tentando se arrastar para longe, uma mão pressionando o olho destruído.

Buke olhou para ele, depois para seus homens emaranhados com o Matsuba. Sua expressão era de puro desprezo profissional. Sem uma palavra, ele se posicionou atrás do yakuza agonizante.

"Não, por favor…" o homem choramingou, sua voz um sibilo.

Buke não hesitou.

A katana subiu e desceu em um arco limpo e econômico.

O som foi o de um melão sendo partido.

A cabeça do Yamazaki rolou por alguns centímetros antes de parar, seus olhos restantes ainda fixos em um terror eterno.

Buke limpou a lâmina na calça do cadáver.

"Se esse morreu, esse tem que viver!"

Ele gritou para seus companheiros, apontando para o amontoado onde o Matsuba ainda lutava.

Baki, Baka e Buko, ouvindo a ordem, se desvencilharam do grandalhão. Sangrando, mas com determinação renovada, eles se ergueram, suas katanas agora apontadas para o céu noturno, prontas para descerem em estocadas finais sobre o jovem Matsuba.

O grandalhão, com o braço cortado, a perna esfaqueada e o joelho machucado, olhou para as três lâminas prontas para perfurá-lo. O pânico o atingiu como um choque elétrico. Ele correu para trás, mancando, as mãos se erguendo.

"Oy, oy, oy!" ele gritou, a voz estridente. "Cês têm que pegar um vivo! Lembra?! O chefe disse! VIVO!"

Os três Cães Takumi não pareciam ouvir. Seus olhos eram fendas escuras sob os cortes e o sangue. Avançaram mais um passo.

Foi então que o instinto de sobrevivência do Matsuba falou mais alto que seu orgulho. Ele parou de correr. Se jogou de joelhos no concreto molhado, as mãos voando para a nuca, a cabeça baixada em sinal de rendição total.

"AKIRAMETA! YABAI, KOSANDA!"

(Eu desisto! Perdi, porra! Não me matem!)

O grito, cheio de resignação histérica, ecoou no ar.

Os três Cães pararam. As lâminas ainda suspensas. Por um segundo, só se ouviu a chuva.

E então, Baki riu. Um riso curto e rouco.

Baka e Buko seguiram o exemplo, seus corpos tremendo com a tensão que se quebrava.

O riso deles não era de diversão, mas de alívio cínico, o riso de homens que viviam na linha tênue entre o massacre e o contrato.

"Por que não começou fazendo isso, koso?" Buko resmungou, abaixando sua espada. (Por que não começou fazendo isso, seu idiota?)

Eles cercaram o Matsuba, ainda ajoelhado e tremendo. Baki deu um chute não muito forte nas costas do homem, fazendo-o cair de bruços. Baka amarrou seus pulsos com corda rápida, enquanto Buko improvisou um torniquete no braço sangrando.

Trabalho feito, os quatro Cães se acomodaram.

Buke encostou-se em um container, observando o porto.

Baki e Buko sentaram-se em um barril vazio, acendendo cigarros com mãos trêmulas.

Baka ficou de pé, pressionando um pano contra o corte na testa.

Eles não precisavam se mexer mais. O espetáculo estava em andamento.

Seus olhos percorreram o cenário de pesadelo:

À esquerda, o colosso Auclair, parecendo um urso enfrentando um touro, arremessando e sendo arremessado por um brutamontes do cassino que parecia saído de um concurso de musculação.

À direita, o Fantasma, Ryan Goveia, deslizando entre as sombras como fumaça, enquanto pelotas de chumbo de uma escopeta estilhaçavam o concreto a centímetros de seus pés.

No alto, a forma negra e dourada da Ookami Francesa, Amélie Boucher, escalando a lateral de um caminhão com a agilidade de uma aranha, sua lâmina uma faísca ocasional no escuro.

O coreano Su-On andava com as mãos nos bolsos, como se procurasse um ponto de ônibus, indiferente ao caos, dirigindo-se ao som terrível de carne sendo moída e xingamentos furiosos que vinham de onde Chizue estava.

E o som mais preocupante: uma sinfonia de chutes rápidos, grunhidos de dor e o BOOM intermitente de uma escopeta, vindo da direção para onde Shiro e agora Kaishakunin haviam ido.

Buke deu uma tragada longa no cigarro, soltando a fumaça lentamente. Trocaram um olhar entre os quatro. Um aceno de cabeça quase imperceptível.

Tudo estava sob controle.

Nenhum deles, ali naquele pequeno círculo de violência contida, precisava deles no momento.

Era hora de assistir.

Eram os Cães de Guarda de Osaka, descansando após a mordida, observando a matilha maior caçar.

[ OPERAÇÃO LUFADA — FASE 2 ]

Ataque ao Porto de Shinkawa



Parte 6: O Desabrochar da Flor do Medo

A escuridão entre os contêineres não era apenas ausência de luz para Shiro; era um véu, um útero protetor.

[Sanjuro]

"Não esqueça das sombras. As sombras são suas amigas."

Shiro fechou os olhos, visualizando a rota de infiltração. Túnel entre containers, depois pelo telhado do armazém secundário, descer pela claraboia...

Dele, ele observou seus alvos com a clareza fria de um predador. Dois. Um Yamazaki, jovem, nervoso, cabelo espetado com muita goma, os dedos tamborilando na coronha de uma escopeta Remington 870 que repousava sobre seus joelhos como um animal de estimação perigoso. O outro, maior, muito maior, um ex-rikishi cuja carreira no sumo fora abortada por algo mais lucrativo e sombrio. O homem dormia de lado sob uma lona estendida, seu corpo maciço uma montanha sob o tecido, um radinho de pilha sussurrando os clássicos melancólicos de Hiromi Ota. A música era uma assinatura bizarra de normalidade no meio do crime.

Shiro não entrou na visão periférica do atirador. Ele se desprendeu dela. Um suspiro da sombra. Um passo tão silencioso que o próprio ar parecia não se mover. Ele estava atrás do jovem sentado, o cheiro de suor barato e pólvora envelhecida enchendo suas narinas.

Seu corpo tomou a decisão antes que sua mente pudesse hesitar. A mão direita fechou-se em Shinken-ken — o "Punho da Ponta da Espada" — os nós dos dedos projetando-se como uma ponta de lança. Ele girou a partir do quadril, e o golpe perfurou o ar para encontrar o ponto mole do pescoço, logo abaixo da orelha.

THOK

O impacto foi sólido, um som úmido e satisfatório. O jovem yakuza foi lançado para frente na cadeira de plástico, que rangeu perigosamente, mas não quebrou. Um grunhido de dor e surpresa escapou-lhe. Mas suas mãos, por instinto puro, permaneceram fechadas na escopeta. Ele não soltou a arma.

Por que não soltou?

A dúvida, uma lâmina de gelo, cortou a confiança de Shiro.

O ex-sumo acordou como um vulcão emergindo da terra. Ele rolou, a lona voando, seus pequenos olhos, inchados de sono, encontrando Shiro. Um rugido gutural nasceu em sua garganta.

Shiro viu o atirador, atordoado, começar a se arrastar para trás, buscando distância. Deixa ele ir. Foca no grande. A lógica era clara. Ele deslizou para frente, seu pé esquerdo varrendo o chão numa rasteira deslizante de taijutsu destinada a derrubar o colosso.

O ex-sumo viu o movimento. Era lento, previsível. Sua perna, um tronco de árvore, levantou-se e desceu, esmagando o ataque de Shiro antes que ganhasse força. O impacto reverberou pela perna do ninja, mas o homem mal se moveu. Ele apenas balançou, um tremor de irritação.

[Sanjuro]

"Muito lento. Você está pensando demais."

A voz sussurrou em sua mente. Não era sua. Era a voz de Sanjuro. Plana, crítica, vinda do fundo de seu crânio.

O ex-sumo avançou, um uppercut que subiu como um elevador de carga, buscando o queixo de Shiro. O atirador, agora a uns metros de distância, sacudia a cabeça, limpando a névoa, e erguia a escopeta, os olhos se focando com dificuldade.

Shiro tomou uma decisão. Não a melhor. A rápida. Ele plantou os pés e desferiu outro Shinken-ken, desta vez no plexo solar do ex-sumo. Ao mesmo tempo, torceu o torso para minimizar o golpe que vinha.

Seu punho acertou músculo denso, como bater em um saco de areia molhada. O ex-sumo ofegou, mas o uppercut roçou o queixo de Shiro, um raspão que fez seus dentes tremerem. O golpe de Shiro fora fraco. Reticente. Ele estava contendo a força, temendo o contra-ataque, temendo o tiro, temendo errar.

[Sanjuro]

"Sua técnica é falha, Aniki. Nossa força está nas pernas, mas você divide o treinamento com as mãos. Inconstante. Como sempre."

Shiro ignorou o fantasma. Ele viu uma abertura. Os dois estavam desequilibrados. Era a hora do Spinning Hachi, seu movimento icônico, uma tempestade de pernas que limparia o espaço. Ele se agachou, as mãos se apoiaram no chão úmido, seus músculos se enrolaram como molas.

O click-clack do mecanismo da escopeta foi o som mais alto do mundo.

O atirador, com um sorriso trêmulo de triunfo, puxou o gatilho.

BOOM!

A escuridão cuspiu fogo e aço.

Shiro abortou o giro num espasmo de puro instinto de sobrevivência. Ele se atirou para o lado, as pelotas de chumbo rasgando o ar onde seu torso estivera e estilhaçando o container atrás dele com um ruído de metal agonizante. Ele rolou, o coração batendo como um tambor de pânico.

Os dois yakuzas sorriram. Eram sorrisos feios, cheios de dentes e de uma confiança brutal que nascera do medo do ninja.

"Pare de fugir, Hannya fujona!"

(Pare de fugir, Hannya covarde!)

O ex-sumo rosnou, sua voz um bumbo de desdém. Ele avançou novamente, os braços abertos para um mata-leão, uma tentativa primitiva e perigosamente efetiva de acabar com a luta.

Shiro recuou. E novamente, quando o atirador, cambaleando, recarregou com uma cartucheira e ergueu o cano.

[Sanjuro]

"Fugindo. Sempre fugindo quando não tem um mestre para segurar sua mão."

Shiro sentiu a fúria, quente e impotente, subir em sua garganta. Ele não era covarde! Era… cauteloso. Estratégico.

