O Calvário da Sala das Caldeiras V – Sacro Sacrilégio
O Calvário da Sala das
Caldeiras V – Sacro Sacrilégio
Música de Apoio: "Ave Maria" (Bach/Gounod)
O corpo de Amélie estava tomado pela dor, sua
mente oscilava à beira da consciência. A breve pausa lhe deu tempo suficiente
para se preparar para qualquer novo tormento que eles tivessem reservado. Tentou
estabilizar sua respiração, mesmo com as amarras cortando sua pele e a cadeira se
encravando em sua carne. Ela suava, conseguindo sentir cada gota que deslizava
fria e incômoda, como pequenos insetos rastejando por seu corpo. O ar na sala
da caldeira parecia mais pesado, com o cheiro acre de suor e umidade que
parecia grudar em sua pele.
Dominique, agora sem o paletó e com as mangas
da camisa arregaçadas se levanta de seu acento, o barulho do estalar de seus
ombros anunciando sua aproximação. Sua voz ecoou pela sala a arrancando de seu
estupor como um açoite que a fez estremecer.
—É
hora de falar sobre sua fé, Boucher. Diga-nos, quão devota você é de suas
crenças católicas? — A Pergunta de Dominique saiu mais uma sentença do que um
questionamento.
A cabeça de Amélie latejava e ela se
esforçava para se concentrar nas palavras que ele dizia. Estava delirando? Ele
havia mesmo perguntado sobre crenças católicas? O que era isso afinal, um teste
da SDECE ou a Santa Inquisição?
—Crenças católicas o que... — ela começou a falar
o que pensava da pergunta, mas parou, percebendo que provocá-los só aumentaria
seu fardo. Com um suspiro, ela decidiu levar a sério a pergunta absurda, se
concentrando em parecer concisa. —Eu acredito em Deus, mas não sou fervorosa. Tenho
minhas próprias interpretações da Bíblia.
Étienne, que já havia removido sua gravata e
afrouxado seu colarinho, revelando seu crucifixo pendurado no pescoço, se
levantou de súbito, se aproximando dela com uma mistura de incredulidade e
fúria contida.
O
lábio de Amélie tremeu, ela sabia a armadilha que estavam preparando. O assunto
era um caminho tortuoso, e uma palavra errada, um vacilo poderia ser respondido
com o flagelo.
—
Não, não escolho o que me agrada. Eu a leio e tento
entender. Às vezes tiro dúvidas com meu padre sobre algumas passagens. Acho que
fé é compaixão e compreensão, não fanatismo.
Lyonel riu, zombeteiro, o som ecoando pela
sala abafada. Ele havia tirado a camisa por causa do calor sufocante, e agora
andava de um lado para o outro à frente de Amélie, preparando o equipamento de
eletrocussão no carrinho de ferramentas.
— Você
tira dúvidas? Compaixão? Compreensão? — disse ele, carregando as palavras com
desprezo.
— É assim que você acha que pode ser uma de
nós? Vai ser um choque para você quando descobrir que nosso mundo é muito mais
brutal que isso!
Ele riu de seu próprio trocadilho, um som
cortante, enquanto conectava o dispositivo, um eletrodo apenas, à mão direita
dela.
Amélie se sacudia inutilmente, os pulsos
feridos pelas amarras.
— Não, por favor! É c-claro que eu sei julgar
quando ter compaixão e...
Lyonel não a permitiu terminar, com um
sorriso maligno, ele a interrompeu.
— Deixe-me mostrar minha interpretação da
Bíblia.
E com um movimento cheio de gravitas, girou o
interruptor como se este fosse um martelo batendo o primeiro prego.
O primeiro choque veio como um raio, um
impacto violento que fez seus dedos se fecharem em um punho rígido, os músculos
contraindo-se sem controle enquanto a corrente serpenteava por sua mão. Era
como se dezenas de agulhas fossem cravadas em sua carne ao mesmo tempo, cada
pulso trazendo uma onda de dor aguda que subia pelo braço como fogo consumindo
uma floresta.
Amélie gritou, mas o som foi abafado, um
engasgo que mal saía entre os dentes cerrados. A agonia parecia irradiar de sua
palma, e sua mão contorcia-se em uma dança macabra, uma marionete grotesca
movida por fios invisíveis.
Dominique posicionou-se ao lado dela, os
olhos frios avaliando cada reação. Não havia empatia, apenas julgamento.
— Como você concilia suas ações com sua fé,
Boucher? Acha que Deus aprova suas escolhas?
