As Filhas Perdidas

22 de Julho de 1989 — Canadá & México

O Caminho de Yunuen

A Jornada para Salvar as Filhas Perdidas

A Ligação para o Pai

Com o objetivo de cuidar das garotas indígenas resgatadas de Poser — Aiyana Blackbird, Lani Moana e Nia Kameāloha — Yunuen viajou para o Canadá. Levou consigo Rei Ichiyama, para dar-lhe uma folga e monitorá-la, verificando se as consequências de Sarushima a haviam comprometido de alguma forma. Útil, ela não seria muito, não sabendo falar nada além de japonês.



Antes de ir, Yunuen ligou para o pai, Daniel Trembley.

Yunuen: "Daniel, sou eu, Yunuen. Quero que me ajude com uma coisa."

Daniel: "Por você, querida, faço tudo. O que é?"

Ela explicou. As garotas, o resgate, o trauma. Daniel ouviu em silêncio. Ao saber que era para ajudar as garotas a se reintegrarem às suas sociedades — inclusive uma sendo samoana, o que complicava tudo —, ele entendeu que seria muito mais difícil do que pensava.

"Vou pagar 5.000 dólares. Para que você não sofra sem poder trabalhar durante o processo."

Daniel hesitou. Não queria o dinheiro. Conhecia a filha. Se ele recusasse, ela insistiria. Se ele aceitasse, ela se sentiria no controle. Era um pequeno preço pela paz dela. Mas ainda assim, algo o incomodava.

"Não, Yunuen. Não vou aceitar seu dinheiro. Isso é família. Isso é o certo a fazer."

Yunuen bufou. Conhecia o pai. Sabia que ele era teimoso. Sabia que ele recusaria por orgulho, por princípio, por aquela teimosia Huron que ela amava e odiava em igual medida. E sabia que ele tinha razão. Ele sempre tinha razão. Mas ela também sabia que precisava que ele aceitasse. Não por ela. Por ele.

"Ai, pai, qual é? Eu vou provavelmente encher um novo galpão de bosta inútil se o senhor não aceitar! É sério! Vou comprar um barco, um trator, umas vinte obras de arte cafonas! Vou gastar esse dinheiro em porcaria só para não ficar com ele!"

Daniel riu. Era uma risada genuína, rouca, de quem conhecia a filha bem demais.

"Você não tem jeito, sabia?"

"Eu sei. Aceita logo."

Ele suspirou. Olhou para o horizonte. Pensou na comunidade Huron. Pensou nos amigos do clube de pesca. Pensou no que 5.000 dólares poderiam fazer. Não para ele. Para eles. Para os jovens que precisavam de equipamento. Para os velhos que precisavam de remédio. Para o clube que precisava de doações.

"Tá bom. Mas não é pagamento. É para eu não ter que me preocupar com trabalho enquanto cuido delas. Eu preciso estar inteiro para elas. E o que sobrar… vai para a comunidade."

Yunuen ficou em silêncio por um momento. Era a resposta certa. O pai sempre soube a resposta certa.

A Chegada

Ao chegarem, Daniel entendeu a gravidade do problema. As garotas estavam marcadas de uma forma impossível de remediar. As três estavam tímidas, assustadas, desesperançosas. Aiyana, a mais velha, mantinha as outras duas atrás de si, como uma loba protegendo filhotes. Lani não levantava os olhos do chão. Nia olhava para o nada, com uma expressão vazia que era pior que o choro.

"Filha. Vamos fazer o seguinte. Vamos sair com elas. Relaxar um pouco. Deixa eu conhecê-las melhor. Depois conversamos."

Yunuen ficou nervosa. A impaciência, o medo de falhar, a culpa por ter demorado tanto para resgatá-las — tudo subiu de uma vez.



"Daniel, se acha que não pode resolver, avisa logo para não perder meu tempo, tá?"

Daniel ficou sentido. Yunuen viu. E odiou-se por isso. Ela sabia que ele tinha razão. Ele sempre tinha razão. Mas ela não queria admitir. Não queria ceder. Não queria que ele a visse como a menina que precisava de ajuda. Ela era a agente. A caçadora. A que salvava os outros. Não a que precisava ser salva.

Mas ela conhecia o pai. Conhecia a teimosia dele. Sabia que ele não mudaria de ideia. Sabia que ele ficaria ali, plantado, como uma árvore antiga, até ela concordar. E sabia que ela não podia — não queria — usar a voz mansinha. A manipulação. Aquilo que ela fazia quando queria que os outros fizessem algo por ela, que já usou com ele quando era adolescente. Ela não queria fazer isso com ele. Não merecia.

E, no fundo, ela sabia que ele estava certo.

Ela respirou fundo.

"Ah, Dani, me desculpa. Eu estou tão preocupada com elas! O senhor acha que elas não vão ser aceitas pela família, não é isso?"

"Sim, é isso, meu bombom."

"Que vamos fazer então?"

"Não tem aquele clube de pesca que eu queria levar você? Vamos aproveitar que você está pagando e ir lá com essa mulherada toda. Vai ser divertido para todos. E vamos poder sentar e conversar direitinho com elas, saber como estão, o que esperam. Não quero tratá-las como mercadoria, entende?"

Yunuen fez que sim com a cabeça. Devagar. Relutante. Mas fez.