O atirador terminou de recarregar. O ex-sumo calculou mal sua investida, chegando muito perto, seu equilíbrio comprometido pela fúria. Era a chance.

Shiro deslizou para frente num carrinho baixo, os pés primeiro, buscando derrubar o colosso pelas canelas.

THUD

Foi como chutar um poste de concreto. Os ossos do ex-sumo nem cederam. A dor subiu pelas pernas de Shiro. O yakuza olhou para baixo, um leve espanto em seu rosto redondo.

"Quer me irritar, moleque?" ele perguntou, sua voz agora carregada de uma paciência perigosa.

[Sanjuro]

"Até eu estou irritado com você."

O cano da escopeta se ergueu novamente. Shiro não pensou. Seus instintos de sobrevivência, mais fortes que suas dúvidas, tomaram conta. Ele saltou, não para trás, mas para cima. Usou o ombro do ex-sumo como trampolim, empurrando-se no ar. O mundo girou em câmera lenta. Ele viu o olho arregalado do atirador, a boca do cano seguindo-o.

No ápice do salto, seu corpo se torceu. O pé direito, concentrando toda a frustração e medo, desceu em um Shinken-ken aéreo direto no rosto do atirador.

O golpe acertou o olho. Não foi perfeito, mas foi suficiente. O yakuza gritou, a escopeta disparou para o céu, o tiro perdido. Ele tropeçou, as mãos voando para o rosto, a visão destruída em um olho.

Shiro aterrissou em um agachamento, ofegante. O ex-sumo rugiu de raiva, virando-se com surpreendente agilidade para seu tamanho.

O atirador, ainda de pé mas cego de um lado, tentou agarrar Shiro, os braços se fechando como uma armadilha. Shiro se desvencilhou, um movimento de jujutsu básico que parecia ridiculamente fácil. Ele empurrou o homem desequilibrado, e com um rápido chute no joelho, finalmente o derrubou. O atirador caiu, a cabeça batendo no concreto com um baque surdo, e não se moveu mais.

Um. Restava um.

O ex-sumo estava agora completamente de pé, sua respiração ofegante fazendo seu enorme peito subir e descer. Ele avançou, um tapa em arco que poderia decapitar um cavalo.

Shiro tentou outra rasteira, uma tentativa desesperada de repetir o que não funcionara. Desta vez, o ex-sumo estava pronto. Ele bloqueou com o pé, manteve o equilíbrio, e aproveitou a proximidade. A mão enorme, do tamanho de um prato, agarrou o gorro de Shiro, puxando-o.

O pânico inundou Shiro. Ele se contorceu, rasgando o tecido, escapando por um triz antes que os dedos encontrassem seu cabelo, seu pescoço. Ele se afastou, o coração martelando suas costelas.

O atirador no chão gemeu, tentando se levantar. Não. Não de novo.

Shiro correu, não para longe, mas para o homem caído. Desviou de um tapa desajeitado do ex-sumo e, no último segundo, saltou. Seu pé acertou o queixo do atirador num chute aéreo pontilhado. A cabeça do homem bateu no chão uma última vez, e o silêncio tomou conta dele.

Shiro aterrissou, virando-se para enfrentar o último inimigo. Eles estavam sozinhos agora, na clareira entre os contêineres, sob a chuva e o som distante da batalha.

O ex-sumo olhou para seu companheiro caído. Seu rosto, antes irritado, agora era uma máscara de fúria pura e primitiva. Ele avançou, sem técnica, apenas força bruta. Um soco direto, como um pilão.

Shiro tentou esquivar, mas era muito lento, muito hesitante. O punho, do tamanho de um martelo, acertou-o em cheio no peito.

O ar saiu de seus pulmões em um whoosh agonizante. A dor foi branca, avassaladora. Ele cambaleou para trás, vendo estrelas.

Mas a dor também limpou sua mente.

Varreu a dúvida. Varreu a voz de Sanjuro.

Sobrou apenas o instinto. O treinamento. E a raiva de ter sido atingido.

O ex-sumo, vendo-o fraquejar, partiu para outro soco, um golpe selvagem e amplo.

Shiro não recuou. Ele avançou para dentro do golpe. Seu corpo se torceu, sua mão direita formando o Shuto — a "Mão de Espada". Ela cortou o ar, encontrando o lado do pescoço do ex-sumo, no ponto onde a artéria carótida pulsava.

CHOP

O impacto fez o gigante estacar. Seus olhos se arregalaram, a fúria dando lugar a uma confusão profunda. Ele engasgou, tentando recuperar o fôlego.

Shiro não deu tempo. O ex-sumo, em desespero, lançou um último soco feroz, toda a sua massa por trás dele.

Shiro viu a abertura. A garganta exposta. O pomo de Adão saliente.

Ele lançou seu braço para frente, os dedos unidos e rígidos em uma última Shinken-ken. Desta vez, não houve hesitação. Não houve força contida. Foi a estocada final da flor que se abre sob a pressão da rocha.

Os nós dos dedos perfuraram a garganta com um som horrível e final.

CRACK

O ex-sumo parou. Seu soco perdeu força a centímetros do rosto de Shiro. Seus olhos se encontraram. Nos do yakuza, houve surpresa, depois um entendimento vazio, e então, nada. Ele caiu para trás, seu corpo maciço batendo no chão com um baque que fez o concreto tremer.

Silêncio.

Shiro ficou de pé, ofegante, a dor no peito latejando, a mão formigando. A chuva caía sobre ele, lavando o suor, mas não o tremor em suas pernas. Foi então que ele percebeu. Não estava sozinho. No limite da sombra, encostado em um container, estava Kaishakunin. Seu casaco branco era uma tapeçaria de sangue escuro e sujeira, seu rosto uma paisagem de violência recente. Ele não respirava ofegante. Apenas observava, seus olhos escuros e inescrutáveis fixos em Shiro. Shiro engoliu seco. A máscara de Hannya ocultava seu rosto, mas não a vulnerabilidade em sua postura. Ele forçou um riso, um som rouco e trêmulo que tentava ser despreocupado. "Ficou só olhando?" sua voz saiu mais fraca do que ele gostaria. Kaishakunin não sorriu. Seu olhar percorreu o cenário: os dois corpos, o atirador e o ex-sumo inconscientes. Depois, voltou a Shiro. Quando ele falou, sua voz era um rosnado baixo, mas carregado de um significado que Shiro não conseguiu decifrar completamente. "Vim ajudar", Kaishakunin disse, as palavras saindo lentamente. "Mas achei mais interessante assistir." Ele fez uma pausa, os olhos parecendo perfurar a máscara de Shiro. "O desabrochar de uma flor." Ele deu um passo para trás, fundindo-se novamente com as sombras, deixando Shiro sozinho com seus mortos, sua dor e o eco estranhamente reconfortante daquelas palavras na chuva fria.
[ OPERAÇÃO LUFADA — FASE 2 ]

Ataque ao Porto de Shinkawa

Parte 8: O Vento Gelado e a Sombra do Medo



Ela não era Amélie Boucher naquele momento. Era um presságio. Um movimento de ar congelado entre os containers, uma disrupção na física da noite. A balaclava preta engolia seu rosto, seus traços, sua humanidade. Só restavam os olhos, estreitos e escuros, refletindo a luz mortiça como gelo quebrado. Na mão direita, a faca customizada Seconde Chance — uma promessa curta e cruel de aço.

Seus alvos eram caricaturas da negligência. Um Matsuba, magro, nervoso, com o olhar vago de um sonâmbulo. Ele apontava uma Beretta 92FS não para uma ameaça, mas para uma libélula que zumbia sob uma lâmpada quebrada, o dedo no gatilho com a curiosidade entediada de uma criança. Atrás dele, um Yamazaki que era menos homem, mais acidente geológico. Musculatura hipertrofiada, tatuagens de dados e chamas subindo por um pescoço de touro, cabelos uma tempestade negra e oleosa. Ele estava estendido no chão como uma foca em uma rocha, um bastão hanbō ao lado, os olhos vidrados na tela portátil de um jogo de baseball repetido. O som abafado do locutor era um sussurro surreal no ar úmido.

Ela não atacou. Materializou-se.

Um passo, dois, silenciosos como a queda de uma pena no veludo. Ela estava sobre o atirador antes que seu cérebro pudesse registrar a sombra que se alongava. O corpo de Amélie se dobrou em um arco de eficiência pura. A Seconde Chance entrou pelas costas dele, logo abaixo da omoplata, uma punhalada profunda e precisa que procurou o pulmão. A lâmina girou, saiu. Antes que o grito pudesse nascer, sua mão esquerda agarrou o braço que segurava a arma, e a faca desceu novamente, desta vez pela axila, rasgando tendão, nervo, tudo que dava força àquele membro.

O corpo do Matsuba convulsionou. A Beretta disparou, o tiro perdido explodindo a libélula em um borrão de asas e indiferença. Ele caiu de joelhos, um gemido rouco escapando, o braço agora um peso inútil pendurado no ombro.

O grandalhão Yamazaki virou a cabeça, seus olhos saindo lentamente da tela. O tiro? Meh. O parceiro caindo? Interessante. A figura em preto, faca pingando, surgindo do nada? Isso fez seus olhos — pequenos e profundos como buracos de bala — se arregalarem. Um grunhido de surpresa genuína saiu de sua garganta. Ele se levantou, não com a agilidade de um lutador, mas com a inevitabilidade lenta de um navio levantando âncora.

Amélie já estava em movimento. O Matsuba ferido, na onda de adrenalina e desespero, lutava para se levantar, a mão boa procurando algo no cinto. Ela se colocou entre os dois, um ponto de equilíbrio dinâmico. Seu pé esquerdo varreu o chão numa rasteira militar, econômica, destinada a derrubar o ferido e criar espaço.

O Matsuba caiu de novo com um baque. O grandalhão, tentando se mover, levantou a perna para bloquear. O pé de Amélie, calçado em uma bota tática, conectou-se com a canela dele. Não foi um impacto devastador, mas foi preciso, duro. O yakuza rugiu, mais de surpresa e irritação que de dor, mas sua perna cedeu um pouco. Ele permaneceu de pé, mas agora mancando, seu olhar entediado substituído por uma fúria crescente.

O ferido rolou para longe, uma lesão rastejante. O grandalhão partiu para o ataque. Não foi um soco ou chute. Foi um agarrão, uma tentativa primitiva de usar sua massa esmagadora. Seus braços, grossos como pernas de mesa, se abriram.