A visão de Amélie ficou turva, a dor
latejante dificultava o foco. Ela sabia que este interrogatório não era um jogo
de respostas certas. Religião era um tema subjetivo, aberto a tantas
interpretações quanto o número de pessoas que acreditavam. Mesmo que ela
dissesse exatamente o que queriam ouvir, o simples fato de ser quem era—uma
mulher em um espaço dominado por homens como eles—já a condenava ao paradoxo.
Não se tratava de convencê-los, mas de resistir. Ainda assim, ela forçou as
palavras entre os lábios trêmulos:
— Eu... acredito que Deus entende minhas
intenções. Ele sabe que tento fazer o que é certo.
Lyonel inclinou-se ligeiramente, um sorriso
cruel iluminando seu rosto enquanto removia o eletrodo da mão direita dela.
— Ah, vamos ver o que Deus pensa disso,
então.
Ele o conectou à mão esquerda de Amélie,
ignorando suas súplicas desesperadas.
— Não, não... por favor, não mais... —
Boucher tentou implorar, mas no meio da frase, parou. Percebeu a inutilidade de
pedir misericórdia. Ela cerrou os dentes, o corpo tenso, e preparou-se para
outra onda de tormento.
Com um gesto quase teatral, Lyonel acionou o
interruptor. A descarga atravessou sua mão esquerda como o martelar de um
relâmpago, disparando para cada canto do corpo. Seus músculos se contraíram
violentamente, o maxilar trincou, e os dedos das mãos e dos pés se dobraram em
uma rigidez agonizante. A dor era absoluta, uma força que apagava qualquer
pensamento além do sofrimento.
Então, abruptamente, acabou. Sua respiração
veio em soluços irregulares enquanto a corrente deixava um rastro de exaustão e
dor persistente.
— Você
acha que sabe o que é certo? — Lyonel zombou, um sorriso cínico surgindo em
seus lábios. — Que conveniente.
Étienne, que havia voltado ao seu lugar,
levantou-se novamente. Sua camisa estava ainda mais afrouxada, e sua
aproximação era carregada de uma fúria mal contida.
— E-e quanto aos ensinamentos da Igreja,
Boucher? — Sua voz tremia, misturando indignação e expectativa. — Você acredita
neles ou os rejeita?
Amélie sentiu a mente girar, cada pensamento
competindo com a dor que queimava em sua consciência. Ela precisava de tempo.
Não importava o que dissesse, a tortura continuaria. Talvez uma resposta
honesta comprasse segundos preciosos, talvez desse forças para resistir.
— E-eu respeito a Igreja... mas acredito que
alguns de seus ensinamentos estão ultrapassados. Precisamos nos adaptar aos
tempos atuais.
A frase saiu entrecortada, suas palavras um
desafio disfarçado. Ela sabia que qualquer resposta levaria ao mesmo fim, mas a
honestidade era sua última arma. Era sua afirmação de que ainda lutava, que
ainda era dona de si mesma.
Dominique inclinou a cabeça, um sinal quase
imperceptível. Lyonel começou a cantarolar Ave Maria de Charles Gounod enquanto
ajustava o eletrodo, desta vez fixando-os no pé direito de Amélie. O metal frio
contra sua pele arrancou um espasmo involuntário, o corpo já trêmulo
antecipando o inevitável.
— Por favor, não... só mais um momento,
deixe-me descansar! — A súplica escapou antes que pudesse segurá-la, sua voz
carregada de um desespero animal.
— Você já teve seu descanso. — Dominique
respondeu, implacável, a voz dura como pedra. — Escolhe o que lhe convém? Vamos
ver quão adaptável você é.
O interruptor foi acionado, e a descarga a
atingiu como um prego enfiado em seu pé. A corrente subiu, rasgando seu corpo,
cada músculo tencionando ao extremo, prendendo-a contra a cadeira de metal.
Amélie se sacudiu violentamente, e um grito estrangulado rompeu seus lábios,
impossível de conter.
Sua mente oscilou à beira do colapso, o mundo
reduzido à agonia insuportável. Era um vazio incandescente onde apenas a dor
tinha um nome e um rosto. Mas dentro daquele vazio, um único e teimoso braseiro
recusava-se a ser extinto. Ela agarrou-se ao último fio desgastado de sua
determinação, forçando a consciência a agarrar as bordas do abismo e puxar-se
de volta à superfície.
— Grite o quanto quiser, Boucher — Lyonel
escarneceu, sua voz uma seda venenosa. — Ou talvez prefira chamar seu querido
pai? O ilustre Almirante? Vamos colocá-lo na linha para que você possa implorar
a ele lhe libertar desse cálice?
Dominique inclinou-se para a frente, a sua
presença uma eclipsante escuridão. A sua voz era um grunhido baixo, desprovida
de qualquer teatralidade, o que a tornava ainda mais assustadora.