"Lake Huron Fishing Club? É esse que você falava pelas cartas?"

Daniel abriu um sorriso largo.

"Esse mesmo! É uma beleza lá! Tenho certeza que a japonesinha e as meninas vão adorar! A propósito, me apresenta! Qual o nome da japonesinha que parece que tá dormindo risonha?"

Yunuen riu. A tensão nos ombros diminuiu um pouco.

"É a Zorra Borracha…"

Daniel a interrompeu, empurrando-a de brincadeira.

"¡Ay, mi niña Trembley! ¡No me vengas con jaladas! ¡Quiero el nombre de verdad!"

Yunuen riu, esfregando o braço onde ele a empurrou. Quando se recuperou, viu que ele esperava com o cenho franzido.

"É Rei, papi. Rei Ichiyama. Mas ela responde bem por Zor…"

Ela não completou. Daniel gesticulou para que ela parasse, com um dedo em riste. Ela riu mais.

"Ok, vamos conhecer a Sra. Rei e as demais…"

"Aiyana Blackbird, Lani Moana e Nia Kameāloha. Mas não vai adiantar falar com a Bor…"

Ele gesticulou de novo.

"Com a Rei! Caralho, Dani! Não vou conseguir chamar ela assim!"

"Se acostume."

"Enfim, ela não sabe uma vírgula de inglês."

"Sério?"

"Nem espanhol, nem nada. Ela é muito burra."

"Não seja má! Vou dar um jeito de conseguir falar com ela."

"Boa sorte."

Daniel olhou para a filha, rindo também.

"Se eu não conseguir me comunicar com a japonesinha sonolenta, vai ser um fracasso com as moças traumatizadas!"

Yunuen viu a sabedoria do comentário. Mas antes de responder, ela olhou para o pai. Para o rosto marcado, para os olhos cansados, para as mãos calejadas de quem trabalhou a vida inteira. E sentiu algo apertar no peito.

"Sério, Dani. O senhor sabe sempre o melhor a ser feito. E se sacrifica por isso. Não vou esquecer do que fez para me proteger do Indian Act. Confio em você. Não fraqueje por conta do desespero dela."

Daniel a olhou por um longo momento. Havia algo nos olhos dele que Yunuen raramente via. Orgulho. E amor. E uma tristeza antiga, de quem carregou peso demais por tempo demais.

"Não vou fraquejar, bombom. Prometo."

Yunuen assentiu. Não sorriu. Mas algo em seus ombros relaxou. Ela confiava nele. Mesmo quando não queria admitir.

A Japonesinha e o Velho Lobo

Daniel se apresentou. Conseguiu se comunicar com gestos e palavras em comum. Rei sabia "hello" e outros pequenos cognatos de inglês. Sem falar que adorava se comunicar. Acabou falando:



Rei: "Anta, kashira no oyaji dabe? Uwaaa! Namara otokomae danei!"

(Ei, você é o pai dela? Uau! Que homem bonito!)

Yunuen gargalhou. Daniel perguntou o que foi.

"A Zorra acha o senhor um lindão."

Daniel riu, desconcertado, mas ainda corrigiu a filha:

"O nome é Rei."

Rei sorriu. Um sorriso largo, bobo, genuíno. Mas Yunuen, que a observava com olhos de quem monitorava, viu o que ninguém mais veria. Viu a tensão nos ombros. Viu o tremor quase imperceptível nas mãos. Viu que Rei estava atuando. Representando o papel de "Zorra Borracha" porque era mais fácil do que encarar o que aconteceu em Sarushima.

Ela não disse nada. Apenas anotou mentalmente. Depois, conversaria com ela.

As Filhas Perdidas

Depois, foi falar com as meninas. Não foi tão ruim quanto ele pensou. Mas estava mal. As três estavam envergonhadas, traumatizadas, sem esperança. Lani Moana evitava contato visual, mas em algum momento, quando Daniel mencionou o mar, ela murmurou algo sobre "não voltar para casa". Yunuen percebeu. Pensamentos suicidas. Nia Kameāloha, por sua vez, sofria com um complexo de Estocolmo brutal.



"Nós pelo menos tínhamos um lugar no mundo ao lado de Poser. Você me tirou do único lugar onde eu era alguém. Aqui fora, eu não sou nada. Lá dentro, eu era a Veil. Aqui… eu sou ninguém."

Aiyana Blackbird, a mais velha, não falou por um longo tempo. Ficou observando Daniel. Depois, com uma voz rouca, mas firme, disse:

"Não fale assim, Nia. Nós temos um lugar. Nós temos nossas famílias. Nós temos nossos pais. E vamos encontrá-los."

Ela olhou para Daniel.

"Ajude-nos a encontrar nossos pais."

Daniel assentiu lentamente.

"Vamos tentar. Mas primeiro… preciso entender quem vocês são. Não quem Poser fez de vocês. Quem vocês eram. Quem vocês querem ser."

Aiyana sustentou o olhar dele por um momento. Depois, assentiu.

Ela então se virou para as outras duas. Para Lani, que chorava baixinho. Para Nia, que olhava para o nada.

"Vocês vão pensar em seus pais. Não em Poser. Não no que ele fez. Em seus pais. Em suas casas. Em suas vidas antes dele. É isso que vamos encontrar. É isso que vamos recuperar."