Amélie se esquivou para longe, não fugindo mas ganhando distância. Quando ela notou o ponto exato de desequilíbrio do yakuza desgrenhado, ela agiu. Dois passos rápidos, e ela lançou um chute frontal, a sola da bota acertando o esterno do grandalhão com um impacto que o fez recuar, ofegante. Antes que ele recuperasse o equilíbrio, seu corpo girou. O roundhouse que seguiu não foi um chute de filme; foi um movimento de quadriz e base, uma foice de couro e aço.

CRUNCH

A lateral do pé conectou-se com o lado da boca do yakuza. A carne esfolou, três dentes brancos voaram no ar como grãos de arroz, e sua língua foi aberta em um corte raso que começou a sangrar copiosamente. Ele caiu de joelhos, cuspindo sangue e ódio.

O Matsuba ferido, vendo a abertura, reuniu suas últimas forças. Com um grito rouco, ele se lançou em um chute desesperado da posição do chão, ao mesmo tempo em que o grandalhão, cego pela dor e humilhação, se levantou e desferiu um soco cego e poderoso em direção ao centro de massa de Amélie.

Ela não teve tempo para esquiva elegante. Seu corpo reagiu com a economia brutal do treinamento de combate corpo a corpo. Ela fechou a guarda, os braços cruzados protegendo o torso, os músculos abdominais contraindo em uma placa de aço. O soco do grandalhão a atingiu no antebraço — um baque surdo que enviou um choque até seu ombro, mas não a quebrou. O chute do Matsuba, mais fraco, ela agarrou com a mão esquerda, os dedos fechando-se como uma pinça no tornozelo.

E então, no espaço de um piscar de olhos, enquanto o grandalhão se recuperava do próprio golpe, ela agiu.

A mão direita, ainda segurando a Seconde Chance, realizou um movimento quase casual.

Um rápido golpe descendente, uma linha prateada no ar úmido.

A lâmina passou pela parte interna da coxa do Matsuba ainda no chão, rente à virilha.

Não foi um corte. Foi uma incisão cirúrgica.

A lâmina afiadíssima abriu a pele, o músculo, e encontrou a artéria femoral. Rasgou-a por uma extensão horrível.

Um jorro de sangue arterial, escarlate e pulsante, jorrou como uma fonte no ar noturno.

O som era o de um assobio úmido. O rosto do Matsuba perdeu toda a cor em um segundo, transformando-se em uma máscara de giz. Seus olhos, cheios de surpresa, depois de confusão, depois de um vazio crescente, encontraram os de Amélie por uma fração de segundo. Ele nem gritou. Apenas caiu para o lado, as mãos tentando inutilmente conter o dilúvio que escapava de seu corpo. A morte chegou rápido, silenciosa e absoluta.

O grandalhão, tossindo sangue, mal havia registrado a queda do companheiro. Ele viu a mulher de preto, imóvel, e lançou-se em outro ataque, um soco mais baixo, destinado às suas costelas.

Amélie já estava se movendo. A guarda fechou novamente, absorvendo o impacto. Simultaneamente, seu pé esquerdo disparou em um chute baixo de savate militar, a ponta da bota encontrando a rótula do yakuza com precisão de maquinário.

POP

O som do deslocamento foi nítido e repulsivo. O joelho do homem se dobrou para o lado em um ângulo errado. Antes que a dor total pudesse alcançar seu cérebro, um segundo chute, no mesmo ímpeto fluido, atingiu-o no peito, enviando-o para trás. Ele caiu, a perna ferida torcendo sob seu peso com um rangido de osso e ligamento. Seu urro de agonia encheu o ar, um som animal de sofrimento puro.

Fácil. Tão fácil que era quase deprimente.

A violência, nas mãos certas, era apenas uma questão de física e psicologia aplicada.

A frieza do ato a envolvia como uma segunda pele.

E então, o som a atingiu.

Pop-pop-pop-pop.

Não era o urro do homem no chão.
Era uma rajada de tiros vindos do outro lado do pátio de contêineres.

Muito rápido. Muitos. Uma escopeta, sim, mas também o som distinto de uma pistola automática.

A posição de Ryan e Renan.

O gelo em suas veias derreteu em um instante.

Substituído por um líquido gelado e familiar: o pânico.

Imprudente.

A palavra ecoou em sua mente como um sino de culpa. Trazer Ryan, depois de tudo que ele passou. Trazer Renan, enferrujado, gigante e lento. Por quê? Por orgulho? Por querer protegê-los mantendo-os por perto?

Ela se lembrou, com a clareza de uma facada, da intenção de convidar Reyna Alvarez, a força cubana bruta e confiável. Mas os preparativos, a pressa, o peso de comandar… ela havia esquecido. Um erro de omissão. Um erro estúpido.

As imagens vieram, não pedindo permissão:

Shintō Nagano. Seu sorriso, raro e verdadeiro. A promessa sussurrada na escuridão. "Até a morte." E então a luz do dia, um clarão no telhado oposto, o estalo seco do rifle de atirador de elite. O corpo dele, pesado, caindo em seus braços. O calor fugindo dele, levado pelo vento que também levava seu futuro. A culpa. A culpa infinita por não ter visto, por não ter protegido, por tê-lo arrastado para sua guerra.

Sanjuro. O garoto, desajeitado e brincalhão, suas piadas ruins. Seu rosto, depois, irreconhecível, inchado e quebrado por horas de tortura nas mãos de Zatorii. Ela chegara tarde. Sempre tarde. Os corpos já estavam frios, a violência já havia feito sua festa. O cheiro de morte e fracasso.

E agora, os tiros. Tiros demais para estar sob controle. Ryan, o Fantasma, mestre da discrição, não travava troca de tiros a menos que encurralado. Renan, o colosso, um alvo enorme e lento para balas.

"Merde."

Ela sussurrou para a noite, a palavra saindo como uma maldição e uma oração.

Ela não olhou para trás para o grandalhão chorando de dor no chão. Não deu um tiro de misericórdia. A violência eficiente de momentos antes evaporou, substituída por uma urgência frenética e cega.

Ela se virou e correu.

Seus pés martelavam o concreto, não com a elegância silenciosa de antes, mas com o som bruto do desespero. A balaclava preta se encheu do vapor quente de sua respiração ofegante. A Seconde Chance, ainda pingando o sangue de um homem morto, estava firmemente embainhada. Tudo que importava agora era o som dos tiros.

Cada pop era um golpe em seu peito. Cada rajada, um eco dos tiros que tiraram Shintō. Ela se via correndo de novo, sempre correndo, sempre chegando tarde demais para salvar os que amava de suas próprias guerras.

A Yuki no Onna havia desaparecido.

No seu lugar, corria apenas Amélie Boucher,

uma mulher aterrorizada de perder mais dois pedaços de seu coração já tão dilacerado,

na noite úmida e cheia de morte de Shinkawa.

[ OPERAÇÃO LUFADA — FASE 2 ]

Ataque ao Porto de Shinkawa

Parte 9: A Luta Encarniçada



O caos tinha uma sinfonia própria, e Renan e Ryan corriam para seu verso. Viram Boucher, uma sombra dourada e preta, engajar dois yakuzas com uma eficiência que beirava o desdém. Ela fazia parecer um exercício de rotina, um desaquecimento antes do verdadeiro trabalho. Por um momento, aquilo os acalmou.

Até chegarem ao seu próprio trecho do inferno.

O cais era uma língua de concreto podre avançando sobre a água escura. Dois homens os aguardavam. Um deles, um Yamazaki guerreiro, com músculos forjados em brigas de rua, não em academias. Alto, magro e perigoso como um sabre, ele esmagou um cigarro com o calcanhar e prendeu o olhar neles, um predador avaliando uma presa nova e estranha. O outro, um Yamazaki careca, a pele da testa tatuada com um copo de dados, se agachava atrás da carcaça enferrujada de um caminhão abandonado, a mão firmemente no punho de uma escopeta pump action de cano longo. Seus olhos, pequenos e vivos, vasculhavam as sombras protegido pelo ferro corroído.

"Me dá cobertura, grandão? Pego o jeito lento", Ryan sussurrou, sua voz um fio de seda na tensão.

"Pego o jeito lento…", Renan rosnou, mas a frase foi engolida pelo rugido do próprio sangue. Ele fechou os dedos ao redor do soco inglês, o metal frio uma âncora na palma suada.

Eles avançaram. Renan, um colosso em movimento, convergiu para o guerreiro yakuza. Seu primeiro soco não foi um golpe; foi uma declaração, um movimento de todo o corpo que carregava o peso de sua raiva e ansiedade. O ar sibilou.

O guerreiro yakuza arregalou os olhos. Ele não bloqueou; esquivou-se, uma rotação elegante e econômica que o tirou do caminho.

BANG!

O punho de Renan, destinado a esmagar um crânio, encontrou a lateral do container com um impacto metálico que fez o ferro ceder e tremer.

Tari Juru

— não uma luta, mas uma coreografia sagrada de ataque e defesa —

Ryan, por sua vez, deslizou como fumaça. A três metros do atirador, seu foco se estreitou. O mundo externo desapareceu — o som da luta, a preocupação com Renan, tudo se dissolveu no ritual. Ele sacou os dois bastões kali, os sentiu como extensões de seus braços, e inspirou. O Tari Juru começou. Ele fechou a distância com o atirador, uma dança de passos rápidos destinada a impedir um tiro contra Renan.

Seu primeiro ataque, um rápido floreio de bastões, foi mais um aviso do que um golpe. Acertou o ombro do careca com um thwack decepcionantemente fraco.

"Ugh, koso!" (Ugh, seu idiota!) o atirador rosnou, recuando, mais irritado que ferido.

Do outro lado, o guerreiro, recuperado do susto, atacou. Vendo o gigante ligeiramente desequilibrado, ele desferiu um uppercut certeiro em direção ao queixo barbudo de Renan.

Renan, porém, já estava se movendo. Seu contra-ataque foi um reflexo condicionado — o punho direito, carregado com todo o peso de seu corpo girando, voou como um cometa de carne e aço.

O guerreiro yakuza teve apenas um instante. Ele fechou a guarda, cruzando os antebraços diante do rosto.

CRUNCH

O impacto foi monstruoso. Não foi o som de osso quebrando, mas de algo cedendo sob pressão extrema. A pele dos antebraços do yakuza se rasgou, os cotovelos emitiram um rangido de alerta. A força do golpe o empurrou para trás, seus pés arrastando no concreto.

