Operação Lufada - Parte 1: No Covil do Leão
Operação Lufada
Fase 2: O Golpe na Escuridão
20 de Julho de 1989 — Tóquio, Japão
No centro, cercado por sombras que se moviam com a discrição de fantasmas, estava Kaoru Hanayama. Sentado em um trono improvisado — na verdade, uma poltrona de couro preto — ele era uma montanha de músculo e cicatrizes. Seus olhos, estreitos e calculistas, percorriam a sala como um general inspecionando tropas duvidosas. Ao seu lado, sempre um passo atrás, Kinzaki — mais sombra que homem, lealdade feita carne.
Hanayama não entendia o negócio. Strip clubs, shows, a dança frívola do desejo… eram ruídos distantes. Mas eram negócios dos Hanayama agora, e negócios deviam funcionar. Ainda tinha que resolver a questão do coordenador, um homem sorridente demais para ser confiável. Mas isso poderia esperar. Agora, tinha os estábulos e clubes dos Nagano — algo sólido, tangível, digno. E devia tudo àquela mulher de olhos frios e sorriso raro. Lembrou do beijo. Um toque leve na bochecha rachada, maternal e letal ao mesmo tempo. Sentimentos confusos fermentavam em seu peito. Ela seria útil. E… sua companhia o agradava.
Primeiro veio Abe "Kaishakunin" Haruto, uma torre de mármore vivo vestida de branco imaculado. A cicatriz que partia sua orelha, cortava a mandíbula e sumia no pescoço brilhava sob a luz roxa como uma segunda boca. Quatro homens o seguiam — todos com a postura rígida de quem conhece o peso de uma katana nas costas.
Um dos mais jovens, nervoso, encarou a cicatriz. "Haruto-san… essa marca…"
Kaishakunin virou a cabeça lentamente. "Tentaram arrancar meu rosto com uma espada." A voz era um rosnado de pedras sendo arrastadas. "A espada quebrou. Ossos de adamantium."
O jovem franziu a testa. "Ossos de… adamantium?"
Um sorriso feroz cortou o rosto desfigurado de Kaishakunin. "Tem uma história americana. Um mutante. Logan. Um Gokudō canadense. Tem garras de adamantium, três espadas em cada mão." Ele ergueu um punho, os nós dos dedos parecendo pedras. "Arranca a cabeça de uma Sentinela com um corte só. SNIKT!"
O punho disparou, parando a um milímetro do queixo do jovem. A onda de choque do movimento fez o rapaz recuar dois passos, ofegante. Kaishakunin riu, um som seco. "Fica esperto."
No canto oposto, Chizue Harada estava sentada em uma cadeira, pernas abertas, o bastão de beisebol metálico plantado entre elas. Seus óculos escuros refletiam as luzes mortas do palco. "Nem show tem agora", ela reclamou para ninguém em particular, a voz carregada de tédio profundo. "Que saco!"
Ao seu lado, Seong Su-On estava em pé, imóvel como uma estátua. Vestia apenas uma calça de moletom, seu torso atlético exposto, os braços cruzados. Não falou. Apenas deu um leve encolher de ombros, os olhos vazios escaneando as sombras.
A porta do fundo se abriu.
A porta dos fundos do clube se abriu, deixando entrar uma lâmina de ar noturno e umidade. Quatro figuras surgiram.
Amélie Boucher entrou primeiro, sua presença mudando a pressão da sala. Ela vestia um casaco escuro sobre roupas táticas, seu cabelo dourado preso em um rabo de cavalo severo. Seus olhos escuros, apertados, fizeram uma varredura instantânea, catalogando cada pessoa, cada ângulo, cada sombra. Atrás dela, deslizando como uma extensão da penumbra, veio Shiro, suas roupas largas e desbotadas fazendo-o parecer menor do que era. Em seguida, Eloïse Garnier, com seu andar descontraído de piloto, mastigando chiclete com um pop discreto. E, por fim, Ryan Goveia, o "Fantasma", que simplesmente pareceu materializar-se a partir do corredor escuro, sua mala de couro na mão, um observador silencioso que todos notaram apenas quando ele já estava lá.