Lani fungou. Nia não respondeu. Mas algo nos olhos dela mudou. Uma fagulha. Minúscula. Mas presente.

A Estratégia

Daniel então decidiu que deveriam tentar com a família de Blackbird primeiro, na reserva de Saskatchewan, entre Alberta e Manitoba. Mas Yunuen o convenceu do contrário.

"Não caí nas delas, Dani. O senhor sempre soube o que é melhor para os outros. Mas basta um chororo para fazer você hesitar, nada disso! E eu preciso que o senhor esteja certo desta vez. O passeio primeiro. Para acalmar. Para conhecê-las. Depois, a reserva."

Daniel a olhou por um longo momento. Havia algo nos olhos dela que ele reconhecia. A mesma determinação da mãe. A mesma teimosia. A mesma vontade de proteger.

"Tá bom. Lake Huron primeiro. Depois, Saskatchewan."

Yunuen assentiu. Não sorriu. Mas algo em seus ombros relaxou. Ela confiava nele. Mesmo quando não queria admitir. Daniel olhou para ela com orgulho, só notando os cabelos tingidos de loiro agora, pelo menos o suficiente para comentar.

"E essas madeixas loiras, mocinha Trembley? Querendo ser a Madonna?"

Yunuen riu alto.

"É para pegar homem, tá na moda o loiro, culpa da Madonna eu acho."

Daniel olhou para ela com seus olhos verde-dourados com suspeita divertida.

"Não acredito em uma palavra sua, você nunca precisou de nenhum artifício bobo para… como foi que você disse? 'Pegar homem'."

Yunuen riu acanhada esfregando o cabelo.

"Sabe tudo, né velhinho? Era para me disfarçar, mas nem está valendo muito agora, então estou deixando descolorir, tá vendo?"

Ela inclina a cabeça para mostrar a ele o topo das raízes voltando rápido ao negro natural. Ele aproveita para puxar a cabeça da filha e dar um beijo no topo da cabeça dela.

"¡Ala, pará! ¡Qué cholero, mano! ¡Jajajaja!" — Yunuen ri, mas sem fazer nada para se afastar.

Lake Huron Fishing Club

Daniel dirige seu jipe com todas elas até Ottawa. A estrada é longa, e a paisagem muda lentamente — das florestas densas de Quebec para as planícies abertas de Ontário. O silêncio no carro é confortável, pontuado pelas conversas baixas de Rei com Daniel (gestos, palavras soltas, risadas) e pelos olhares silenciosos das garotas para a janela.

Yunuen observa. As garotas estão mais calmas. Lani, pela primeira vez desde que chegaram, não está com os olhos no chão. Ela olha para as árvores que passam. Nia, ainda vazia, mas menos tensa. Aiyana, a mais velha, observa Daniel com uma curiosidade cautelosa.

Eles chegam ao Lake Huron Fishing Club ao entardecer. O céu é um derramamento de laranja e roxo sobre a água escura. O clube é simples — um galpão de madeira, um cais comprido, alguns barcos atracados. Cheira a peixe, a madeira molhada e a fumaça de uma fogueira próxima.

Daniel apresenta as garotas aos amigos. Eles são cordiais, mas Yunuen vê. Vê o olhar de um dos amigos para Aiyana — para as tatuagens profanas no rosto dela — e o desvio rápido. Vê a esposa de outro sussurrar algo no ouvido do marido. Vê a hesitação antes dos cumprimentos.

As garotas sentem. Aiyana ergue o queixo, como se estivesse acostumada. Lani encolhe-se um pouco. Nia nem parece notar.

Mas há um momento. Um único momento. Lani se aproxima da água. Ela se agacha e toca a superfície com os dedos. A água está fria. Ela estremece. Mas não recua. Ela fica ali, com os dedos na água, olhando para o horizonte.

Yunuen observa. E sente algo apertar no peito.

Mais tarde, quando as garotas estão distraídas com os barcos e os amigos de Daniel, ele se aproxima de Yunuen. O rosto dele está cansado. Mais velho do que ela se lembrava.

"Essa tarefa parece estar além da minha conta, minha filha…"

Yunuen o interrompe.

"Já quer desistir?"

Daniel olha para ela. Yunuen está o olhando desafiadora. Ele a olha com a mesma intensidade.

"Nada disso, mi hija! Só acho que precisamos de mais ajuda!"

Yunuen pisca.

"Está pensando em mamá?"

Daniel consente.

"Você mencionou ontem que me acha sábio, então lhe digo que é sábio pedir ajuda dela."

Yunuen não tem objeções.

A Ligação para Itzel

Miguel: "Bueno?"

Daniel hesita por um instante. Conhece aquela voz. Padre Miguel. Ou melhor, ex-padre Miguel, pois este deixou seu ordenamento para casar com Itzel. Ainda custa a acostumar.

Daniel: "Padre, tudo bom? Aqui é Daniel…"

Miguel: "Daniel! Quanto tempo! Estou bem, obrigado! Espere um momento que chamarei Itzel…"

Miguel troca para o inglês assim que reconhece a voz de Daniel. Ele ouve Miguel chamando por Itzel, em inglês mesmo, preparando-a assim para falar com ele, ele imagina. Ela pega o telefone.