[Coração Mole]

"Ele tentou se proteger. Ele é apenas um garoto. Se não tivesse fechado a guarda… eu o teria matado. Contenha-se. Não é necessário."

Hesitante, Renan atacou novamente. Um jab rápido, mais para ganhar distância do que para machucar. Foi um erro.

O guerreiro yakuza, sentindo a hesitação, explodiu em movimento. Seu corpo girou, um chute baixo e poderoso que visava arrancar as pernas de Renan do chão.

Renan encolheu-se, protegendo as pernas com os braços, mas o chute o atingiu nas coxas com força. A dor latejante foi um lembrete brutal de sua vulnerabilidade.

Enquanto isso, Ryan dançava. Seu Tari Juru fluía, um rio de movimentos predeterminados. Ele lançou um ataque coordenado com os dois bastões, justamente quando o atirador tentava fazer mira. Um bastão desviou o cano da escopeta, o outro atingiu o crânio careca com um baque surdo. Novamente, fraco demais. Tudo bem, ele pensou, forçando o otimismo. Está sob controle. É só uma questão de tempo.

Ele tentou finalizar a coreografia, um ataque sincronizado poderoso. Mas o atirador, mais ágil do que parecia, recuou, ganhou distância e ergueu a arma.

Pop!

O tiro da escopeta encheu o ar. Ryan, já em movimento, rolou para baixo e para frente, as pelotas de chumbo estilhaçando o concreto atrás dele. Ótimo, ele pensou, o suor frio escorrendo pela nuca. Agora a coreografia tem uma esquiva no final. Adaptável.

De volta ao duelo dos titãs, o guerreiro aproveitou a distância curta e deu um pequeno salto, sua testa buscando a têmpora de Renan numa cabeçada suicida.

Renan foi mais rápido. Seu punho cruzou o espaço entre eles como um pilão. O yakuza, novamente, ergueu os braços machucados a tempo.

THUD

O impacto fez o homem recuar dois passos, seus antebraços agora uma massa crua e sangrenta.

Renan avançou com outro jab. O guerreiro, insano, respondeu com outra cabeçada. Foi uma troca brutal de ignorância e força. A testa do yakuza bateu na de Renan com um baque seco. Renan viu estrelas, mas a pele não se abriu. Em troca, seu soco encontrou o baço do homem.

O guerreiro emitiu um rosnado de dor aguda, dobrando-se levemente.

Ryan, vendo uma abertura, avançou. Seu Tari Juru ditava o movimento: fechar, desarmar, neutralizar. Ele se lançou, os bastões girando.

O atirador, porém, prevendo o padrão, simplesmente deu um passo para trás, evitando os golpes com uma frustrante facilidade.

Renan, sentindo a batalha se alongar perigosamente, desferiu um soco frontal poderoso. O guerreiro, quase por reflexo, fechou a guarda mais uma vez.

BAM!

Desta vez, a guarda falhou. Os braços já machucados se abriram com o impacto, e um grito de fúria e dor escapou do yakuza.

Goveia, impulsionado pelo sucesso momentâneo de Renan, atacou. Um golpe forte de bastão, calculado para desarmar. Mas o atirador cometeu um erro — em vez de recuar, ele se lançou para um agarramento.

O bastão de Ryan encontrou a mão — a esquerda. O careca gritou, a dor o fazendo recuar. "Mas foi na mão errada, Goveia!" o Fantasma se censurou internamente, uma onda de frustração submergindo seu otimismo. O desarme ainda não acontecera.

Renan, vendo o guerreiro cambaleante, decidiu acabar com aquilo. Avançou com um soco final, tentando ser preciso, tentando ser humano.

O guerreiro sorriu. Um sorriso de sangue e dentes quebrados. Ele não tentou bloquear. Esquivou-se como um toureiro, seu corpo girando, e quando Renan passou por ele, seus braços se fecharam como uma armadilha de aço em volta do pescoço do gigante.

Um movimento de torção brutal, sujo, vindo das ruas.

Renan rugiu, uma mistura de dor e pânico. Ele se contorceu, sua força bruta finalmente prevalecendo, se desvencilhando do golpe. Mas quando se afastou, a dor no pescoço era uma faca latejante, ameaçando sua visão periférica.

Pop-pop!

O atirador, recuperado, atirou. Ryan, seu Tari Juru agora um mantra de esquiva, deslizou para o lado, as pelotas passando por onde seu corpo estivera um instante antes.

Foi nesse momento que ela chegou. Ou melhor, seu grito chegou primeiro — um agudo, feroz uivo de frustração cortando o ar, vindo de alguma distância. Amélie. Mas ainda não estava ali.

O atirador recarregou. O som metálico da bomba da escopeta era uma sentença de morte.

Ryan, preso à coreografia, avançou. Era o que o Tari Juru ditava: atacar quando o inimigo está vulnerável no recarregamento. Seus bastões giraram.

O careca, porém, não estava vulnerável. Ele apenas deu um passo para trás, um movimento evasivo simples, e a bomba da escopeta clack-clackou novamente, o cano se erguendo.

Renan, a visão turva pela dor no pescoço, avançou contra o guerreiro. Era um movimento pesado, previsível. O yakuza, exausto mas triunfante, aceitou a troca. O jab de Renan contra outra cabeçada.

A dor na cabeça de Renan foi uma explosão branca. Mas através da névoa, ele viu o rosto do guerreiro se contorcer — seu soco, mesmo fraco, havia encontrado algo vital. O homem cuspiu sangue.

E então, finalmente, Amélie Boucher apareceu.

Não de forma graciosa. Ela surgiu da escuridão correndo, uma tempestade de frustração e raiva personificada.

Seus olhos, mesmo à distância, queimavam como carvão.

Ela testemunhou Renan, o imenso, o inabalável, ser agarrado pelo guerreiro yakuza e arremessado contra uma parede de container.

O som do corpo de Renan batendo no metal foi horrível. Ele caiu de cabeça para baixo, um emaranhado de membros gigantescos no chão, emitindo um grunhido rouco de dor e desorientação.

Mas o som que seguiu foi pior para Amélie:

Pop!

Do outro lado do caminhão. Ryan ainda estava na dança da morte.

Sem pensar, movida por um pânico mais profundo que a estratégia, ela ignorou Renan cambaleante. Seus pés encontraram a lateral do caminhão, depois o container atrelado, e ela escalou, não com a elegância de uma infiltradora, mas com a urgência brutal e desesperada de uma fera. Em um movimento fluido, ela se colocou no topo, uma silhueta contra o céu poluído.

Do outro lado, viu a cena: Ryan, suado, ofegante, seu Tari Juru agora uma paródia de si mesmo, recuando enquanto o atirador careca, com um sorriso cruel, erguia a escopeta para um tiro à queima-roupa.

A fúria, a culpa, o medo — tudo coalesceu em um instante de decisão gelada.

Ela saltou.

Não foi um salto gracioso. Foi uma queda controlada, seus joelhos absorvendo o impacto com um choque que enviou ondas de dor pelas pernas. Ela ignorou. A Glock modificada já estava em sua mão, uma extensão de sua vontade.

O mundo desacelerou. O dedo do careca no gatilho. O cano da escopeta. Ryan começando sua esquiva, tarde demais.

Crack! Crack!

Dois tiros, precisos e implacáveis, da Glock de Amélie. Eles atingiram o atirador no peito e no ombro, não como balas perdidas, mas como correções divinas. O homem foi arremessado para trás, a escopeta voando de suas mãos. Ele caiu de joelhos, um suspiro de espanto e dor escapando de seus lábios.

Mas ele não estava morto. Ainda se mexia, uma fera ferida.

Amélie avançou, mancando, a dor na perna uma queimação distante. A Seconde Chance surgiu em sua outra mão. Ela partiu para o abate final.

E falhou.

A frustração, o desgaste, o tremor na perna — tudo conspirou. A lâmina, destinada ao coração ou à jugular, cravou-se no músculo do ombro do homem, uma perfuração dolorosa, mas não fatal. O rugido que escapou de sua garganta não foi de triunfo, mas de pura, incontida fúria.

Foi Ryan, o Fantasma, que terminou. Vendo a abertura, ele abandonou a coreografia. Foi apenas um homem, com um bastão, e uma oportunidade. O golpe que desferiu não foi coreografado, não foi espiritual. Foi brutal, direto e poderoso, contra a têmpora do yakuza. O baque foi final. O corpo do careca desabou, inconsciente.

Renan chegou, arrastando-se, ofegante como um touro após uma tourada. Seu rosto estava inchado, um olho começando a fechar, mas ele abriu um sorriso torto, aliviado ao ver Ryan em pé e o inimigo derrotado.

Ryan sorriu de volta para Boucher, exausto mas vivo. Iria dizer algo, uma piada, um alívio. "A loba chegou no final da festa…"

Mas as palavras morreram em seus lábios.

O rosto de Amélie não era de alívio.

Era uma máscara de fúria pálida e trêmula.

Seus olhos, que antes viam através de você, agora pareciam vê-lo como uma falha, um erro de cálculo agonizante.

"SEUS IMPRUDENTES!"

O grito dela não foi humano. Foi um uivo de loba ferida, agudo e cortante o suficiente para silenciar até os ruídos distantes da batalha.

"SE SEPARAREM E DEIXAREM O INIMIGO ARMADO POR TANTO TEMPO, ONDE ESTAVAM COM A CABEÇA, PUTAIN!!!"

Cuspiu a última palavra como um veneno. E então, antes que qualquer explicação, qualquer desculpa pudesse se formar, ela se virou.

Shiro. Ainda havia Shiro.

Ela partiu em uma corrida, não a corrida tática de antes, mas uma corrida de desespero, mancando visivelmente, desaparecendo na escuridão entre os contêineres.

"Chefa, eu…" Ryan tentou, sua voz um sussurro rouco perdido no vazio que ela deixou.

Renan, o rosto queimando de vergonha sob a sujeira e o sangue, balbuciou para o ar: "Vou… tentar o comunicador." Mas ela já não estava lá para ouvir.

Ryan: "Shiro? Status."

Shiro: "Est… estou bem. Neutralizado."

"ELE ESTÁ BEM!" Ryan gritou na direção que Amélie tinha ido, sua voz ecoando nos containers.

Nenhuma resposta. Apenas o som de seus próprios passos apressados se afastando.