Chizue foi a primeira a se mover. Levantou-se com a fluidez de um predador, seu bastão tilintando levemente contra o chão. "Boucher", chamou, a voz carregada de uma frieza que era 50% teatro, 50% aço. "Sora não vem. Tem uns planos em Tóquio. Disse que 'pode ou não pode te ajudar'. Típico dele." Ela encostou o bastão no ombro. "A gente veio porque você pediu. E porque bater em Yakuza é mais divertido que servir sake. Mas sabe como é... depois, a gente acerta as contas."
Amélie acenou com a cabeça, um gesto cortês e calculado. "O Clube terá minha gratidão. E meu débito." Ela entendeu a linguagem: violência por violência, favor por favor.
Em seguida, ela se dirigiu ao grupo de branco. Kaishakunin virou-se, e um sorriso quase imperceptível tocou seus lábios duros. "Yuki no Onna", ele cumprimentou, usando o nome pelo qual a conhecia na época da aliança com os Nagano. "Parece que não precisarei lhe espancar."
Amélie retribuiu o quase-sorriso. "Parece que não precisarei lhe convencer a fazer algo que acabaria lhe matando, Kaishakunin-san. Os Takumi ainda querem sua parte de Tóquio, eu presumo?"
"Os Ichiwakage podem parecer fortes, mas irão ruir feito um castelo de cartas. É hora de limpar a casa. Eles têm algo que o oyabun Ichida quer. Vamos pegar."
Antes que ela pudesse responder, um movimento no camarote chamou sua atenção. Kaoru Hanayama descera, cada passo um terremoto contido. Seus homens se abriram como o Mar Vermelho. Ele parou diante de Amélie, e por um segundo, a formalidade rígida do chefe Yakuza pareceu vacilar. Ele inclinou a cabeça, um pouco mais profundamente do que o protocolo entre aliados de conveniência exigia.
Amélie, percebendo o risco para sua autoridade, curvou-se ainda mais baixo, transformando o gesto em um sinal de respeito ao anfitrião. "Hanayama-oyabun", sua voz era clara, respeitosa. "Sua hospitalidade é honrada."
Kinzaki, salvá-lo, avançou, sua voz projetando-se no salão vazio. "O oyabun Hanayama tem instruções. Queremos os Aizukotetsu vivos. Queremos o Kenji vivo. E pelo menos um de cada facção menor, também respirando. Traga-os aqui. Após os questionamentos... o oyabun fará uma visita aos Aizukotetsu em Quioto." Seu olhar encontrou o de Amélie. "Para convidá-los a se juntarem a uma aliança mais... lucrativa."
Amélie acenou. "Entendido. O ataque será preciso. Rápido. Cartões de visita serão deixados, creditando o oyabun Hanayama e o oyabun Ichida Takumi." Ela fez uma pausa, deixando suas próximas palavras pesarem no ar. "Confio plenamente nos métodos de interrogatório do oyabun. E sei que as informações extraídas serão compartilhadas com nossos... interesses mútuos."
Um sorriso genuíno, raro e terrível, iluminou o rosto brutal de Hanayama. Ali estava. A confiança. A lealdade demonstrada diante de seus homens. A pessoa que via além do monstro e do chefe. Ele deu um único aceno de cabeça, selando o pacto.
O momento foi quebrado pelo ronco abafado de um motor chegando à porta de serviço. Marie-Agnès Ichikawa entrou, a aura de elegância letal envolvendo-a como uma capa. Atrás dela, Guy-Renan Auclair preencheu o vão da porta, seu tamanho colossal fazendo o ambiente parecer encolher. Ele piscou contra a luz fraca, seus olhos se ajustando.
A voz de Kinzaki era um sussurro cortante. "Queremos os Aizukotetsu vivos. Todos, se possível. Kenji, vivo. Pelo menos um de cada facção menor, vivo. Traga-os aqui. Para… conversas."
Hanayama assentiu, seus olhos fixos em Amélie. Confiança. Expectativa.