Itzel: "Daniel! Está tudo bem? Precisas de algo? É nossa filha?"

É claro que ela iria saber. Ela não é só uma xamã, mas também a Theurge mais assombrosa que ele conheceu dos B'alam. Na realidade, de todas as tribos.

Daniel: "Sim… sim e não! Digo, é complicado. Tem tempo para ouvir?"

Itzel: "Para nossa filha, tenho tudo."

E então Daniel fala dos acontecimentos. Ele não se surpreende quando ela diz ter sentido o apuro deles. Ele acredita que ela sentiu. Mas sua resposta o surpreende.

"Terminem o descanso de vocês aí, se dirijam para Saskatchewan, falem com os pais de Aiyana. Eu, Miguel e Kupe encontraremos vocês lá… Qual a melhor cidade para nos vermos lá? Me dê uma boa referência natural, você sabe, para Kupe."

Daniel pisca. Kupe. O nome traz uma enxurrada de memórias. Kupe, o leopardo-nebuloso-de-sunda. Kupe, o ragabash que enganou uma fada e ganhou o dom de viajar por fendas através do submundo. Kupe, que precisava de referências visuais para se orientar. Kupe, que salvou Yunuen no deserto de Chihuahua, quando três lobisomens Cria de Fenris a atacaram. Kupe, que a ensinou a se regenerar. Kupe, que a ajudou contra os Dançarinos da Espiral Negra em Bornéu, quando ela já trabalhava para a Stargazer.

"E-espera, Miguel? Kupe? Por que toda a gangue?"

"Vamos precisar, a cidade e referência, querido."

"Ah! North Saskatchewan River Valley. A cidade é Edmonton."

Ela anota. Ele a ouve sussurrar os nomes e o riscar de uma caneta em papel.

"E querido… os pais de Blackbird vão recusá-la. Vai ser duro para ela, mas necessário. Conforte-a. Seja um pai para ela. De lá, vão para o parque em Edmonton. É possível que encontrem Kupe primeiro ou… você sabe, ele encontre vocês."

Silêncio. Daniel fecha os olhos. Respira fundo. Aperta o telefone com força. Não gostou de ouvir a previsão. Mas sabe que é necessário. Dá tempo para ele endurecer o coração e agir como deve agir.

"Diga a ela que a amo. Diga que estou orgulhosa. E que vamos encontrá-la em Edmonton."

Daniel assente, mesmo sabendo que ela não pode vê-lo.

"Digo. E… Itzel?"

"Sim?"

"Aquele Kupe… Nada escapa daquele gato…"

Itzel ri. Um som baixo, caloroso, que atravessa a distância.

"Daniel, seja forte. Não conte para nossa filha. Você sabe que ela trabalha na forma mais pura no improviso."

"Entendo. Vejo você e… Miguel. Quem diria! Diga a ele que ainda devo uma cerveja. E que ele é um sortudo."

"Direi. Um beijo, querido."

Ela desliga. Daniel trinca os dentes. A mão treme, a fúria quase chega, ele sente suas garras quererem se formar, mas então ele respira, relaxa, suspira. Ainda bem que ele soube, porque a vontade dele é dar um soco na cara de um pai que nega a filha. Sabendo ele tem tempo para se preparar e não causar um desastre diplomático irreversível.

A Rejeição

Antes mesmo de chegar, Yunuen chamou Daniel numa parada de posto de gasolina.

"Daniel, tenho um mal pressentimento. E se os putos não a aceitarem?"

Daniel repousou a mangueira na bomba, se recostou cruzando os braços e a fitou.

"Pois é, filhota. Se eles não aceitarem ela, como fica?"

Yunuen olhou para o horizonte, mordendo o lábio.

"Porra, se não a aceitarem, vou esganar eles…"

Daniel deu um riso triste.

"Sério, filhota."

Yunuen contemplou triste o horizonte.

"Não seriam as primeiras rejeitadas do mundo."

Daniel concordou. "Não."

Ela olha para ele, súplica no olhar.

"Dani, tenho que voltar até o dia 25. Não tenho como cuidar delas!"

Daniel lançou uma mão apaziguadora no ar.

"Eu entendo, bombom. É por isso que você pediu minha ajuda. É por isso que eu chamei sua mãe. Mas temos que tentar. Elas têm que entender que ao menos estamos tentando."

Yunuen faz que sim com a cabeça. Daniel suspeita que ela sabe. Ela sabe que Itzel o preparou para algo. Ela também é sensitiva.

Ao chegarem, antes deles conseguirem encontrar os pais de Aiyana, os olhares da comunidade para a garota já denunciavam — eles a reconheciam, e não gostavam do que viam.

Finalmente localizam os pais dela. Os irmãos mais novos festejam, estranham as tatuagens, mas festejam. Aiyana fica tão alegre que chora. Isso anima a todos. Talvez Itzel tenha se enganado.

Então a mãe dela vem correndo a receber, abraça forte e longamente, chorando. O pai está olhando tudo do pórtico, junto com a irmã mais velha. Eles viram o rosto dela e reprovaram o que viram.