Um olhar passou entre Ryan e Renan.

Não de vitória.

De vergonha compartilhada, de uma decepção profunda.

A adrenalina da sobrevivência congelou-se no gelo da reprovação daquela que mais importava.

Sem uma palavra, os dois se moveram.

Renan, pesado e dolorido. Ryan, ágil mas com o espírito abatido.

Eles não iam se limpar, não iam comemorar. Iam atrás dela.

Porque o jovem ninja, Shiro, não escaparia da fúria da loba.

E eles precisavam estar lá.

Para protegê-lo dela.

E, talvez, numa parte pequena e amedrontada de suas almas, para protegê-la dela mesma.

[ OPERAÇÃO LUFADA — FASE 2 ]

Ataque ao Porto de Shinkawa



Parte 10: Um Pé a Menos em Shinkawa

O silêncio relativo que descera após a fúria de Boucher foi quebrado não por um som, mas por um vazio de movimento chamado Seong Su-On. Ele surgiu na entrada do corredor principal de contêineres, "andando rápido" — que, para ele, era o equivalente a uma corrida de pânico. Seus olhos vazios escanearam a cena: Chizue, de pé sobre um amontoado informe que já foi um yakuza, gritando e xingando o cadáver como se ele pudesse se levantar para mais uma rodada.

"Sore wa chigau yo, baka! Anata no panchi wa watashi no 8-sai no oi no panchi yori mo yowakatta no yo!"

(Tá errado, seu bosta! Teu soco era mais fraco que o do meu sobrinho de oito anos!)

Ela chutou o torso desfigurado, que apenas balançou com um som úmido.

Su-On suspirou, um som quase inaudível, e rolou os olhos para o teto de contêineres invisível. Preferiu não perguntar.

"Chizue," ele disse, sua voz monótona cortando o ar como um canivete cego. "Tem outra do clube. Para lá." Ele apontou com o queixo na direção escura onde Boucher desaparecera, para onde os sons de fúria e frustração ainda ecoavam fracamente.

"Kuso!" Chizue cuspiu, mas então um sorriso largo e insano se abriu em seu rosto. "Tem razão!" Ela deu uma risada alta, gutural, que ecoou no ferro. "E eu achando que esses dois bostas tinham tirado toda a minha diver—"

O universo decidiu que ela não terminaria aquela frase.

A porta de metal da pequena guarita enferrujada, a vinte metros deles, não se abriu.

Explodiu.

Foi arrancada das dobradiças por um impacto interno e voou como um disco de metal maldito, batendo e rangendo no chão.

Da abertura fumegante, surgiu Kenji Yamazaki.

Era uma versão pesadelo do irmão famoso. Alto, sim, mas magro de uma magreza tensa e não saudável, músculos definidos por químicos e ódio, não por treino. O cabelo, um espetado loiro-platinado imitando Ryuji, estava desgrenhado e sujo de fuligem. Seus olhos eram dois poços negros e dilatados, a pupila engolindo a íris, vidrados em um pânico furioso.

Em suas mãos, uma Glock 18 platinada, cintilando sob a luz fraca. E ela não parava de cuspir fogo.

BRRRT-BRRRT-BRRRT-BRRRT!

Não eram tiros. Era uma rajada cega, uma saraivada automática que pintou o ar noturno com linhas traçantes de fogo laranja.

A madeira dos paletes próximos estilhaçou. O metal dos contêineres cantou, marcado por uma dúzia de novos buracos. Vidro de uma lâmpada distante choveu em estilhaços.

Chizue e Su-On não tiveram tempo de se admirar. Instintos primitivos de sobrevivência falaram mais alto. Eles se jogaram no chão simultaneamente, Su-On atrás de um barril, Chizue atrás do cadáver que ela acabara de chutar — uma proteção macabra, mas eficiente. As balas assobiaram sobre suas cabeças, o som ensurdecedor do fogo automático enchendo o espaço.

"KONO KUSO YARŌ-DOMO-ME! ORE O IKEDORI NI DEKIRU TO OMOTTERUNARA, OMAE WA SHŌKI JANAI!"

(SEUS FILHOS DA PUTA! SE ACHAM QUE PODEM ME PEGAR, VOCÊS NÃO PASSAM DE LIXO!)

A voz de Kenji era um grito rouco, agudo, carregado de pavor e uma arrogância quimicamente induzida. Tão imprecisa e espalhafatosa quanto sua mira.

Quando a fumaça baixou um pouco e o eco dos tiros morreu, Kenji ficou exposto no vão da porta destruída, iluminado pela luz trêmula que vinha de dentro da guarita. A Glock 18 em suas mãos emitia um som seco, metálico.

Click. Click.

Pente vazio.

O rosto de Kenji, antes uma máscara de fúria psicótica, se transformou em puro pânico. Ele começou a vasculhar freneticamente os bolsos do casaco de couro caro, atrás de um carregador extra.

Su-On, de trás do barril, olhou para Chizue. Seus olhos normalmente vazios estavam levemente arregalados. A pergunta não verbal era clara: "E agora?"

Chizue, deitada sobre o cadáver, encontrou seu olhar. O sorriso insano de antes se transformou em algo mais perigoso: uma determinação focada e sádica. Ela rangia os dentes, um som de rato em uma engrenagem.

Colt Python .357 Magnum

Cano longo, níquel polido. Uma arma de outra era.

Um troféu de um namorado louco americano duas décadas atrás.

Pesava como um pequeno ferro de passar na mão dela.

Lentamente, com um movimento deliberado que contrastava brutalmente com o caos de momentos antes, ela se levantou. Sua mão desapareceu sob a jaqueta de couro e saiu segurando não seu bastão, mas a peça de artilharia pessoal.

Kenji finalmente encontrou o carregador, suas mãos trêmulas tentando encaixá-lo.

Chizue não correu. Não se escondeu. Ela apenas ergueu a Python com as duas mãos, numa pose que era metade policial do seriado B, metade pistolera de faroeste psicótico. Seus óculos escuros refletiam a luz fraca.

"Kuchi o tojiro, kono amayakasa reta gaki-me!"

(Cala a boca, seu pirralho mimado e estragado!)

Ela gritou, sua voz um rosnado de puro desprezo.

E então, ela puxou o gatilho.

KABOOM

O som não foi o pop das 9mm ou o boom das escopetas.

Foi um trovão de fogo e aço que abafou todos os outros ruídos do porto.

A luz da queima da pólvora iluminou seu rosto cicatrizado por uma fração de segundo.

A bala de .357 Magnum, um projétil pesado e devastador, não foi para o peito, nem para a cabeça.

Foi para o pé direito de Kenji Yamazaki.

O tênis de couro caro, o tornozelo, os ossos delicados do tarso e metatarso —

tudo simplesmente desintegrou-se em uma explosão de couro, tecido, osso e carne.

Não foi amputado limpo. Foi arrancado, transformado em uma pasta sanguinolenta que pintou a parede atrás dele.

Kenji nem gritou imediatamente.

Ele apenas olhou para baixo, seus olhos dilatados tentando processar o vazio onde um segundo antes havia um pé.

Então, a dor — uma onda de agonia branca e absoluta — alcançou seu cérebro.

"AAAAAAAHHHHHHGGGGGUUUUAAAAAAA!!!"

O grito foi um uivo animal, um som de tormento puro que rasgou a noite. Ele caiu no chão, agarrando o coto fumegante e jorrando de sua perna, rolando em agonia, sua dignidade, sua pose de yakuza, sua química — tudo se dissolveu naquele mar de dor.

Su-On se levantou atrás do barril.

Seus olhos, agora francamente arregalados, saltaram do coto jorrando para o rosto impassível de Chizue, depois de volta para o pé (ou o que restava dele).

"VOCÊ ARRANCOU O PÉ DELE!"

Chizue olhou para a Python fumegante em sua mão, depois para Kenji se contorcendo, e por fim para Su-On.

Um sorriso sem graça, quase constrangido, surgiu em seus lábios.

Ela guardou a arma com um movimento fluido.

"Oopsie…"

A palavra absurda e infantil saindo como um sussurro rouco.

"Olha o lado bom! Pegamos ele vivo!"

Foi quando os Quatro Cães TakumiBaka, Baki, Buko e Buke — chegaram correndo, atraídos pelo espetacular tiroteio. Eles pararam em seco, vendo a cena: o herdeiro Yamazaki reduzido a um monte choroso agarrando um toco, e os dois estranhos — a mulher com cara de anjo e cicatrizes, o homem com cara de entregador — de pé no meio do carniceiro.

Eles se puseram a trabalhar com eficiência brutal. Amarraram um torniquete rápido e forte acima do joelho de Kenji, o que fez o homem gritar novamente, mas o jorro de sangue diminuiu para um filete. Ele ia perder aquele membro para sempre, mas talvez, num futuro distante, uma prótese o confinasse a um papel burocrático — menos perigoso, mais útil para quem quisesse controlá-lo.

Quando Buke finalmente olhou para cima, para dar uma ordem de dispersão aos dois civis psicóticos antes que Kenji os visse bem e pudesse identificar…

Eles já haviam sumido.

Chizue e Su-On não estavam mais lá.

Apenas o cadáver, o barril com marcas de bala, a porta destruída,

o cheiro de pólvora, sangue e uma única bota de couro caro,

agora vazia e manchada de vermelho,

testemunhavam a breve, brutal e perfeitamente errada

captura de Kenji Yamazaki em Shinkawa.

Operação Lufada


Renan: "Garoto, você está bem?"

Shiro: "Sim, só cansado, mas os dois aqui estão muito pior."

Renan (ao longe): "ELE ESTÁ BEM! ELE ESTÁ BEM!"

Tarde demais.

Boucher chega onde Kaishakunin e Shiro estão. Ela vê a cena — Shiro bem, sem nenhuma marca visível, mas cansado, seus dois alvos derrubados. Mas ela ouviu os tiros. Soube que ele se arriscou. E demorou muito para o gosto dela.

Ela empurra Kaishakunin para o lado, um feito monumental tirado da fúria querendo explodir, e anda a passos largos apontando para Shiro, já xingando em francês.

Afunda o dedo no peito dele que, se fosse afiado, penetraria.

"QUE VOCÊ PENSA QUE ESTAVA FAZENDO, SHIRO!"

"VOCÊ DEMOROU MUITO! PERMITIU QUE ATIRASSEM EM VOCÊ! PORQUE NÃO USOU SUA ESPADA?"