"Após as conversas", continuou Kinzaki, "Hanayama-sama fará uma visita aos Aizukotetsu em Quioto. Para oferecer… alternativa."
Amélie manteve a expressão neutra. "O ataque será preciso. Rápido. Profissional. Isolamos os vinte e um, neutralizamos antes que a polícia chegue." Uma pausa. "E deixaremos cartões de visita. Para que saibam quem os atingiu."
Kinzaki sorriu, um movimento raro. "A lenda de Hanayama e Takumi cresce. Bom."
"Confio plenamente nos seus métodos de interrogatório", Amélie disse, olhando diretamente para Hanayama. "E confio que as informações serão compartilhadas."
Hanayama inclinou a cabeça uma vez, um gesto de nobreza antiga. O sorriso que lhe escapou era pequeno, quase tímido. Amélie havia provado lealdade. E ele acreditava nela.
A porta se abriu novamente.
Marie-Agnès Ichikawa entrou, impecável como sempre, seguida por Guy-Renan Auclair. O gigante corso parecia deslocar o ar ao seu redor. Seus 2,03m e 181kg preenchiam a porta, seus olhos castanhos escaneando a sala com a calma de um urso veterano.
Ichikawa cumprimentava seus pares com discrição e elegância, mas não Renan. Com um sorriso amplo e genuíno, ele abriu os braços e cruzou o salão direto para Ryan. "Fantasma!", bradou, envolvendo o homem mais magro em um abraço de urso que fez Ryan expelir o ar em um oof surpreso, mas sorridente. Em seguida, virou-se para Shiro, repetindo o gesto. "Tsukai! Bom ver você em pé!" Shiro, rígido por um instante, então relaxou, dando tapinhas desajeitados nas costas do gigante.
Renan então se virou para Eloïse. O abraço foi mais contido, quase delicado — seus imensos braços a envolvendo com cuidado, como se segurasse algo precioso. "Tetê. Sujo de graxa ainda, eu vejo."
Ela riu. "Sempre, mon géant. Pode apertar mais forte!"
Quando Renan se virou para Amélie, o impulso estava lá — os braços começaram a se abrir. Mas então ele congelou. Seus olhos encontraram os dela. Na base, era um aceno. Um toque no ombro. Um abraço? Era... demais? Muito pouco? Seu cérebro travou na etiqueta não escrita de sua amizade torta. O braço direito hesitou, descendo em um movimento estranho que começou como um abraço e terminou como um aperto de mão, sua mão esquerda subindo para tocar levemente seu cotovelo. Ficou um gesto híbrido, desengonçado e profundamente humano.
Amélie, que havia sutilmente se inclinado para o abraço, se endireitou e preencheu o vazio, fechando a distância para um abraço rápido, mas firme, batendo com a mão aberta nas costas largas dele. "Está tudo bem, Grand Guy", sussurrou em francês, só para ele ouvir.
Renan recuou, limpando a garganta, um rubor subindo por seu pescoço. "Estou um pouco... enferrujado", confessou para o grupo, sua voz um bumbo abafado. "Faz uns anos."
"É que nem andar de bicicleta", disse Ryan, sua voz suave como seda, um contraste perfeito com a de Renan.
Shiro acrescentou, tentando ser útil: "Eu o vi treinando com o próprio Lacroix. Então... não tem nada melhor que isso."
Amélie se aproximou de Renan, sua voz baixa, apenas para ele. "Você se sente apto? Não há vergonha em ficar na retaguarda."
Renan endireitou os ombros, seu rosto ficando sério. O embaraço desapareceu, substituído pela determinação do soldado veterano. "Apto e pronto, comandante", ele afirmou, sua voz agora firme. "É só a ferrugem do desuso. Vai cair no primeiro soco."
Ela segurou seu olhar por um segundo a mais, depois acenou. Aceito.
No camarote mais alto, onde a vista dominava o salão vazio, Kaoru Hanayama estava sentado como um Buda de concreto. Seus ombros largos quase tocavam as laterais do trono estofado em veludo vermelho. Kinzaki, seu wakagashira, permanecia ao seu lado direito, imóvel, os olhos escaneando o recinto com a precisão de um radar.