Finalmente a mãe pega o rosto de Aiyana nas mãos, e chora. Mas é um choro fúnebre, como se olhasse para algo inaceitável. O pai chama a família para conversar dentro da casa. Todos vão, ninguém discute. Aiyana não é chamada.

Yunuen grita antes deles fecharem a porta:

"É sua filha! Aiyana Blackbird, sangue do seu sangue!"

Isso apenas faz o pai pausar, mas ele fecha a porta.

Aiyana choraminga esperançosa, dizendo que vão aceitar ela.

Mas a realidade é outra. Os vizinhos se aglutinam, claramente desconfortáveis com a aparência de Aiyana. O líder da cidade vai até o grupo. Olha para o rosto das meninas com desaprovação.

"Chefe Tootoosis! Sou eu, a pequena Aiyana!"

Aiyana fala para o senhor na esperança de que ele a reconheça. Mas ele a reconheceu. Responde apenas com um:

"Eu sei."

E se dirige para Daniel, que parece ser o líder do grupo. Surpreende-se pela jovem tatuada Yunuen se interceder como uma igual. Mesmo assim, ele dirige a palavra para Daniel.

"Olá. Sou Chefe David Tootoosis. Você é?"

"Sou Daniel Tremblay Garihoa, de Wendake."

O chefe se impressiona com a resposta.

"Do outro lado! Que curioso! Vejo que conseguiu encontrar a pequena Aiyana…"

Daniel interrompe.

"Na realidade…"

Foi a vez de Yunuen interromper ele.

"Na realidade fui eu quem a encontrei. Yunuen Tremblay Perez. Sou Q'iche e Wendake."

O chefe olha para ela impressionado, mas retorna a falar com Daniel.

"O que aconteceu com a garota? Por que ela está deformada?"

Yunuen não se deu por vencida.

"Ela foi sequestrada por um monstro psicopata que a desfigurou assim. Ela é a vítima aqui, entendeu? Ela precisa do apoio do seu povo! Dos seus pais! Rejeitar isso é dar a vitória aos miseráveis que fizeram isso com ela!"

Finalmente o velho dá atenção à Yunuen.

"E quem a obrigou a seguir o homem pálido em primeiro lugar?"

Ele não esperou ela responder.

"Ela nos abandonou por sua própria vontade. Voltou com símbolos afrontosos no rosto. Ela escolheu não ser mais uma de nós."

Yunuen visivelmente rosna.

"Não é tão simples assim, velho cabeção! Ela foi vitimada…"

Mas Yunuen o perdeu assim que o xingou. Ele nem espera ela terminar. Balança a cabeça numa melancólica negativa e vai saindo em direção à casa dos Blackbird, não sem antes se dirigir uma última vez a Daniel.

"Agora, se me permite, vou aconselhar os Blackbird a não decidirem nada que prejudicará a comunidade… E você, Garihoa dos Wendake, você já perdeu sua filha a permitindo fazer desenhos na pele. Controle pelo menos o que ela fala…"

"Ela é uma mulher independente, senhor."

Daniel corta ele, cada palavra um rosnado. Todos lá, incluindo Tootoosis, sentiram o perigo que era continuar provocando Daniel. O chefe simplesmente se virou e entrou na casa dos Blackbird.

Como era de se esperar, como todos já estavam sentindo, apenas o velho e o patriarca Blackbird saem. O chefe Tootoosis proferiu que Aiyana não é mais bem-vinda ali. Ela os renegou, fugiu, e reafirmou seu desejo de não ser uma Saskatchewan ao permitirem profanar o rosto.

Yunuen é a primeira a se virar em direção ao jipe, puxando num abraço Aiyana, que já desabava em um choro desesperado.

"Não se rebaixe assim, menina! Isso não vai ficar assim, te juro!"

A convicção ferina de Yunuen fez Aiyana conter a grande parte do desespero que sentia, mas não conseguiu conter o choro e o corpo inteiro a tremer.

Rei conduz as duas outras, confusas e assustadas, com delicadeza para dentro do jipe. Lani agarra a mão de Nia. Nia olha para Aiyana com uma expressão que mistura pena e alívio — por não ser ela. Rei não entende as palavras, mas entende a dor. E isso a enche de indignação.

Daniel olha uma última vez para o chefe da comunidade e para o patriarca Blackbird.

"Que vergonha…"

A Fuga para Edmonton

O motor do carro ruge pelas estradas. Eles deveriam chegar o mais rápido que pudessem a Edmonton. Itzel, Miguel e Kupe talvez já estivessem lá. Certamente Kupe já estaria.

Yunuen, aos soluços de raiva, pediu para que Rei acalmasse as meninas, porque ela mesma estava lutando para se acalmar. A raiva borbulhando, os pelos se eriçando, garras querendo aparecer. Ela olhou para trás — para Lani, que se encolhia no canto, e Nia, que olhava para Aiyana com um entendimento silencioso. E viu Rei, começando a ensaiar uma canção.

Yunuen respirou. A raiva ainda estava lá. Mas as garras recuaram.

"PUTOS DE MERDA!"

Ela soltou a fúria em palavras para não fazer algo pior.

"Respira…" — Daniel recomendou.

"QUE RAIVA! É FILHA DELES, PAPA!"

Daniel assentiu. Apertou o volante com força. Depois soltou.

"Eu sei. Também estou com raiva…"

"NÃO PARECE!"