Ela está querendo um motivo, somente um, para estourar em fúria.

Shiro, com seu treinamento ninja, percebe isso. E sua resposta é vazia de qualquer emoção.

"Eles não eram desafio. Queria uma luta limpa, evitando matá-los. Decidi não usar a espada pois ela tem um corte característico — yakuzas não usam esse tipo de lâmina. Evitei cometer erros, tomei meu tempo. Tudo sob meu controle, tudo no prazo operacional."

Olha nos olhos dela, com a frieza de uma estátua.

"De acordo com suas instruções."

Kaishakunin, que resolveu assistir tudo encostado num container, fala:

"O garoto lutou bem. Vi quando ele desabrochou."

A fúria de Boucher havia sumido.

"Bom trabalho, Shiro."

Mas o momento foi quebrado com um barulho estridente —

BRRRT-BRRRT

uma arma leve automática sendo disparada em rajada completa,

seguida de um estampido seco e estalado que cortou o ar.

Boucher puxa Shiro pela manga, não de forma violenta, para guiá-lo a segui-la:

"Shiro, Kaishakunin, comigo!"

Ela fala enquanto corre para a direção do barulho — as guaritas.

Ao chegarem, viram a cena: os Cães Takumi ajudando um pálido Kenji Yamazaki a se levantar. O garoto tinha seu espalhafatoso casaco de peles branco encharcado de sangue e mancava, uivando de dor e ameaçando desmaiar a cada pulo.

Finalmente eles viram o pé. Ou melhor, a ausência dele.

No lugar, um coto sangrento selado em um eficiente torniquete feito com a seda da própria calça dele.

Escondidos nas sombras, com o rosto de culpa expressa, estavam Su-On e Chizue. Su-On de olhos arregalados, olhando preocupado. E Chizue com as mãos na cintura, sobrancelhas levantadas e sorriso irônico e nervoso.

Boucher mandou os dois se aproximarem. Su-On foi cabisbaixo, mãos nos bolsos. Chizue foi com atitude, mãos dos lados gesticulando "mea culpa".

Boucher (fria): "Foram vocês que fizeram isso?"

Chizue (na cara dura, com um sorriso): "Fui eu. Ele atirou..." (Ela dá umas batidinhas na sua Colt Python) "...atirei de volta."

Boucher (com gravidade autoritária): "Ele está sem um pé."

Su-On (com não característico alarme): "Não havia o que fazer, o maluco atirava para todos os lados, chegar perto era loucura!"

Kaishakunin (para confirmar): "Então foi você quem arrancou o pé daquele cão?"

Chizue (sem se intimidar): "Eu mesma. Chizue Harada."

Kaishakunin ri como um demônio:

"Bom trabalho, mulher!"

Boucher (confusa): "Ele era nossa moeda de troca, agora está danificado. Não irá atrapalhar nas negociações de troca?"

Kaishakunin (rindo maligno): "Não mesmo. Os Yamazaki não precisam saber da condição dele. Eu aposto que eles também machucaram a filha Aizukotetsu."

"Além do mais, sem poder andar, aquele vadio pode finalmente ser útil, se relegando em algum escritório de bordel ou cassino."

Boucher sorri. "Se pensas assim, quem sou eu para lhes contrariar?"

Renan e Goveia haviam chegado, e Boucher vai falar com eles, chama Shiro junto.

"Ouçam com atenção. Agora prepararemos o porto para parecer que tenha sido um ataque Hanayama e Takumi. Removam todas as evidências que denunciem nossa presença, sigam as instruções de Kaishakunin. Lembrem-se: um Matsuba e um Yamazaki devem ser levados, junto com todos os Aizukotetsu."

Ela pausa e olha nos olhos de cada um.

"No furgão, irei falar com vocês sobre suas performances."

Renan: "Falhei com a comandante. Fui muito mole na luta."

Goveia: "Não fale isso, grandão. É o teu jeito... além do mais, eu confiei demais no meu Tari Juru, fiquei previsível."

Shiro: "Acontece. O resultado foi positivo." (Sua mediação soando ingênua até para seus próprios ouvidos.)

Renan (abanando a cabeça com força): "Não se trata apenas do resultado. Decepcionamos a Boucher. Isso é inaceitável."

Ryan (com olhar silencioso para Shiro): "O Renan tem um ponto. É... mais profundo. Ela não está bem, Shiro. O peso... a forma como explodiu. Nossa ineficiência não foi um erro tático; foi um rastro de pólvora que acendeu um pavio já curto."

Shiro: "A missão foi bem-sucedida, isso que importa."

Goveia: "Não sei, acho que Renan quis dizer outra coisa."

Renan (assentindo): "Nossa comandante não está bem. Muito estressada, muito explosiva. Não deveríamos ter provocado ela com ineficiência."

Shiro: "Mas isso não é culpa de vocês..."

Goveia: "É nossa. Somos uma matilha."

Ryan continua, sua voz baixa e séria:

"Shiro, temos que admitir aqui. Você é mais experiente que nós em missões de campo. É difícil para mim admitir isso, mais ainda para Renan, pois somos dois veteranos de fio branco na cabeça. Mas você teve treinamento ninja e mais desafios em campo nesse último ano do que eu e Renan... como Renan disse, estamos enferrujados."

"Portanto, acho que devemos nos preparar para a conversa com a comandante. Admitir nossos erros, mostrar para ela onde realmente erramos. Uma análise honesta a deixará mais tranquila."

Ryan fixou os olhos em Shiro.

"Mas para isso precisamos de sua ajuda. Eu e Renan vamos contar para você o que fizemos, você aponta o que erramos, o que você faria diferente."

Shiro assentiu, compreendendo o peso e a honra contidos no pedido. Nos minutos seguintes, entre a remoção de evidências e o posicionamento de corpos, os três sussurraram em conferência. Shiro, com a mente analítica de um ninja, dissecou o combate deles: a separação foi o erro cardinal; deveriam ter focado no atirador em conjunto — Ryan contendo, Renan esmagando —, mesmo que o guerreiro desferisse golpes no gigante, cuja resistência era sua própria arma. Juntos depois, o yakuza restante não teria chance.

Renan e Ryan ouviram, questionaram, entenderam. Era uma lição humilde, mas necessária.

Terminaram todo o trabalho em tempo efetivo: bandeiras gokudō colocadas, corpos e feridos posicionados para parecer uma luta mais típica Yakuza, evidências das ações deles removidas. Todos estavam deslizando na noite nos furgões justamente quando as sirenes policiais começaram a ser ouvidas.

No furgão de Eloïse, Boucher, Renan, Shiro e Goveia se espremiam junto com alguns Aizukotetsu. Renan era até engraçado — o gigante com os ombros encolhidos e as pernas uma em cima da outra. Já Boucher se certificou que todos haviam entrado e se acomodado, e entrou por último.

O ar ficou contido, à espera da reprimenda, da tempestade prometida.

Em vez disso, ela simplesmente se deixou cair no assento, cruzou os braços sobre o peito, inclinou a cabeça contra o vidro frio e fechou os olhos.

A respiração dela, minutos depois, tornou-se profunda e regular.

Ryan soltou um suspiro que carregava consigo toda a tensão do mundo. "Merde," ele murmurou, mais aliviado do que qualquer outra coisa.

Shiro observou o rosto da comandante, agora suavizado pelo sono, as linhas de preocupação temporariamente apagadas. Um sorriso pequeno e triste tocou seus lábios. "Deixa ela dormir," sussurrou.

Renan, imóvel em seu canto, assentiu quase imperceptivelmente, seus olhos fixos na figura adormecida.

Quando falou, sua voz era um rumor grave,

carregado de uma premonição sombria e protetora.

"Sim. A calmaria antes da tempestade."

Epílogo

Operação Lufada

O Preço e o Pacto



O leve tamborilar dos dedos de Eloïse no vidro partiu o silêncio do furgão. "Chegamos, gente. Libidine."

Amélie Boucher abriu os olhos. Não foi um despertar abrupto, mas um retorno gradual à consciência, como um submarino emergindo de águas profundas. O breve sono lavara as sombras mais densas de seu rosto. Seu olhar, ao percorrer o interior do veículo, pousou em Renan, Ryan e Shiro.

Por um instante fugaz, não havia a comandante de aço,

apenas uma mulher vendo seus soldados voltarem inteiros.

Um sorriso genuíno, carregado de uma ternura cansada e orgulhosa, tocou seus lábios.

"Bom trabalho, garotos," ela disse, a voz ainda um pouco rouca pelo sono, mas o elogio, claro.

Foi um raio de sol em um dia cinzento — breve, mas inegavelmente real. Antes que qualquer um pudesse reagir, a máscara profissional reassentou-se. O sorriso suavizou-se, os olhos recuperaram o foco tático. "Agora, vamos mover esses Aizukotetsu e realizar a entrega."

A ausência de qualquer menção à "conversa sobre o desempenho" pairou no ar, mais eloquente do que qualquer reprimenda. Renan e Ryan trocaram um olhar rápido — não de alívio, mas de confusão ponderada. A tempestade havia sido adiada, não cancelada. O que significava aquela calmaria?

Os Aizukotetsu desceram do furgão com uma dignidade surpreendente. Caminharam de cabeça erguida, ombros para trás. Para eles, aquela não era uma marcha de prisioneiros, mas a escolha consciente de aliados que retornavam ao convívio de seus pares.

O contraste com o espetáculo grotesco seguinte era brutal.

Kenji Yamazaki foi retirado aos berros. A condução suave de Marie Ichikawa fora um ato de misericórdia inútil. Pálido como a morte, o corpo encharcado em um suor frio de agonia, ele era carregado pelos Quatro Cães Takumi como um fardo repugnante. Seus uivos, entremeados de impropérios e choramingos, rasgavam a discrição noturna.

Dentro do Libidine, o clima era de recepção calculada. Kinzaki, o wakagashira de Hanayama, os aguardava com uma comitiva de homens sérios e postura impecável. O próprio Hanayama, significativamente, estava ausente.

Kinzaki bradou, sua voz um instrumento teatral projetando calor seletivo:

"Grande sucesso, companheiros de armas! Lamento que Hanayama-sama não possa recebê-los pessoalmente. Encontra-se em ritual de purificação para a missão em Quioto. Coube a mim, no entanto, a honra de transmitir suas instruções e sua gratidão!"