Hanayama não via beleza naquele lugar. Via números, rotas de contrabando, lealdades compradas. O Libidine era um tumor que herdou, e ele estava decidido a cauterizá-lo. Mas primeiro, precisava que ele funcionasse. Seus pensamentos, porém, vagavam para o estábulo de sumô, para as cinzas dos Nagano que agora guardava com respeito fúnebre. E para ela. Amélie Boucher. O beijo na bochecha marcada. Um toque maternal e letal que ficara gravado em sua pele mais profundamente que qualquer cicatriz de faca. Ele queria aquela força perto dele. Não como um troféu, mas como um farol. Alguém que entendesse a escuridão, mas que não se perdesse nela.
Kinzaki bateu palmas uma vez — um som seco que cortou o ar.
Todos se voltaram para o centro, onde um mapa de Shinkawa foi desenrolado sobre uma mesa de pôquer.
"Boucher", Kinzaki disse. "Explique novamente. Para todos."
Amélie avançou, seus dedos leves tocando os pontos no mapa. A luz roxa do strip club dava a seus movimentos uma qualidade de sonho febril.
"São vinte e um. Divididos em três grupos." Sua voz era clara, projetada, a voz de uma comandante no comando. "Grupo Um: Aizukotetsu-kai, de Quioto. Sete homens. Relutantes. Nosso alvo primário para captura."
Ela olhou para Hanayama, que assentiu.
"Grupo Dois: Clãs menores — Matsuba, Kanda, Inagawa. Sete homens. Cansados, desmoralizados. Alvos para neutralização rápida."
"Grupo Três: Yamazaki-gumi. O núcleo. Sete homens, liderados por Kenji. Arrogantes, incompetentes, mas com as armas. Alvos para humilhação."
Seu dedo apontou para os containers abandonados. "Entramos por aqui. Shiro e eu na ponta. Ryan, cobertura de sniper a partir deste armazém. Renan, você fica com Kaishakunin e seus homens — força de impacto. Rompemos a linha, separamos os grupos."
Ela se virou para Chizue e Su-On. "Vocês dois são a faca na costela. Entram pelo flanco sul quando o caos começar. Focam no Grupo Três. Bagunçam."
Chizue ajustou os óculos escuros, um sorriso selvagem em seus lábios. "Gosto de bagunçar."
Su-On apenas inclinou a cabeça uma vez.
"Eloïse e Marie", Amélie continuou, "ficam com os furgões aqui, aqui e aqui." Ela apontou três pontos de extração. "Quando ouvirem o código 'Tempestade Passou', avançam para coleta. Prioridade: prisioneiros vivos. Depois, nosso pessoal."
Ela olhou para cada rosto na sala — o gigante Hanayama, o desfigurado Kaishakunin, a selvagem Chizue, o vazio Su-On, seus próprios agentes: o fantasma Ryan, a harpia Marie, a motorista Eloïse, o ninja Shiro, e o colosso Renan.
"Objetivo não é massacre. É mensagem."
"Mostramos que os Ichiwakage são fracos. Que seus aliados podem ser comprados ou quebrados."
"Que Hanayama e Takumi são o futuro."
Ela fechou o punho sobre o mapa. "Entramos às 2300 em ponto. Estamos fora às 2315. Polícia chega às 2330, no mínimo. Temos quinze minutos para mudar o equilíbrio de poder em Tóquio."
O silêncio que se seguiu era carregado, elétrico. O ar cheirava a adrenalina e ambição.
Kaishakunin quebrou o silêncio, sua voz um rosnado satisfeito. "Bom plano. Simples. Direto. Como um soco no estômago."
Hanayama se levantou novamente, sua presença dominando a sala. "Façam com que doa." Seus olhos encontraram os de Amélie. "Para todos."
Amélie Boucher ergueu o queixo, seus olhos estreitos brilhando na luz roxa.
A Louve pronta para a caça.
"Vamos."
E a palavra ecoou como uma sentença.

Comentários
Postar um comentário