Daniel jogou um olhar ameaçador para a filha. Yunuen entendeu que sua raiva estava só atrapalhando e se concentrou em se acalmar. A canção de Rei ajudava muito, para sua surpresa.

"Como ia dizendo, também estou com raiva. Mas isso acontece. E vai acontecer… Olha o lado bom, minha filha. Você entrou para a INTERPOL para ajudar essas meninas desaparecidas. Depois de tantos anos, finalmente os resultados estão surgindo! Isso é ótimo. Pare para pensar!"

Yunuen balançou a cabeça concordando.

"Só não pensamos o que fazer exatamente DEPOIS de conseguirmos achar elas."

"Huhuhu, somos uns imbecis." — Yunuen falou, mais acalmada pelas palavras do pai e a canção de Rei. Ela até pensa que Rei canta bem, deveria participar da ópera estúpida da organização.

Daniel ri junto.

"É Hahaha! Dois cabeças de prego! Pelo menos Itzel é mais esperta que nós dois. Ela vai saber o que fazer… Pelo menos eu espero, porque essas três são só o começo, te conhecendo bem como te conheço!"

Yunuen respondeu olhando ternamente para ele e fazendo uma pose fofa. Dentro dela, um pensamento silencioso: Eu ainda tenho ele. E elas têm a mim. Talvez seja o suficiente. Por enquanto.

Enquanto isso, Rei cantava para as meninas no banco de trás. A japonesinha cantava baixinho, uma canção em Ainu que Yunuen não entendia, mas que falava de um caçador que dormia nas costas de um lobo que o salvara da nevasca. Aiyana dormia no ombro dela, o rosto relaxado pela primeira vez em dias, Lani e Nia se acomodavam uma no ombro da outra enquanto Rei parecia ela mesma embalada no sono da própria canção.

Edmonton

Chegaram em Edmonton, onde, graças à Yunuen, se encontraram com Itzel e Miguel no parque de mirantes do North Saskatchewan River Valley. Itzel e Miguel se emocionaram ao rever Yunuen, abraçando-a. Itzel também deu um abraço terno em Daniel, e Miguel trocou um caloroso aperto de mão com ele.

Daniel apresentou as meninas. Rei sorriu e fez uma mesura divertida para cada um. Lani, Moana e Aiyana se apresentaram de forma mais melancólica.

Só de vê-las, Itzel entendeu totalmente o problema e concordou que as meninas dificilmente seriam aceitas com aquelas marcas no corpo.

Yunuen perguntou, triste, o que eles fariam. Itzel falou:

"Calma, calma, calma, mi hija! Você nos chamou para ajudar, não chamou? É isso que faremos!"

Então Itzel falou do resultado de uma conversa que teve com Miguel, antecipando que as meninas seriam recusadas. Ela convenceu Miguel a colocar as meninas para morar com eles em Monterrey enquanto aprendem a ocultar aquelas marcas.

"Ocultar? E isso é possível?" — Yunuen perguntou.

Itzel disse que sim, mas poderia levar tempo. Ela também tinha que entender a natureza das marcas para ter certeza de que não tinham resquícios da podridão do monstro que fez isso com elas.

Daniel perguntou então qual era o papel dele naquele plano. Itzel disse que era muito importante: ele deveria viajar para a casa das outras duas para preparar as famílias, explicar que elas foram encontradas, mas que estavam se recuperando, se preparando para voltar. Ele teria ajuda nisso: Kupe e Fang Tien iriam ajudá-lo.

Yunuen franziu a testa e arregalou os olhos.

"Como é, a porra do Fang Tien!?"

Itzel piscou.

"Sim, Kupe disse que é seu conhecido…"

Yunuen interrompeu.

"Ele é um pedaço de bosta e me deixou para morrer!"

Itzel balançou a cabeça.

"Mesmo estrume tem sua utilidade, mi hija. Vá falar com Kupe. Você sabe que ele não confia no que as pessoas dizem, mas no que elas emanam."

Yunuen cruzou os braços.

"Vou conversar com ele sim. Ah, se vou. Mas primeiro quero entender o plano."

Itzel e Miguel então explicaram que, enquanto Daniel, Kupe e Tien comunicavam às famílias as boas novas, a casa deles se tornaria uma espécie de santuário para moças indígenas desaparecidas que Yunuen encontrasse. Lá elas seriam reabilitadas para voltar. O papel de Daniel, Kupe e Tien seria transportá-las e entrarem em contato com os pais ou a comunidade.

Yunuen quis saber como ela ensinaria as meninas a ocultar as marcas. Itzel sorriu, mas explicou, puxando Yunuen para longe das meninas. É um espírito brincalhão que pode ser convencido ou intimidado a ajudá-las a ocultar as marcas de pele indesejadas, mas exige tempo. Por elas não serem espíritos como ela, Yunuen, Daniel e Kupe são, vai levar mais tempo e paciência.

Yunuen fez que sim com a cabeça e mencionou como isso poderia ser útil no trabalho dela. Itzel falou:

"Você também pode aprender a controlá-lo. É muito mais fácil para você, mi hija! Você é uma deusa-jaguar, como eu!"

"Ah, mãe, para!"