Seu olhar então voltou-se para os Aizukotetsu, e seu tom mudou, tornando-se avuncular, quase paternal:

"Alegra-me profundamente o coração ver que nossos irmãos desgarrados de Quioto enxergaram a virtude de nossa casa! Nenhum se desviou do caminho correto! Senhores, estão entre amigos. Deixem suas jaquetas, seus sapatos à entrada. Esta casa é vossa. Confraternizem com seus irmãos Hanayama enquanto concluo os negócios com nossos valiosos aliados."

As palavras, habilidosas, transformaram rendição em retorno, captura em hospitalidade. A tensão nos ombros dos homens de Quioto dissolveu-se. Eles se misturaram aos Hanayama, a atmosfera mudando de apreensão para um cauteloso alívio.

Kinzaki, então, conduziu os demais à sala de bilhar, um santuário de madeira escura e feltro verde. Seu olhar analítico percorreu os "presentes" adicionais: Kenji, o Matsuba e os Yamazaki cativos.

"Vejo que trouxeram um pouco mais do que o solicitado. Excelente iniciativa."

Seus olhos pousaram em Kenji, contraído em uma poltrona.

"Oh. Percebo que o senhor Kenji não parece… disponível para um diálogo civilizado."

"PRECISO DE UM MÉDICO! PELO AMOR DE DEUS, AAAARGH!"

Kinzaki balançou a cabeça lentamente, sua expressão uma máscara de decepção cortês.

"Tsc, tsc, tsc, senhor Yamazaki. Gemer por uma mera extremidade? Que falta de decoro. Devo lembrá-lo de que o ilustre Inagawa-sama travou combate corpo a corpo com seu valoroso irmão até o último suspiro, mesmo com o crânio fraturado? Isto sim é gokudō. Um pé… é um preço de mercado."

Sua voz perdeu qualquer vestígio de simpatia.

"E hospital? Não seja ridículo. Hospitais são para civis. Guerreiros são tratados por seus próprios."

Kenji choramingou, a realidade de seu novo mundo afundando com a dor.

"Coloquem o senhor Kenji e os demais convidados na mesa ao fundo. Cuidaremos deles em breve."

Os Cães Takumi obedeceram, assumindo a guarda silenciosa.

Kinzaki voltou-se para os aliados.

"Harada-san! Su-On-san! Trabalho magistral, jovens irmãos! Sua contribuição será lembrada. Como gesto de gratidão, 550 mil ienes para cada um. Uma quantia simbólica, é claro, mas um testemunho do valor que o Hanayama-gumi vê em vocês."

Su-On curvou-se, um sorriso largo e quase infantil estampado em seu rosto normalmente vazio.

Chizue não perdeu o timing. "Aceito porque tenho uma CB750 que chora por peças novas. Mas acredite, o prazer de ajeitar a postura daqueles idiotas já valeu cada segundo."

Kinzaki riu, um som seco, e então se voltou para a presença imponente de Kaishakunin.

"Hanayama-sama celebra a aliança com Osaka. Reconhece a dívida com o 'Cão de Guarda' e pretende honrá-la com ação, respeito e expediência."

A reverência de Kinzaki foi profunda, respeitosa. Kaishakunin retribuiu com uma inclinação de cabeça mais curta, mas igualmente carregada de significado — o aceno entre gigantes.

Finalmente, o olhar de Kinzaki pousou no núcleo da Stargazer.

"E os membros da Sutageizā… Hanayama-sama os saúda. Ele reconhece sua força, sua utilidade, sua audácia… e sua honra. O Hanayama-gumi honrará todos os acordos: inteligência compartilhada, o legado Nagano protegido com nosso sangue, e uma aliança inabalável enquanto nossos interesses convergirem."

A reverência que fez então foi direcionada a todos eles, coletiva.

E cada um — Amélie, Ryan, Marie, Eloïse, Renan, Shiro

retribuiu com a mesma medida silenciosa de respeito.

Então, Kinzaki aproximou-se de Amélie, baixando a voz, transformando o espaço ao redor deles em um círculo privado.

"Yuki no Onna. Hanayama-sama deseja uma reunião privada. Amanhã, após o conclave final sobre os ataques aos Ichiwakage. É uma honra rara ser convidada para tal audiência, onde se discute não apenas alianças de clãs… mas o futuro."

Ele fez uma pausa milimétrica, seus olhos escuros fixos nos dela.

"Seu futuro. E o dele."

A mensagem era cristalina. Não era um convite à Stargazer. Era um chamado a ela. Amélie, a viúva, a justiceira, a força da natureza. O próximo capítulo da lenda de Yuki no Onna estava sendo escrito, e Hanayama queria ser o coautor.

Com um gesto final, Kinzaki liberou-os para um coquetel breve e simbólico, antes de acompanhá-los até a saída.

A noite, fora do Libidine, parecia mais silenciosa, mais carregada.

A batalha acabara. As negociações, os acordos de sangue e aço, estavam feitos.

E no ar, pairando sobre Amélie Boucher como uma nova constelação,

estava o peso silencioso de um convite que poderia mudar tudo —

e a inquietante calmaria que ainda guardava, em seu seio, a tempestade por vir.

Epílogo

Operação Lufada

Memória Quebrada



O furgão de Eloïse Garnier deslizava pelas ruas úmidas de Tóquio, carregando um silêncio carregado de expectativa. Nele, Ryan Goveia, Renan Auclair e Shiro aguardavam, tensos, o inevitável. A conversa sobre o desempenho no porto — a "reunião de performance" — havia sido estranhamente adiada por Amélie. Essa omissão, vinda de uma comandante meticulosa como ela, era mais inquietante do que qualquer reprimenda. Até um pedido de desculpas por sua explosão em Shinkawa, um gesto característico dela, faltava no ar.

Quando Amélie se acomodou, porém, seu semblante era de satisfação serena.

Um sorriso amplo e genuíno, raro como luz de sol em meio a concreto, iluminou seu rosto.

"Bom trabalho, meus caros! Uma noite verdadeiramente produtiva."

O elogio soou caloroso, dirigido aos três homens presentes e, por extensão, a Eloïse ao volante e a Marie, que seguia no outro veículo.

Agora, pensou Ryan, sentindo um alívio cauteloso. Agora ela vai tocar no assunto. Vai nos chamar a atenção, pedir explicações. Algo normal.

Mas Amélie desviou do roteiro esperado.

Virou-se para Renan com uma intimidade natural para a equipe de Inteligência, mas desconcertante para Shiro, tocando sua mão com a dela num gesto breve, mas firme.

"Renan, espero que a experiência em campo tenha sido… revigorante. Vejo espaço para suas habilidades em futuras operações. Mantenha o treinamento." Seu sorriso então ganhou um brilho travesso. "Continue forte. Faz bem à vista da comandante."

Renan riu, um som rouco e constrangido. "Vou me esforçar para ser mais eficiente na próxima."

Ela acenou com a cabeça, num gesto que era ao mesmo tempo um reconhecimento e uma dispensa clara do assunto. "Por ora, seu foco deve ser as análises estratégicas na base. Argus tem a perspicácia refinada de um acadêmico, mas lhe falta sua experiência no mundo real. Esteja de volta amanhã, pontualmente."

"S-sim, senhora," Renan balbuciou, a confusão pairando em seus olhos.

Em seguida, o olhar de Amélie pousou em Ryan. "Fantôme."

"Commandante," ele replicou, imitando o tom ligeiramente cerimonioso dela. O sorriso dela se alargou por um instante, e ela deu um tapinha amigável em sua coxa antes de reassumir a postura de comando.

"Bom trabalho. E obrigada, Ryan, por mais uma vez estender seus serviços além do estritamente contratual. Sua lealdade é um ativo inestimável."

Ele assentiu, vendo a deixa. "Sempre à disposição. Sobre o que aconteceu no porto, nós três conversamos e identificamos alguns pontos críticos onde—"

Amélie piscou. Percebeu a intenção por trás de suas palavras — um relato estruturado, uma análise que demandaria um foco que ela claramente não tinha naquele momento.

Sua mão ergueu-se, suave, mas implacável, interrompendo-o.

"Depois, Ryan. Estou… exausta."

A admissão foi franca, seguida por uma correção automática.

"Estou bem! Muito satisfeita. Mas cansada. Os detalhes podem aguardar um momento mais propício."

Ryan calou-se, atônito. Renan trocou com ele um olhar de alarme silencioso. Ela estava simplesmente… ignorando? Apagando?

Amélie, porém, já seguia adiante, seu tom voltando ao pragmático. "Precisarei de você e da Marie amanhã. Vocês serão meus olhos e ouvidos nos ataques que iremos planejar ao cassino e outros alvos. Ela tem a discrição, você tem a experiência de rua."

"Compreendido, Comandante. Sem problemas," Ryan respondeu, a preocupação agora tingindo sua voz.

Satisfeita, Amélie voltou-se para Shiro. Seu toque foi diferente, mais suave: uma mão repousada sobre seu joelho. "Muito obrigada, Shiro. Sua contribuição foi inestimável." O sorriso era caloroso, mas seu rosto logo se fechou numa expressão de preocupação quase maternal. "Mas, Shiro… quando voltar à base, precisa se reconciliar com o time do Tanaka. Combine algo… uma noite de bebedeira, ou uma tarde de jogos no templo, talvez. Eles perdoarão o deslize da falta na cerimônia do Geffords no Aeroporto. É importante manter a coesão."

Era um desvio tão abrupto, tão focado numa dinâmica social menor em meio aos ecos da violência, que deixou todos desconcertados. Ela então se recostou no banco, um suspiro profundo escapando-lhe. "Agora, se me permitem, vou descansar os olhos até o hotel."

A gota d'água veio num rugido baixo e ferino de Renan, carregado de uma preocupação que não podia mais ser contida.

"Não, senhora. E quanto às nossas falhas? Em Shinkawa."

Amélie abriu um olho. O olhar que lançou a Renan era de uma irritação de um comandante que vai ouvir um subordinado algum acobertamento de informação. "Do que você está falando, Grand-Guy?"

Ryan viu a abertura e entrou, sua voz suave mas incisiva. "Comandante, no porto. Nós dois… demoramos demais. Nos separamos. Renan foi golpeado diversas vezes. Eu me tornei alvo de disparos de escopeta. A situação esteve… crítica. Poderíamos ter morrido."

Amélie endireitou-se na poltrona. O movimento foi súbito.

Seus olhos, agora bem abertos e alertas, percorreram os rostos de Ryan, Renan e Shiro.