— Você acha que sua fé seletiva e conveniente
lhe salvará agora? — sua pergunta cortando como um chicote de couro. —Olhe à
sua volta. Acredita mesmo que Deus não lhe faltará?
A respiração de Amélie ficou presa no peito,
um som irregular e úmido. Ela arrastou ar para os pulmões em chamas, cada
inspiração uma pequena vitória contra os homens que tentavam quebrá-la.
—Eu... eu acredito num Deus justo — ela
ofegou, as palavras uma oração desafiadora naquela sala sem Deus. —Não um que
livra os homens da dor... mas Um que vê a verdade em nossos corações... mesmo
aqui.
Lyonel
bufou, um som rude e desdenhoso, enquanto se ajoelhava e friamente prendia o
último elétrodo na sola do pé esquerdo dela. O metal era um beijo blasfemo
contra a pele dela.
— 'Aquele que vê a verdade nos nossos
corações' — ele imitou num tom meloso e afeminado, para então
cuspir um riso sarcástico. — Que poético. Bem, então vamos dar-lhe um
espetáculo final para contemplar. Vamos cravar o último prego.
— Está pronta, meu doce?
O interruptor foi acionado.
Fulminante.
Parecia que seu pé havia sido empalado por ferro
em brasa e seu próprio esqueleto tentava fugir do corpo. A corrente subiu, uma
torrente de fogo que parecia prendê-la à cadeira, convulsionando não apenas os
seus músculos, mas a sua própria alma. As suas costas arquearam-se numa curva
brutal e antinatural, cada tendão esticado como uma corda de arco. Um grito
silencioso ficou preso na sua garganta, a sua bexiga gritando um aviso
primitivo que ela mal conseguiu conter. Ela mordeu o lábio inferior, o gosto
metálico do sangue inundando a sua boca — uma dor tangível e íntima para se
ancorar contra o inferno impessoal e consumidor da corrente.
Quando
finalmente parou, o silêncio repentino era ensurdecedor. Ela era uma ruína
ofegante e trémula, com a visão reduzida a uma névoa cinzenta e escura. O seu
corpo, exausto e quebrado, começou a inclinar-se para a frente, pronto para
cair na escuridão acolhedora.
Foi
então que a mão aberta de Dominique atingiu o lado do corpo dela. Não foi
apenas uma bofetada; foi um impacto brutal e calculado. O estalo dos nós dos
dedos dele contra as costelas dela foi seguido por uma linha de fogo ardente
onde o anel de sinete dele rasgou a pele dela, provocando um fino e imediato
fio de sangue. O choque dessa nova dor aguda causou um choque em todo o seu
corpo, uma lança a cortar seu flanco. A sua respiração parou, depois explodiu
em uma série de suspiros rápidos e superficiais, o peito arfando em um ritmo
frenético e em pânico. Seu corpo traiçoeiro exigia, com urgência animal,
que ela se esvaziasse, que se rendesse por completo ao terror.
Ela recusou.
Com um esforço puro e sobre-humano, forçando uma contração que lhe arrancou um
gemido gutural, ela reconquistou aquele centímetro cúbico de território
próprio. Endireitou a coluna, os olhos turvos fixando-se em Dominique. O
suor, o sangue e a urina retida eram agora seus aliados, provas de uma batalha
que, no nível mais básico, ela ainda não havia perdido.
Dominique enfiou a mão nos cabelos
encharcados de suor dela e puxou a cabeça para trás, o puxão repentino em seu
corpo sensível foi como uma coroação de espinhos. Ele força os olhos turvos
dela a se encontrarem com os dele. A expressão dele era uma máscara
impenetrável, mas o olhar era o de um cientista a observar uma amostra
resistente.
—Tem espírito, Boucher — ele admitiu, a voz
sem elogios, apenas constatando um facto. —Mas o espírito é um fogo que queima
com combustível. Vamos ver quanto tempo o seu dura quando começarmos a queimar
os resíduos.
E se Deus alguma vez se importou, Ele não a
tinha abandonado agora. A Sua presença era o seu ódio indomável.
Ela sabia, com uma certeza que era mais
profunda do que o medo, que tinha de aguentar. O interrogatório estava longe de
terminar. Mas quando ela encontrou o olhar de Dominique, o seu próprio olhar,
embora inundado de dor, mantinha um lampejo de desafio inabalável. Ela não lhes
daria essa satisfação e isso, ela podia jurar por Deus.
Ainda não, prometeu a si mesma, o pensamento
um voto silencioso e firme na tempestade do seu sofrimento. Não assim.
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
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