"Deixe de bobagens, mi hija! Você é uma deusa-jaguar, eu tenho certeza disso! Você pode invocar esse espírito, ou um semelhante do Japão, e intimidá-lo com seu poder e tamanho para que ele o sirva!"

Yunuen riu.

"Você realmente acredita nisso, não é?"

Itzel bateu o pé.

"Não, eu tenho certeza!"

Yunuen suspirou.

"…ok, eu posso tentar, porque seria útil demais para mim… você pode me ensinar?"

Ela olhou cabisbaixa e esperançosa para Itzel. Itzel tocou seu rosto.

"Eu não acho as marcas que você fez em seu corpo feias. Elas são mágicas, sabia? Isso vai impressionar ainda mais o espírito! Mas entendo por que você às vezes precisa ocultá-las. Claro que sim, filha! Mas antes, encontre Kupe para que ele nos leve para Monterrey!"

Daniel perguntou:

"Monterrey?"

Itzel respondeu:

"Sim, querido. Encontre uma garagem para seu jipe, sim? É só um dia!"

Daniel rolou os olhos.

"Tá, tudo bem! De lá já faço umas ligações."

Miguel abriu a boca, mas fechou. Daniel notou. Trocaram um olhar rápido. Poderia ser uma boa oportunidade de conhecer melhor o ex-companheiro de sua esposa.

O Encontro com Kupe

Yunuen deixou sua família e as meninas para ir onde Itzel disse que Kupe estava, na mata fechada do vale. Rei a acompanhava. Antes de ir, Yunuen olhou para trás. Viu Aiyana dormindo no ombro de Rei. Sorriu. Era por elas.

Não foi Yunuen que o encontrou. Ele encontrou ela.

Kupe é uma figura formidável: cabelo ralo crespo, rosto redondo, nariz grande e chato, mandíbulas fortes e pronunciadas, pele escura, massivo apesar de não ser muito alto… e nu. Ele cheirava a mata, a chuva, a algo selvagem.

"Ele tá nu!" — Rei falou, impressionada, ao se recuperar do susto.

Kupe sentiu a surpresa de Rei e falou em inglês:

"Não quero acasalar, mocinha, quero conversar!"

Yunuen olhou para ele, tirou um calção da própria mochila e jogou para ele.

"Veste isso, maluco. Sério, Kupe? De novo?"

Rei se apressou para tirar uma de suas regatas da mochila e dar para ele. Kupe tocou na mão dela e entendeu seu idioma, falando em japonês para ela:

"Obrigado!"

"Wuaaaaaaaa! Ele sabe falar japonês!" — Rei falou, admirada.

"Não cai na dele. Isso é um truque que ele sabe." — Yunuen falou.

"Comunicação é um truque." — Ele se defendeu.

Então Yunuen perguntou que história era essa de Fang Tien.

Kupe explicou que ficou zangado com Fang Tien quando soube que ele abandonou Yunuen e os amigos dela em Bornéu. Foi atrás dele para matá-lo. Mas quando encontrou, não sentiu traição em relação a Yunuen. Sentiu arrependimento. Depois de bater nele até a máscara de cinismo cair, ele confessou que não queria ter deixado eles lá, mas que a empresa que comandava a área estava a ponto de confiscar o avião dele, e ele não podia ficar e esperar. Sim, ele escolheu a própria sobrevivência. E por isso se arrependia.

"Sério? Ele escolheu a sobrevivência e agora está arrependido? Que conveniente."

Kupe continuou. Então ele fez cara de gatinho para Fang Tien, fazendo-o o acariciar.

"Waaaaaa!" — Rei soltou.

Quando Tien virou amigo de Kupe, ele explicou que Yunuen e os amigos dela viviam, mas que precisavam de ajuda dele e da águia de metal para salvar meninas. Ele levantou um pouco a máscara da dúvida, mas Kupe a derrubou com um afago de cabeça.

"Waaaaaa!" — Rei soltou de novo. "Sugoi!"

Yunuen pediu em espanhol para Kupe pegar leve na história, pois Rei não sabe de nada sobre a natureza deles. Kupe soltou um "OoOh!" surpreso e disse, em espanhol, que ela cheira a alguém bastante espiritual.

"É, mas ela não sabe guardar segredos. Pelo menos não sei se ela conseguiria guardar esse."

Kupe entendeu e resumiu a história dizendo que Fang aceitou e que ela poderia ligar novamente para ele.

"Pft, ele que ligue para mim! Mande ele mandar carta!"

Kupe abriu a boca, mas não falou nada. Fez que sim. Então Yunuen o convenceu a acompanhá-las na forma humana.

A Despedida

Ao voltarem, Kupe já estava pronto para levá-los a Monterrey. Yunuen então separou seu pai e Rei para falar com eles em particular.

"Pai, queria que você ficasse com Rei. Ela não pode vir comigo. Não saberia como explicar para ela as passagens para o Xibalbá que o Kupe abre!"

Daniel sorriu, cabisbaixo, e fez que sim com a cabeça.

"Pode deixar, bombom… vou sentir sua falta…"

Yunuen cortou com um audível "Pft!".

"Dani, vou passar nem um dia lá e volto! Não estou lhe dando a Rei de presente, seu bobão! É só para me acertar com mamãe e Miguel sobre como ficarão as meninas!"

Ele riu sem graça.