A expressão que viram não era de reconhecimento tardio, nem de constrangimento pela omissão.

Era de perplexidade absoluta.

"Como é?"

A pergunta saiu seca, um pedido de informação sobre um fato desconhecido.

Um silêncio gélido tomou conta do furgão,

quebrado apenas pelo ronco constante do motor.

Antes que Amélie pudesse se repetir, Shiro falou,

sua voz mais suave do que nunca, carregada de uma cautela terrível.

"Boucher… você não se lembra?"

Amélie piscou várias vezes. Seus olhos se moveram rapidamente, como escaneando um arquivo interno e encontrando uma página em branco, um vazio onde deveria haver narrativa.

A confirmação veio num lento e trágico abanar de cabeça.

"Não… Isso foi hoje?"

O aceno lento e pesaroso de Ryan foi a sentença final. Renan cerrou os maxilares com força, a dor em seu rosto não era mais a das contusões, mas a angústia aguda de testemunhar algo fundamental se desfazendo.

Instintivamente, a mão de Amélie foi à cabeça,

os dedos encontrando os pontos da discreta cicatriz deixada pela cirurgia

feita para lhe salvar do estrago que um disparo de flechette fez meses atrás

na sala de máquinas de Minami Damari.

O toque foi inconsciente, mas sua significação, gritante.

"Eu… Eu devo estar exausta. Uma coisa dessas… não é para esquecer." A voz dela era um sussurro para si mesma, tentando racionalizar o irracional.

Renan inclinou-se para a frente, sua voz um baixo grave e comovido. "A Dra. Gunwoo foi clara. O descanso após o ferimento era crucial. Esses acessos de fúria, essas… lacunas na memória… eram para já terem ido embora... os acessos voltaram, mas agora a memória?"

"Assez, Renan, j'ai compris!" Ela o interrompeu, a irritação voltando como um reflexo defensivo sobre o medo. "Eu entendi. Vou… me monitorar... quando tiver tempo, assim que Gunwoo voltar... ou melhor, agora mesmo com Sinurai ou Dra. Kang... verei isso." Ela respirou fundo, tentando recuperar o controle profissional. "Preciso dos relatórios detalhados de vocês sobre esse episódio. Talvez… ajude a reconstituir a memória."

Seu olhar perdeu-se novamente, fixando-se no vazio além do para-brisa.

Quando falou de novo, foi quase para si mesma,

uma admissão derrotada que escapou como um segredo involuntário.

"Eu… vou precisar de um verdadeiro descanso."

E, fechando os olhos, franziu a testa não em concentração, mas numa luta fútil e silenciosa contra as sombras de sua própria mente, tentando em vão pescar um fragmento de memória que havia simplesmente… se apagado.

Ryan, Renan e Shiro trocaram um olhar silencioso sobre sua figura recostada. O alívio pela "bronca" adiada havia se transformado em algo muito mais pesado e sombrio. Não se tratava mais de uma tempestade adiada. Era a descoberta de uma rachadura na fundação, uma falha no sistema. A rocha inabalável, a comandante de vontade férrea, que havia lutado para se recuperar da perda de memória causada pelo ferimento e que parecia ter vencido a luta. Agora mostrava que a batalha havia apenas pausado.

Os furgões chegaram ao Shinagawa Prince Hotel como náufragos à praia. A exaustão, adiada pela adrenalina e pelos choques emocionais, abateu-se sobre eles com o peso físico de um cobertor úmido. Ao desembarcarem sob o dossel iluminado, Amélie Boucher parou e voltou-se para seus agentes. O cansaço sulcava seu rosto, mas a formalidade do comando era um hábito de segunda pele.

"Mais uma vez, bom trabalho hoje. Vocês foram excepcionais."

Eloïse, sempre a mais franca, foi a primeira. "Maman, tu prometeste te cuidar. Isso não é brincadeira de criança. Então se cuida, tá?" O apelido, 'mamãe', escapou num tom que mesclava afeto e séria advertência.

Marie Ichikawa, com sua elegância impassível, acrescentou, removendo um grão de poeira imaginário da manga do casaco. "A eficiência operacional decai exponencialmente quando o comandante ignora seus próprios parâmetros de sistema, Boucher-san." Era uma observação fria, mas o uso do 'san' em vez do militar 'comandante' carregava uma nuance de preocupação pessoal.

Amélie riu, um som curto e cansado, e apertou os ombros de ambas num gesto rápido e afetivo. "Vocês estão se preocupando demais! Foi só uma vez, não acontecerá novamente!" Deu um último apertão e reassumiu a postura séria. "Agora vão devolver esses veículos. Limpe-os bem, à fundo. E quero vocês de volta aqui em até uma hora."

As duas falaram em uníssono, um eco de disciplina: "Sim, senhora."

Boucher sugeriu ao grupo comer algo leve enquanto aguardavam Marie e Eloïse. Dirigiram-se ao restaurante do hotel, um espaço tranquilo com luzes baixas.

Renan: "Amélie, a gente viu. Não adianta fingir que foi nada. Você é o coração dessa matilha. Por favor, se cuide… Se eu puder fazer qualquer coisa para ajudar, eu faço."

Ryan: "Se o coração falha, a matilha definha. Lembra do código 'Coquelicot'? Florescem no campo de batalha, mas murcham rápido se a terra estiver envenenada. Cuide do seu solo, irmãzinha."

Shiro: "Foi uma vez só. E não afetou o resultado. Você vai ficar bem. Essas coisas… acontecem."

Sob o bombardeio de preocupação expressa em diferentes línguas e estilos,

a armadura de Amélie rachou um pouco mais.

Ela olhou para cada um deles, vendo não subordinados,

mas os pilares bizarros e queridos que sustentavam seu mundo.

"Eu… eu juro que vou me cuidar. Estou tomando o remédio. Diariamente. Tenho… horror à ideia de perder pedaços de mim. De perder momentos com vocês. De esquecer o que importa."

Era a admissão mais próxima de pânico que já haviam ouvido dela em voz alta.

"Eu prometo. Agora, por favor… vamos só descansar."

A ordem final era também um pedido de clemência. Eles aceitaram, o silêncio entre eles agora um pacto de vigilância mútua.

Quando Eloïse e Marie retornaram, pontuais como sempre, o grupo finalmente se dispersou para os quartos. Marie ficou com a companhia de Renan.

"Perdi minha cama Grand Lit," comentou Marie com um sorriso sutil.

"Posso dormir no chão, se quiser, Harpia. Sem problemas," respondeu Renan.

"Não seja bobo, Grand-Guy! Foi apenas uma brincadeira. Odiaria ser a responsável por uma crise na sua coluna vertebral."

E então, finalmente, todos se recolheram. Os corredores do Shinagawa Prince Hotel engoliram, um a um, os agentes da Stargazer, deixando para trás apenas o silêncio noturno e o peso das promessas feitas — e dos medos ainda por enfrentar.

Eloïse, é claro, dividia o quarto com ela. Enquanto se preparavam para dormir, a motorista observava Amélie com um olhar clínico que raramente usava.

"Você não está falando da boca pra fora, né, mama? Porque se estiver, eu ligo pro Lacroix agora mesmo e conto que você tá pior que o motor do meu Corolla depois da perseguição em Shinjuku."

"Tetê, por favor. Não estou. Eu prometi. Vou descansar."

Mas as promessas são frágeis contra o medo que ronda no escuro.

Horas depois, no silêncio opressivo do quarto, Eloïse foi despertada não por um som, mas por um movimento. Amélie, do outro lado da cama gigante que haviam unido, estava encolhida. Seus ombros tremiam levemente. A luz do poste na rua filtrada pela cortina fina iluminava o perfil dela, e Eloïse viu os dedos de Amélie, finos e pálidos, acariciando o próprio couro cabeludo, repetidamente, com uma ternura desesperada.

"S'il te plaît, ma tête… fonctionne correctement.
Tu es tout ce que j'ai…"

(Por favor, minha cabeça… funciona direito. Você é tudo o que tenho…)

Um soluço abafado.

"Mon Dieu… pourquoi j'ai si mal traité mon corps?
Je n'en ai qu'un…"

(Meu Deus… por que tratei meu corpo tão mal? Só tenho um…)

O coração de Eloïse parou. Aquela era a verdade nua, a dor crua que Amélie Boucher jamais permitiria que qualquer outro ser humano testemunhasse. Era o terror da guerreira que percebe que sua arma mais preciosa — sua própria mente — está enferrujando.

Sem pensar, Eloïse se moveu. Não com a energia usual, mas com uma suavidade que poucos conheciam. Ela envolveu Amélie em um abraço firme e quente por trás, enterrando o rosto no cabelo loiro desgrenhado.

"Chut, maman… chut. Ta tête, elle est déjà en train de se remettre d'aplomb, j'en suis sûre. C'était une fois! Une seule! Et ça sera la dernière, je le sais!"

(Sua cabeça, ela já está se ajeitando de novo, tenho certeza. Foi uma vez! Só uma! E vai ser a última, eu sei!)

Amélie não se debateu. Ao contrário, ela se virou dentro do abraço e enterrou o rosto no pescoço de Eloïse, seus dedos agarrando as costas da camiseta velha da amiga. O abraço de volta era forte, quase desesperado, o de alguém se agarrando a um salva-vidas.

"Oui, oui! Ça sera la dernière, pour l'amour de Dieu, quelle peur horrible! Je vais me reposer des missions sur le terrain, je le jure, je vais le faire, Eloïse, mon Dieu, je le jure!"

(Sim, sim! Vai ser a última, pelo amor de Deus, que susto horrível! Vou descansar das missões de campo, eu juro, vou fazer isso, Eloïse, meu Deus, eu juro!)

Era a capitulação total, o medo expresso em promessas feitas no escuro, para a única pessoa com quem ela poderia ser tão quebrada. Eloïse apenas a segurou mais forte, balançando-a levemente, como se embalasse uma criança.

"Je sais, mama. Je sais."

(Eu sei, mamãe. Eu sei.)

E naquela cama de hotel barato, sob a luz fantasmagórica de Tóquio,

a comandante de aço permitiu-se ser, por algumas horas,

apenas uma mulher assustada,

sendo protegida pela lealdade feroz e silenciosa de sua motorista.

A guerra externa podia esperar.

Naquela noite, a batalha mais importante era interna,
e ela não precisava lutá-la sozinha.

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