"Ah é, não é! Hahaha! Que bobo eu! Sim, claro! Boa viagem, filhota!"

Ela rolou os olhos.

"Me dá sempre um enjoo depois… Dani…"

"Sim, filhota?"

"Mamãe insiste que eu sou uma B'alam… você acha que… quero dizer, você acha mesmo que…"

Daniel a interrompeu, abraçando-a firme.

"Filha, vou sempre te amar, não importa se você seja ou não um bastet, você entende? Você sempre será minha filha amada, meu bombom de baunilha."

Yunuen se emocionou, abraçou-o de volta. Isso era raro. Até Itzel, Rei, Miguel — até as meninas — pararam para olhar.

"Não vou ficar parado esperando por você. Vou levar a japonesinha para ir pesquisar sobre as famílias delas e comprar mapas e passagens. Você se divirta lá, filhota."

Itzel não se segurou e foi abraçar os dois. Miguel entrou e abraçou Yunuen e Itzel. Rei, chorando, soltou um "aaaahh!" e deu um abraço no grupo. As meninas olharam sorridentes.

Até que Yunuen se deu conta.

"Chega disso, seus babões! Temos que levar as meninas a salvo!"

O Submundo

A viagem pelo submundo era sempre algo que Yunuen achava fantástico. O ar mudou primeiro — ficou denso, úmido, cheirava a terra molhada e a algo antigo. A luz mudou — não era mais o sol de Edmonton, mas um crepúsculo eterno, dourado e vermelho, que parecia vir de lugar nenhum. O chão mudou — não era mais asfalto, mas terra batida, coberta de folhas e raízes.

O mais incrível era que, naquele mundo, ela e Itzel tomavam forma de grandes jaguares. Kupe tomava forma de um leopardo negro. Miguel e as meninas se mantinham nas formas humanas, embora as meninas possuíssem tufos de fumaça negra pairando nos rostos — resquícios das marcas de Poser, talvez, ou algo mais profundo.

Rei ficou agarrada a Daniel, os olhos arregalados, mas sem medo. Fascinada.

As meninas ficaram assombradas e encantadas com aquele estranhamente familiar mundo espiritual. Ao verem os grandes felinos as guiando, diversas histórias e mitos de seus povos passaram pela cabeça delas. Várias dúvidas que elas tinham se tornaram certezas. Para o bem ou para o mal, aquelas pessoas, aqueles guardiões felinos, iriam guiá-las para a próxima etapa da vida delas.

"Tua forma, minha filha."

— Itzel sussurrou para Yunuen.

"Tua forma mostra tua natureza. Abrace-a."

Yunuen não respondeu.

Olhou para as próprias mãos. Viu as garras. Sentiu algo.

Mas ficou pensativa.

Monterrey

Finalmente chegaram ao parque da cidade de Monterrey, onde Kupe sinalizou que ficaria esperando pelo retorno de Yunuen.

Yunuen, Miguel, Itzel e as meninas chegaram à casa. Miguel as guiou pela casa, mostrando os quartos que iriam habitar. Era uma casa simples, mas acolhedora. Cheirava a comida, a flores, a vida.

Yunuen e Itzel ficaram a sós.

"Bela casa que você tem com o Miguel, mãe."

"Obrigada, filha. É sua também. E de todas que você trouxer."

Yunuen sorriu.

"Se eu passar a trazer 3 por mês, aqui vai ficar cheio rápido."

Itzel riu.

"Eu e Miguel nos adaptaremos se for o caso!"

O sorriso de Yunuen se alargou.

"Você é incrível, mamãe."

Itzel a abraçou, conduzindo-a para a cozinha.

"Venha. Vamos discutir o que iremos dizer para elas. E lhe falarei como eu e Miguel cuidaremos delas."

Yunuen passou o dia com a mãe e Miguel, explicando às meninas sobre a situação delas e o papel físico e espiritual deles. Itzel as levou num passeio no parque, onde começou a ensinar os rituais da terra mais básicos — daquele jeito dela, amplo e filosófico de explicar, que Yunuen já conhecia. A princípio parece vago, mas a intenção é que o caminho que o ensinamento leva seja traçado do jeito que a pessoa compreende o caminho. Agora Yunuen entendia isso. Mas era divertido ver a cara de confusão das meninas.

O dia passou rápido, tão envolvente e revelador ele foi.

Chegou o fim do dia, e Itzel ensinou a Yunuen o que ela deveria fazer para atrair o espírito e como intimidá-lo ou cativá-lo para que ele a servisse.

O Retorno

Ela retornou a Edmonton com Kupe, onde se despediu do pai.

"Vou cuidar da japonesinha. E você… cuide de você também, bombom."

Yunuen assentiu. Abraçou-o uma última vez. Depois, embarcou no avião de volta para o Japão com Rei, sabendo que podia confiar nas pessoas maravilhosas que deixava, por hora, para trás.

Yunuen partiu com o coração dividido —

mas também com a certeza de que as meninas estavam em boas mãos.

O caminho era longo, e as feridas, profundas.

Mas pela primeira vez, as filhas perdidas tinham uma casa.

E uma família que as esperava.

O santuário de Monterrey estava aberto.

E a Loba da Neve havia encontrado seu lugar entre os jaguares.

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